sábado, 2 de janeiro de 2016

Lolita Pille no inferno

Lolita Pille, autora de Hell: Paris - 75016, autoficção que narra a vida tresloucada das patricinhas endinheiradas de Paris 

Muitas publicações caem no gosto dos leitores médios, mas depois afundam-se no mar impiedoso do esquecimento. Lolita Pille, uma francesinha bem-nascida e muito bonita, aos 21 anos estreou na literatura com Hell: Paris - 75016  (Intrínseca, 2003, tradução de Júlio Bandeira), livro que excitou a massa leitora no mundo inteiro pelo exotismo do ambiente e dos personagens da alta sociedade francesa, exuberantes, sensuais, pródigos porras-loucas arrogantes.

Sua narrativa tem elementos autobiográficos, mas a autora estava no olho do furacão da vida fútil e conhecia bem o ambiente para saber captar a essência dele sem ser ela mesma o tempo todo nessa história. Depois, Lolita escreveu outros livros, Bubble Gum (2004) e Cidade da penumbra, 2011 (ambos pela Editora Intrínseca), que não chamaram mais tanta atenção.

De fato, Hell tem um abre eletrizante e intimidador. Como um grã-fino grosseiro e violento que sai do carro na hora do congestionamento e começa a metralhar com palavras ofensivas o pobre coitado cujo carrinho foi cutucado pelo carrão do outro, a narradora de Lolita começa seu romance assim:

“Eu sou uma putinha. Daquelas mais insuportáveis, da pior espécie; uma sacana do 16ème, o melhor bairro de Paris, e me visto melhor que a sua mulher, ou a sua mãe. Se você trabalha num lugar ‘metido’, ou é vendedora numa butique de luxo, com toda certeza gostaria que eu morresse; eu, e todas as minhas iguais. Mas a gente não mata a galinha dos ovos de ouro. De forma que a minha espécie insolente irá perdurar e proliferar...

Sou o símbolo manifesto da persistência do esquema marxista, a encarnação dos privilégios, os eflúvios inebriantes do Capitalismo.

Como digna herdeira de gerações de mulheres da sociedade, passo muito tempo na boa vida cobrindo de esmalte minhas unhas; folgada tomando banho de sol; com a bunda sentada numa poltrona com a cabeça entregue às mãos de Alexandre Zouari, ou olhando vitrines na rue du Faubourg-Saint-Honoré, enquanto vocês passam o tempo todo trabalhando para pagar as porcariazinhas de que precisam.”

O estilo de Lolita é semelhante àquele usado por Gabriel Pensador na música Retrato de um playboy: “Sou playboy, filhinho de papai/ me afundo nessa bosta até não poder mais.// Sou playboy, filhinho de papai/ sou um débil mental/ somos todos iguais”, que, diga-se de passagem, veio em 1993, dez anos antes da narrativa de Pille, que tem o valor de ser inebriante, como aqueles vinhos baratos que a gente toma, fica bêbado, e como consequência tem uma dor de cabeça incrível no dia seguinte.

É o tipo de livro que faz o percurso inverso dos que nascem como ensaio sociológico e viram literatura, como Os sertões, de Euclides da Cunha. Hell foi concebido como romance literário, retratando uma dada realidade, realismo-naturalismo da alta sociedade, mas receio que vá morrer nos cantos esquecidos dos sebos como um pequeno tratado sociológico, uma história da vida privada dos abastados.

Digo isso do ponto de vista estilístico, dos procedimentos literários. Parece mais uma narrativa jornalística, do jornalismo gonzo, só que não. Mas há uma sacação interessante. A narradora desfila o que há de pior no coração dos homens. Não há ali uma cartografia da alma nobre. Há apenas um conjunto de baixezas e de preocupações com a materialidade da vida, um espécie de vômito ou enjoamento do real rico, em que tudo passa pelo desejo de posse, não há outro tipo de desejo, nem de sentimento que não seja a animalidade do sexo e da grana como locução derivativa do poder.

Nem nas classes mais abjetas em termos de humano, como a alta burguesia, a vida se desenvolve apenas em torno da grana e dos inúmeros benefícios que ela traz. Há na vida os 50 tons de vermelho, matizados por outros incontáveis tons de tudo, de negro, de azul (de blues), de rosa, de verde, de cinza e breu.

Como ferramenta importante para olhar o mundo, o livro de Lolita apresenta um dado interessante cuja gênese está em um compatriota dela, esse, sim, autor de literatura da raiz ao céu sem fim, Marcel Proust, que na obra Em Busca do Tempo Perdido mostra o comportamento da nobreza em decadência material na comparação com a burguesia em ascensão material.

Se a nobreza não tinha coração na hora de executar demandas de poder, defender seus privilégios, por exemplo, tinha coração na hora de olhar para baixo. Um homem de coração nobre é um homem que sabe lidar com aquele que está abaixo, mesmo que simbolicamente. A burguesia nem isso tem. É o que nos mostra Proust. Pille escancara isso em Hell, mostra-nos em plena forma os bisnetos dos burgueses mostrados por Proust, sentindo, pensando e agindo às claras, como vampiros que não mais têm medo da luz, e sob o sol sai à caça de sangue fresco.

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