sábado, 22 de outubro de 2011

Os desbravadores de mundos



No mundo da leitura, muitas são as maneiras de se buscar um novo livro ou um novo autor. As listas são um exemplo de como as coisas podem ser facilitadas, principalmente quando o organizador é gente da melhor qualidade para indicar alguma coisa.

Não é à toa que Umberto Eco, recentemente, lançou um livro chamado A vertigem das listas, para dizer que esse tipo de exercício vem de época muito remota e sofre mudanças séculos afora. Mas o que nos interessa aqui, neste momento, é um quadro mais variado e recente, de um fenômeno novo no mercado editorial, a lista de pessoas ou acontecimentos ao longo dos tempos.

No Brasil, quem lidera esse tipo de publicação é a Difel, selo editorial da Bertrand Brasil, que por sua vez faz parte do grupo Record. Em 2001, a Difel traduziu As 100 maiores personalidades da história. No ano seguinte, publicou Os 100 livros que mais influenciaram a humanidade, do admirável Martin Seymour-Smith (1928-1998), que havia lançado seu livro na Inglaterra no ano que viera a falecer.

Depois disso, uma série de outros livros com a mesma intenção veio a público pela mesma editora, mas quase todos de edições estrangeiras diferentes, como Os 100 maiores cientistas da história, Os 100 maiores mistérios do mundo, Os 100 maiores líderes militares da história.

Recentemente saiu Os 100 maiores visionários do século XX (Difel, 2011, 452 páginas, tradução de Milton Chaves de Almeida, R$ 49), organizado por Satish Kumar e Freddie Whitefield. Neste caso, cada um dos visionários ganhou um verbete, na maioria, escrito por outros autores que têm um conhecimento profundo sobra a obra do verbetizado. Raros são as autorreferências.

O livro foi publicado originalmente pela editora da revista britânica Ressurgence, que circula há 45 anos debatendo questões sobre o meio ambiente e suas conexões com a sociedade e o modo de vida sustentável. As pessoas que aparecem na lista estão ligadas de alguma forma à publicação, ou por terem escrito artigos para ela, ou por terem sido assunto recorrente em seus editoriais.

Nomes

De Jacques Cousteau e Gandhi a Bob Dylan, o livro se divide em visionários ecológicos, espirituais e sociais. As histórias contadas ali conseguem despertar o interesse do leitor, mas muitos verbetes não dão conta de retratar a luz presente em cada um desses visionários, e mesmo o conceito de visionário fica à deriva, à espera de uma interpretação de quem lê.

Segundo os organizadores, visionários são aqueles que entenderam bem o mecanismo de opressão e das guerras que solaparam o século XX, viram com profundidade a estupidez por trás disso e quiseram denunciar, muitas vezes pagando caro pela iniciativa do protesto. Um dos casos mais conhecidos, que está na lista, é o do líder da consciência negra Martin Luther King, assassinado em 1968.

Se por um lado, alguns perfis não funcionam, como o que buscou retratar Carl Gustav Jung, por outro, quando o autor do texto consegue dar seu recado, as pessoas surgem com a força e o carisma que elas devem ter de verdade, a força que as levou para lista, e aí, é um prazer descobrir a grande aventura humana.

Há nomes que já estão na cabeça do grande público leitor. O que vale, no entanto, é enxergar os que estão distantes do nosso conhecimento, como a ecologista Terry Tempest Williams. O texto sobre ela nos convida a entrar em seu universo, e de quebra já aponta o caminho, sabendo das limitações do espaço que tem para dizer tudo sobre uma mulher fantástica.

“Se quer saber por que precisamos tanto de Terry Tempest Williams e de sua voz no mundo, leia Labor. Leia qualquer texto que ela tenha escrito, mas sobretudo esse ensaio lírico, redigido aos 44 anos, na virada do milênio, pela autora amante da natureza nascida em Utah [Estados Unidos].”

Terry é uma escritora ambientalista. Seus livros chamam a atenção para as diversas maneiras de nos conectarmos com o planeta, coisa que não conseguimos fazer mais. Sua família trabalha com instalação de tubulações no deserto, terra que ela conhece como ninguém. “Seu trabalho é tão político quanto poético”, diz Mark Tredinnick, autor do perfil de duas páginas.

“Ela tem uma eloqüência profética que permite que seus leitores – e os alunos e filhos desses leitores – imaginem que outro mundo é possível e vejam como podem, desde já, ajudá-lo a se tornar realidade”, comenta Tredinnick.

Bravura

Talvez os textos que cobrem os visionários ecológicos sejam os mais instigantes, porque retratam as pessoas menos conhecidas pela grande massa, embora muito respeitadas em seu meio e no ambiente do poder. É o caso da norte-americana Rachel Carson, que enfrentou a poderosa indústria química de defensivos agrícolas e pesticidas, como a Monsanto.

No final dos anos de 1940, havia uma política agressiva de pulverização aérea sobre cidades, fazendas e florestas com o pesticida DDT, nos Estados Unidos. Rachel era contra, e travou uma colossal batalha para impedir essa espécie de limpeza química.

Em 1962, ela publicou o livro Primavera silenciosa, chamando a atenção do mundo inteiro e principalmente da sociedade americana para os problemas que poderiam decorrer daquela política. O então presidente John F. Kennedy passou a dar mais importância ao caso.

Kennedy pediu um estudo detalhado sobre a questão do DDT. Para tanto foi criado “um comitê de investigação do uso de pesticidas, o qual produziu rapidamente um relatório criticando as indústrias químicas e endossando os pontos de vista de [Rachel] Carson.” A batalha vencida pela visionária foi de suma importância para o meio ambiente, mas a guerra continua até hoje.

No campo dos visionários espirituais há nomes como o do libanês Kahlil Gibran (1883-1931), que pedia retoricamente: “mantenham-me longe da sabedoria que não chora, da filosofia que não ri e da grandeza que não se curva diante das crianças.” Pregava a humildade, que para ele era “a interligação entre todas as coisas”.

Vivia modestamente, se dedicando apenas à vida espiritual, escrevendo livros que de alguma forma pudessem levar mensagem de conforto e sabedoria a quem precisasse. Sua frugalidade também era bastante conhecida. Recusava todos os assédios da vida confortável que lhe chegaram após a fama.

“Mesmo na década de 1920, quando a fama – e até a adulação – e alguma riqueza vieram ao seu encontro, ele continuou a morar num estúdio de cômodo único em Greenwich Village, Nova York”, diz o autor de seu perfil, Robin Waterfield.

Bom vinho

Nesse desfile de nomes, outras figuras interessantes aparecem com o crédito de visionárias e ativistas importantes, que ainda dão as cartas em nossos dias. É o caso do italiano Carlo Petrini, criador do conceito de alimentação chamado Slow Food (contrário do Fast Food) e do movimento Terra Madre, mundialmente conhecido, que valoriza a produção de alimentos orgânicos.

Petrini está na categoria de visionário social, mas poderia estar também na de ecologistas. Segundo ele, “o agrônomo que não é ambientalista é idiota, e o ambientalista que não é agrônomo é um caso triste de pessoa.”

Os 100 maiores visionários do século XX é um livro para se ler como quem garimpa em páginas, de preferência tomando um bom vinho, com a calma da degustação. É uma espécie de amostra de grandes espíritos. Quem quiser se aprofundar, que corra atrás dos que lhe chamarem mais atenção. No final, há dicas de páginas na internet de cada um.

(Gilberto G. Pereira. Íntegra do texto publicado originalmente na Tribuna do Planalto)

4 comentários:

sonia disse...

Muito obrigada por suas dicas preciosas no texto. Podemos dar uma pesquisada em nomes que praticamente são desconhecidos aqui no Brasil e assim ficaremos sabendo um pouco sobre essas criaturas divinas!
Abraço

Gilberto G. Pereira disse...

Eu é que agradeço pela visita, Sônia! Abraço!

A. Marques-Rodrigues disse...

Parabéns pelo blog, cheio de preciosidades.

Abraços.

Gilberto G. Pereira disse...

Obrigado, A.! Seu blog também é muito bom. Abraço!