domingo, 12 de junho de 2011

No mundo veloz, um pit stop para o amor

Renato Russo (1960-1996): "sou um animal sentimental"


O artista popular pretende fazer de sua voz a voz de todos. Alguns atingem esse ideal com mais facilidade e com mais arte. É o caso de Renato Russo, com a banda Legião Urbana, que falou de amor como poucos e colocou em cada canção do gênero um sopro de desespero e sofreguidão, como é mesmo o amor romântico.

Ele trouxe em suas letras uma carga de paixão que é bem a cara da juventude em processo de descoberta – e desilusão – do mundo. Não eram só as letras, era a voz desajeitada, o ritmo, a leveza entre metais, e, claro, a comunicação direta ao coração dos jovens.

Só os jovens amam. Só a juventude sente o fulgor do amor, a dor, a febre, o dilaceramento, só o espírito aberto à experiência reveladora da fragilidade e da permissividade é capaz de amar apaixonadamente e ter vontade de dançar, cantar ao outro, cantar o outro. Não é a idade, definitivamente. É a alma, a alma.

Ouvir Legião não é só isso, claro. Ainda hoje, não é só o amor. Há o questionamento do poder, dos costumes, da falta de perspectiva aos próprios jovens, o questionamento da dignidade vilipendiada, da violência urbana. Como compositor, ele apontava o dedo para a cidade, onde todos fingem "viver decentemente" e ninguém se entende muito bem.

Mas no caso das histórias de amor e da natureza humana que Russo cantava, o que arrebatou muitos adolescentes, meninos e meninas, foi essa sua pegada romântica e rebelde, que acha que possui "todo o tempo do mundo", e ao mesmo tempo tem absoluta consciência de sua finitude. Daí a vontade de atropelar as horas e fazer tudo de uma vez.

Essa consciência de que o mundo é veloz fazia-o dizer que não tinha tempo a perder. E nesse sentido o amor vinha para aliviar a alma. O problema é que não aliviava nada. Era a felicidade perdida. E sentia necessidade de falar disso. Por outro lado, quem acha que falar de amor é tempo perdido, não gosta de Legião Urbana.

Questionamento

O amor aparece nas canções de Renato Russo como uma espécie de pit stop para consertar o estrago causado pela ferocidade do mundo que continua a mil, sem parar. "Eu também sei que dizem que não existe amor errado", diz em uma das canções de A tempestade – o livro dos dias, último álbum lançado pela Legião antes da morte de seu líder.

Russo faleceu aos 36 anos, em outubro de 1996. Este ano, portanto, celebram-se os 15 anos de sua morte, a musa velada de seu último trabalho. Ao longo da carreira, ele veio pontuando as canções de protesto, da atitude de roqueiro, com uma inegável vontade de entender o amor. Chegava ao limite da breguice total, do sentimentalismo rasgado. "Quem inventou o amor?/ Me explica por favor."

Mais do que querer dizer o que era o amor, Renato Russo se jogava no mar da indefinição para indagar sobre o assunto, perscrutando a natureza do sentimento amoroso. Para ele, amar era uma incógnita, não fazia muito sentido. Era coisa do coração. Em Eduardo e Mônica, ele questiona "Quem um dia irá dizer/ Que existe razão/ Nas coisas feitas pelo coração?/ E quem irá dizer/ Que não existe razão?".

Em suas canções, o amor quase sempre ficou para trás, e ele está na fossa. O amor é mais real quando fala de outros, como na própria canção Eduardo e Mônica. Aqui o amor parece ficar mais claro. É a história romântica entre duas pessoas completamente diferentes.

"Mesmo com tudo diferente, veio meio de repente uma vontade de se ver", diz a canção. O interessante é que a mulher aparece como um ser mais evoluído. Eduardo surge na música como uma pequena anta em estágio de evolução, salvo pelo amor de Mônica, salvo pela mulher. É típico de como Renato Russo via o mundo, avesso à grosseria machista, adepto da singeleza das coisas.

Era homossexual, mas não fazia muita firula em torno disso. Pelo menos em suas canções. Quase todas elas versavam um amor que servia para todos os tipos de relações. E estava correto. Afinal, o amor em si não toma partido, não é heterossexual, nem homossexual, é homogêneo, no sentido de ser capaz de se fundir na natureza subjetiva.

Plural

Quando lançou o primeiro álbum de estúdio, Legião Urbana, em 1985, já trazia uma série de futuros sucessos, como Geração coca-cola, Ainda é cedo e Será. Nesta última, ele já fala de amor. Ou melhor, indica a possibilidade daquilo que não é amor: a dominação de um, aproveitando a solidão do outro.

Mas tudo era indagação. Sempre procurou ser plural, tentando pôr pelo menos os dois lados da moeda, evocando o direito à dúvida, procurando não se colocar como o dono da razão. "Acho que entendo o que você quis dizer." É o tipo de coisa que ele gosta de falar em suas letras. "Acho que te amava, agora acho que te odeio", e assim vai.

"Meninos e meninas" está cheio de 'achos', que revelam um pouco da identidade de Renato Russo, não só a identidade sexual, mas a própria consciência, a vontade de estar aberto ao mundo e captar as contradições no pulo do gato. E parece que quanto mais tentava essa loucura, mas se sentia longe de todos, mais ficava só, porque todo mundo adora se rotular.

Ninguém entendeu Renato Russo quando quis gravar – e gravou – as canções que fizeram sucesso na voz da italiana Laura Pausini, como Strani amori e La solitudine. Elas falam disso, elas também ajudam o sujeito moderno a se reencontrar no mundo tão complicado de hoje, em que parece ser vergonhoso falar de amor.

"Sou um animal sentimental", diz ele em Sereníssima, do CD V, de 1991. Esse tipo de confissão arrebata a preferência de quem ainda quer lutar por alguma coisa, inclusive pela possibilidade de amar. Renato Russo falava de amor para todos os gostos.

Talvez por isso seu álbum mais expressivo, em termos de vendagem e de popularidade, tenha sido As quatro estações, de 1989. "É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã", diz em Pais e filhos. Mas foi Monte Castelo a canção que virou hino de todo mundo.

Nesta canção, ele faz três citações, mas as pessoas se ligam em apenas duas delas, as mais explícitas. Falar de amor, no entanto, às vezes requer a habilidade do poeta, no sentido mais ambíguo da expressão, porque o compositor se condensou poeticamente nesta canção e ao mesmo tempo evocou o poeta máximo da língua portuguesa.

Em Monte Castelo, Renato Russo usou a imagem (tácita) da batalha homônima da Segunda Guerra Mundial, em que as tropas da Força Expedicionária Brasileira (FEB) lutaram contra soldados nazistas. Ao situar a condição humana dentro desse recorte fatídico, com a violência em seu grau máximo, fica fácil compreender a súplica do amor.

"Ainda que eu falasse/ A língua dos homens/ E falasse a língua dos anjos,/ Sem amor eu nada seria." (...) "É só o amor/Que conhece o que é verdade", diz a canção, repassando um trecho das Cartas aos Coríntios, de Paulo, para depois citar Camões. "O amor é o fogo que arde sem se ver;/ É ferida que dói e não se sente;/ É um contentamento descontente;/ É dor que desatina sem doer."

Renato Russo faz a palavra bíblica – que fala de um amor sacro – se transformar num hino universal do amor profano, o amor de todos, de homem e mulher, por homens e mulheres, em que há o interesse sexual e uma inquietação quântica, mutável (pleno de contradições) e reverberante sempre.

Ele foi um grande cúmplice da juventude, porque também era jovem, e o será sempre, porque seu espírito permaneceu em todas as suas canções. "Eu erro também... Eu minto também". Suas palavras são sempre polifônicas (marca do poeta que havia nele, leitor de Rimbaud). Nas histórias de errante para descobrir – ou simplesmente questionar – o amor, a grande vilã era a solidão.


A solidão é contrária ao amor, e no lirismo de Renato Russo ela figura como a negação mais marcante. "Tudo está em paz. Os dias são iguais. Se fosse só sentir saudade. Mas vem sempre algo mais. É uma dor que dói no peito. Pode rir agora, que estou sozinho."

O estado de espírito solitário aparece em várias canções da Legião Urbana, seja para contrapor ao sentimento amoroso, seja para ferir a vida ativa das contestações. Estar só significa não poder fazer nada, nem amar, nem conversar, nem fazer amigos, nem fazer amor.

Neste sentido, há um poema de Paulo Henriques Britto que diz o seguinte: "Nenhum sinal da solidão se vê/ lá onde o Amor corrói a carne a fundo./ Dentro da pele, no entanto, você/ é só você contra o mundo." Estar longe do amor é estar longe de tudo.


São visíveis (ou seria audíveis?) as queixas de Renato Russo em suas canções de amor e até nas de protesto (uma vez que viver, a vida em si, é uma forma de amar e de protestar). Mas ele se queixava mesmo era da solidão. Não cabe aqui xeretar a vida real do cantor, contudo, em suas canções, ele se sentia avassaladoramente só, e o amor se tornava, portanto, a eterna busca.

Em Vento no litoral, que fala de amor e solidão, ele diz: "aonde está você agora/ além de aqui dentro de mim?". É uma depressão só, e uma beleza das mais raras em melodia e letra.

Em todas as suas músicas, inúmeros versos expõem as credenciais com que muitos se identificam de alguma forma: "Eu me agarrava a ela, eu não tinha mais ninguém" (Ainda é cedo), "preciso de carinho" (Meninos e meninas), "é só você que me entende" (Índios), "muitos temores nascem do cansaço e da solidão" (Há tempos). "É complicado estar só" (Natália).

Não soa ridículo, nem fora do senso, dizer que um dos grandes legados de Renato Russo à juventude de todos os tempos foi essa necessidade de falar de amor. É o balanço do berço. Independente de que seja e quem o inventou, qual seja seu significado, vale a pena, sim, ouvir e falar de amor, sentir, viver, se perder e se reencontrar no amor. Afinal, o mundo anda tão complicado.

10 comentários:

João Araújo disse...

oi gilberto,
lembro como fosse ontem o dia da morte de Renata Russo. Legião... acho que foi a banda que mais ouvir

Gilberto G. Pereira disse...

Oi, João! Obrigado pela visita!

Webston Moura disse...

Oi, Gilberto! Eu também sou dessa geração. Era adolescente quando tudo isso explodiu. Lembro que, quando surgiu Legião Urbana, só eu, na sala de aula, dizia que iria ser o máximo. O restante torcia o nariz. Acho que faltou um encontro especial: o de Renato Russo e Cazuza! Já pensou os dois num palco, um dueto. Bom, já se foram. Coisas da vida. Viraram purpurina, como se diz. Restam uns poucos, dentre esses o Lobão, que tem falando mais que qualquer outra coisa. Parabéns pela postagem! Abraços!

Gilberto G. Pereira disse...

É verdade, Webston. Cazuza também sabia falar de amor. Ele fez umas letras bem emblemáticas. No lugar da dor e da solidão de Renato Russo, Cazuza fazia questão de de dizer que o amor era uma coisa inventada, fictícia, e fazia uns versos geniais, como rimar eternidade com maternidade. Grande abraço!

Josiléa Pinheiro disse...

"(...) também ajudam o sujeito moderno a se reencontrar no mundo tão complicado de hoje, em que parece ser vergonhoso falar de amor."

Concordo plenamente...

Texto agradável...Muito bom encontrar alguem que compartilhe ideias tão originais.

Um abraço.

Rodrigo Passos disse...

amei seu blog!

Gilberto G. Pereira disse...

Obrigado, pessoal! Um abraço!

SD disse...

Excelente post e análise!!!
Poxa, as músicas do Renato dizem tanto não é mesmo? Ele foi um humano exemplar do que é ser humano, racional e sentimental!

Julia disse...

Olá, Gilberto! Amo literatura e descobrir seu blog, nesse mar de informações que é a Internet, foi muito bom. Seus textos são ótimos! Virei fã! rsrsrs...
Esse post sobre Renato Russo e Legião Urbana foi um presente para nós leitores e fãs da banda!

Gilberto G. Pereira disse...

Obrigado, Julia, pela visita e pelo comentário! Precisamos de compositores sensíveis assim, né, para ler o mundo e nos ajudar a sentir esse mundo todo. Grande abraço!