quarta-feira, 23 de abril de 2014

Lima Barreto e a consciência negra

Em Triste fim de Policarpo Quaresma, Lima Barreto faz duras críticas a uma nação mestiça que quer ser branca. Seu romance é muito mais que isso. Todo ele portanto não cabe em um espaço tão exíguo como este. Mas cabe aqui falar desta questão cara a nós negros e à parte da sociedade brasileira comprometida com a consciência histórica e nossa formação identitária.

Lima Barreto é um autor grandioso, e seu romance mais emblemático é um legado essencial de nossa cultura. Dentro dele haverá sempre uma surpresa de abordagem sobre diversos aspectos de nós mesmos. E dentro desse escopo, uma questão importante e fundamental: a figura do preto que se apresenta em múltiplos matizes  e o papel da cultura negra na formação do Brasil moderno.

A maneira como essa presença se costura dentro do romance é sutil, mas fulcral. Os mestiços atravessam a sociedade sem alarde: Ricardo Coração dos Outros (“cabelo áspero”), o Major Bustamante (“aquele velho mulato”) e o tenente Fontes (“moreno carregado”) são mestiços, mas a indicação aparece apenas uma vez para cada um, e representa bem o modo como essa sociedade procura se escamotear (sem levar em conta aqui o alto custo e as razões da sujeição emocional).

Os dois últimos já estão integrados no mundo dos brancos. Coração dos Outros, não. Ainda precisa ascender. Ele compunha modinhas populares no violão, que na época era visto como um instrumento de pretos e pobres, mas estava disposto a deixar para trás sua vocação, caso recebesse alguma proposta que o colocasse entre a alta sociedade. Eis umas das severas críticas.

Por outro lado, temos a figura do violão, a citação de um dos mestres reais desse instrumento, Domingos Caldas Barbosa, e do lundu (canção popular negra, precursora do samba), a presença da tia Maria Rita, “uma preta velha, que morava em Benfica”, que poderia arranjar uma festa na casa do general Albernaz ao modo mais plebeu, a um modo que trouxesse o “desejo de sentir, de sonhar, de poetar à maneira popular.”

Nessa luta de Coração dos Outros (sobrenome que remete a uma deia de marginalidade, de não pertencimento, a uma carência de afeto), ele acaba maldizendo um negro violonista que estava começando a fazer sucesso, enquanto ele, Coração dos Outros, era esquecido. Em seu ressentimento, mestiço que era, tocando um instrumento relegado aos negros pobres, faz uma observação que coloca a cultura negra no cerne da sociedade. Não entendia a razão de o deixarem para trás, “ele que trouxera para esta terra de estrangeiros a alma, o suco, a substância do país!”

Esta observação de que o negro flexibilizou as relações sociais e depositou um tipo de afeto, de intimidade, importante da nossa cultura hoje em dia, vale por centenas de palavras. Lima Barreto estava à frente.

(Gilberto G. Pereira. Publicado originalmente em O Popular, 22/04/2014)
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