domingo, 5 de janeiro de 2014

Um exemplo da técnica de Murakami, autor de 1Q84


A rica trama da obra gira em torno de Tengo e Aomame. Certo parágrafo sobre a infância de Tengo é todo exterioridade. Mas numa palavra banal, até, o leitor passa a ver tudo de modo diferente: “Para muitas pessoas, a manhã de domingo simboliza um momento de descanso. Mas, quando criança, Tengo nunca associou a manhã de um domingo com algo alegre. Muito pelo contrário, os domingos sempre o deixavam triste.”

Tudo em volta é o que acontece com os outros ou até mesmo o que acontece com Tengo. O domingo é algo exterior, não é subjetividade, é um processo de objetivação do mundo. Tudo é fora, inclusive a palavra alegre, que é a antítese do sentimento de Tengo, menos a palavra triste, sua condição cabal. E o narrador pega essa mísera palavra que denota uma interioridade, um sentimento, uma manifestação subjetiva, e a envolve numa série inumerável de acontecimentos repetitivos no maldito domingo, um não, vários (todos), da infância de Tengo. Nessa ocasião, ele acompanhava o pai no trabalho de cobrança de porta em porta.

“Houvesse o que houvesse, todos os domingos, da manhã até o entardecer, ele precisava acompanhar o pai no roteiro de cobranças. Era uma regra imutável. Uma regra que não admitia exceção e que não tinha margem para nenhum tipo de mudança. Mesmo gripado e tossindo sem parar, mesmo com febre ou com dor de barriga, seu pai não o poupava. Quando estava nesse estado, caminhando com dificuldade atrás do pai, Tengo imaginava como seria bom desmaiar e morrer ali mesmo.”


Em outra passagem sobre Tengo, a desconstrução que parece vir de fora, vem de dentro, e aí é mais avassalador.

“Ele não era bonito no sentido convencional dos padrões de beleza, nem era do tipo extrovertido, e suas conversas não eram exatamente divertidas nem interessantes. Sempre estava sem dinheiro e suas roupas não eram boas. Mas, assim como certas plantas exalam um aroma que atrai os insetos, ele conseguia atrair um certo tipo de mulher.”

A marca do realismo nessa trilogia de Murakami também é interessante. Ele usa a linguagem realista como isca para fisgar o leitor e o levar para o reino sombrio de sua ficção. Parece ser o mais ocidental dos autores japoneses. Só parece. Assim como o Japão assimilou a técnica de produção do fordismo para depois criar o just in time e uma série de inovações no sistema de produção, adotou os gestos americanos, o olhar ligeiro do mundo capitalista, mas não se sucumbiu a ele, Murakami recupera de modo diferente, sui generis, as fábulas do Ocidente. É uma espécie de Kurosawa da literatura.

Veja uma descrição de Aomame

“Aomame tinha um cuidado especial com suas refeições. Eram à base de verduras, legumes e frutos do mar, principalmente peixes de carne branca. Quanto às carnes, comia de vez em quando a de frango. Os ingredientes eram sempre frescos e, para temperá-los, utilizava o mínimo de condimentos. Evitava alimentos com alto teor de gordura e controlava a quantidade de carboidratos.”

Mas não é isso que interessa nela. Interessa, isso, sim, sua solidão, o não dito da forma como ela se apresenta ao mundo do leitor. Aomame é quase invisível porque é transcendental, como Tengo, eles, opostos na forma, são íntimos, similares, na essência estranha de seres transcendentes, de um mundo mágico, de um universo surreal, que no fim das contas é o próprio reflexo da ficção de Murakami.

O que ele faz em sua literatura é mais ou menos o que faz Rubem Fonseca aqui no Brasil, mas de modo diverso, claro. Ambos se valem do real como ferramenta para transcender, para fisgar a alma do leitor. São como demônios. Apropriam-se da alma do leitor, aproveitando sua entrega.


É bom lembrar, no entanto, que este é apenas um tipo de literatura. Não encerra a essência da arte, não chega sequer ao topo, ou à ponta, dos fios que tecem a magia de narrar. Murakami parece superar os mestres (Akutagawa e Mishima, sobretudo) na delícia da prosa, mas no poço das verdades, onde estes estão descendo lá no fundo, aquele ainda se engancha com as pernas pelo meio da descida.
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