quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Então, é isso!

A palavra, sozinha, como unidade sintática, não dá conta de muita coisa, embora consiga seus feitos. Nas tradicionais aulas de sintaxe, aprendemos que silêncio, fogo e outros vocábulos carregam um sentido prático, específico e poderoso, capaz de salvar vidas. Nas artes de modo geral, ela pode ser combustível de algum mistério, elemento-cebola de certas tramas, que vai sendo despido de seus significados até que se vislumbram imagens estupendas, ou encerra-se em um enigma para sempre.

Mas a maneira como uma vai imbricando na outra, como umas saem do coração das outras, e se abraçam, se beijam, ou viram-se as costas e se pretendem tão diferentes que nos enganam, é quase mágico. Talvez seja a verdadeira magia. Mais do que isso, ela, a palavra, revelada no esplendor estético, salva o mundo, ao menos o mundo particular, e juntas, elas, as palavras, servem-se de tijolos na construção da morada do ser, a linguagem, para citar vagabunda e levianamente Heidegger.

Quando escavamos mui cuidadosamente cada palavra, trazemos à tona seus velhos significados e não raro deixamos escapar uma exclamação: “Então, é isso!”. Nessa aventura pela floresta verbal, passeando por caminhos quase apagados pelo tempo e pela urgência da fala, descobrimos ouro e ganga, flor e pedra, antigas urdiduras que vêm transportando nossa consciência desde séculos, e pequenas armadilhas também.

De vez em quando, aventureiros mais argutos, que usam o patrimônio cognoscitivo como o sol que ilumina o mundo, para citar Schopenhauer, sobe ao topo das árvores mais altas dessa floresta e descobrem paisagens inéditas. Outros descem nos vales, e de igual modo nos servem com elementos da depressão e da escuridão de nós mesmos. E há ainda, poucos, que fazem as três coisas, descem, sobem e se nivelam, oferecendo-nos para sempre a genialidade no trato com as palavras, com a edificação da linguagem.

As palavras em conjunto formam textos, e texto é o tecido sobre o qual se constrói a consciência. Mas elas separadas também agem, fazem seu próprio texto e sua própria história. Se começarmos pelo banal, temos o verbo conjugar, cujo significado é nada mais que pôr jugo no tempo, nas pessoas e no modo de dizer. Jugo é canga, é aquilo que se põe nos bois para que, juntos, carreguem a carga. O verbo e o sujeito amarrados um ao outro, ou seja, conjugados, transportam a carga semântica.

O sujeito, portanto, ao falar, traz amarrado consigo o tempo, e para se referir ao outro, ata-lhe o tempo e o modo, o que muitas vezes não o faz com a melhor das intenções. A mesma palavra, jugo, aparece nas relações maritais. Quando as pessoas se casam, põem-se jugos umas nas outras, muito embora o jugo geralmente fique sob o controle do marido, e por isso mesmo as mulheres, com razão, querem quebrar essa tradição de estarem subjugadas.

O verbo namorar escamoteou o amor. Mas ele está lá, presente no cerne do seu significado. As forças interativas das palavras ignoram barreiras, às vezes. Enamorado, em espanhol, por exemplo, quer dizer apaixonado. Em inglês apaixonado é “in love”, ou seja “em amor”. Essas duas acepções, em línguas de origens diferentes, se aproximam do verbo namorar em português. É que namorar vem formado por em + amor + ar. Em amorar, enamorar, namorar. O amor continua lá dentro. Ou melhor, namorar é a busca íntima do amor.

Namorar também é o que faz a porca com o parafuso. As expressões que vêm dessa conjugação, a la casa de materiais de construção, são bem eróticas, frequentemente pornográficas, como no verbo “to screw”, em inglês, que quer dizer parafusar, gíria para o ato da cópula, em uma linguagem adulta e íntima. Mas não em vão. A palavra porca, que se refere à peça que serve como encaixe do parafuso, chama-se porca justamente porque o tal parafuso se assemelha ao pingolim do porco.

E a grandeza prometida? Fica para outra ocasião, que pode ser oferecida por uma alma mais elevada. Por enquanto, o importante é o leve espanto e o nado de braçadas cautelosas. Porque se é floresta, também é oceano. “E é doce o naufragar-me nesse mar.”


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