sexta-feira, 26 de agosto de 2016

O livro da discórdia – Chá das cinco com o vampiro

                                                                         Foto: Gilberto G. Pereira
Detalhe do palco da Ópera de Arame, casa de espetáculos de Curitiba


Em 2010, o escritor paranaense Miguel Sanches Neto publicou o polêmico romance Chá das cinco com o vampiro, que resenhei no semanário Tribuna do Planalto, em Goiânia, mas não publiquei no Leituras. Acontece que o site do jornal foi reformulado e o texto não aparece mais em seus arquivos online. Por isso, decidi publicá-lo na íntegra aqui, equivalente a duas páginas.

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“Gostei muito de seu livro. Ele mostra quem somos de uma maneira meio rancorosa mas bonita.” Esta frase poderia ser dita por qualquer leitor de Miguel Sanches Neto, qualquer leitor atento e que gosta da boa literatura, aquele que sabe passar por cima das tramas leves para atingir o cerne da questão estética, ao ler seu romance mais recente (2010), Chá das cinco com o vampiro (Objetiva, 2010, 286 páginas).

A trama leve, neste caso, é aquela que acerta em cheio a vaidade de escritores como Dalton Trevisan, Wilson Bueno e Fábio Campana, para citar os vivos (Wilson Bueno faleceria ainda naquele). Em Chá das cinco, Sanches Neto cria uma narrativa que vai do romance de formação ao roman à clef. É nesta parte, chave que liga a ficção com personagens reais, que o livro causou espanto e espalhou o maior desgaste pela província literária de Curitiba.

Isto porque ficou fácil identificar cada um dos modelos literários presentes no romance. Mas Sanches Neto não é um escritor ingênuo. Se há rancor em seu romance, há também, em caráter muito mais importante, uma construção literária de grande valor, em que se pode ver a precisão técnica, a disciplina narrativa, até mesmo como forma de se defender por ter criado uma ficção em cima do universo que foi parte de sua vida por muito tempo.

Beto Nunes é o narrador protagonista de Chá das cinco com o vampiro. Ele conta a história de como, em 1988, saiu de Peabiru, cidadezinha do interior do Paraná, aos 18 anos, para viver em Curitiba e lá se enturmar com o mais venerado dos escritores brasileiros e seu séquito de adoradores. Neste sentido, é um romance sobre a vaidade no mundinho das letras.

Mas é também o testemunho de um menino do interior, vivendo entre homens brutos, como o pai, e predestinado a ser, de igual modo, bruto e livre do verniz fake da civilidade, um menino inteligente e rebelde que na primeira oportunidade vai para a capital e faz-se escritor de verdade, repaginando até certo ponto a alma engessada que herdara da vida interiorana.

Em Chá das cinco, Geraldo Trentini é o escritor-deus curitibano, que procura ser bajulado por todo mundo, mas cujas amizades não demoram muito a ser desfeitas, porque a vaidade do autor e sua excentricidade, como a de ter criado em torno de si o mito de ser o vampiro de Curitiba, não o permitem ter amigos para a vida toda. É ele que Beto Nunes procura na capital e que, pela inteligência, mas, principalmente, por demonstrar interesse e conhecimento da obra, é aceito em suas relações.

Qualquer um poderia ser Trentini, mas a sugestão vampiresca e os hábitos rotineiros já sabidos, a aversão a entrevistas, a reclusão e a característica de escrever contos cada vez mais curtos não deixam dúvida de que se trata de Dalton Trevisan, hoje com 85 anos (91 anos em 2016), considerado por muita gente o maior escritor brasileiro vivo.

A partir daí, tudo que se disser de Trentini será automaticamente atribuído a Trevisan. As verdades e as mentiras do narrador protagonista bem como as invenções criativas do próprio autor na composição de Chá das cinco, tudo será debitado na conta do vampiro. Beto narra o primeiro encontro com Trentini da seguinte forma:

“— Por favor!
— Não sou quem você está pensando.
— Sei que é.
— Quem disse?
— Li todos os seus livros.
— Nunca escrevi livro nenhum.

Estamos saindo da Galeria Groff e travamos esta pequena batalha. Na porta, prestes a ganhar a rua, tento um último truque e minto, sou amigo de Valter Marcondes e escrevi um artigo sobre você. Digo meu nome.

Ele para e, pela primeira vez, me olha.”

Neste momento, o narrador formula a tese no centro da qual fixa Trentini, mas sem deixar de se incluir nela, mesmo sendo de um jeito enviesado. “O que destrói uma pessoa, qualquer pessoa, por mais reservada que seja, é a vaidade. No fundo estamos sempre querendo ser aceitos. Esperando a aprovação dos outros. E fingimos indiferença ao mundo, ou mesmo ódio, até certo ponto. Há uma hora em que nos rendemos.”

Beto procurou ser aceito e foi. Durante anos, entre o primeiro encontro com o vampiro, em 1992, até o desentendimento, no final dos anos 90, desfrutou da companhia de Trentini. Numa relação temporal um pouco diferente, também Sanches Neto conheceu Trevisan e também se afastou dele. Mas ao longo dessa convivência, o autor de Chá das cinco dedicou boa parte de seu exercício intelectual a entender a obra do autor de Novelas nada exemplares, tornando-se vítima de uma influência de estilo que até hoje, até mesmo neste romance, está presente.

Metralhadora

Em função dessa convivência, Sanches Neto decidiu escrever sobre o assunto. Ao longo da narração de Chá das cinco, vemos uma metralhadora trabalhar: Trentini (Trevisan), mestre do passado, é um escritor excêntrico, um vampiro que gosta de doce e não de sangue, um contista inclinado a divagações exibicionistas, dono de um estilo antidiscursivo, voltado ao interesse erótico pela realidade para escrever seus continhos liliputianos.

Trentini, na malhação de Beto, é um autor que não sabe se renovar e repete a mesma fórmula batida, como quem suga o mesmo cadáver pela eternidade. Mantém uma vida lastimosa e banal. Por isso mesmo, “esconder a intimidade mais ou menos medíocre fez com que sua biografia crescesse. E talvez agora só lhe reste manter o mistério”.

Da turma que segue ou seguiu Trentini como mestre, ninguém escapou da verve cáustica de Beto Nunes (Sanches Neto). Pela voz fanhosa e a sonoridade do nome, fica fácil identificar Valério Chaves como sendo Valêncio Xavier, jornalista e escritor de Curitiba que faleceu em 2008. “Não suporto o jornalista que se acha escritor experimental por fazer colagens com desenhos e fotos de velhas revistas e escrever sob elas um amontoado de asneiras”, diz Beto sobre Chaves.

Quem leu Minha mãe morrendo e o menino mentindo, de Xavier, é capaz de fazer coro com o alter ego de Sanches Neto. “Texto é uma maneira generosa de definir o trabalho de Chaves”, repete Beto em outra estocada. Orlando Capote (Fábio Campana) “se acredita escritor, apesar de ter publicado apenas um romance sofrível”. Esta observação vale para a época precisa desse trecho, final da década de 1990, não para hoje, quando Campana já tem romances de valor literário.

Da cena literária curitibana, Jamil Sneg é o único tratado com carinho e respeito. Sneg, que aparece no romance como Antônio Akel, é sem dúvida o autor das melhores crônicas sobre Curitiba e de um romance confessional fora do comum. O grande crítico literário Wilson Martins, falecido no ano passado (2009), está na trama como Valter Marcondes, e também é poupado, mas já havia se tornado o grande “ídolo” do autor.

Uílcon Branco (Wilson Bueno) é o mais terrivelmente pintado, junto com Valêncio Xavier. Ele aparece como um homenzinho mesquinho, covarde e puxa-saco, um misto de espertalhão e ser desprezível. “No começo, quando Uílcon era jovem aspirante a escritor, morria de vergonha do pai ser motorista de ônibus e tentava aparentar uma cultura que não tinha”, diz Trentini, numa conversa com Beto. Em outra ocasião, o próprio Beto afirma que os livros de Branco são “um trabalho minucioso de linguagem e uma ausência de verdade literária.”

Neste ponto, o rancor do protagonista, talvez até se estendendo ao ponto de vista do autor, não reflete todo o significado da literatura. O que é literatura senão um “trabalho minucioso de linguagem”? O que seria a verdade, neste caso? Um termo aristotélico que deveria ser melhor expresso como ‘verossimilhança interna”.

Em todo caso, Wilson Bueno é um autor que está à altura de Sanches Neto, sim. Bueno é dono de um estilo muito particular que flerta com a poesia em volts carregados. Exemplo disso é seu livro Meu tio Roseno, a cavalo, uma novela belíssima que dispensaria a lembrança de que Bueno viria a ganhar prêmios literários importantes.

Possivelmente esteja aí o maior exemplo do uso de um conhecimento específico da teoria literária para atingir uma vingança no romance de Sanches Neto. Por outro lado, pode ser que o que disse Beto não reflita mais a opinião de seu autor, uma vez que o conflito de egos, digamos assim, tenha acontecido bem antes de Bueno publicar seus principais livros.

Embora Sanches Neto tenha publicado Chá das cinco só agora (2010), este trabalho vem sendo comentado desde 2004, quando Trevisan ficou sabendo que uma biografia sua estaria sendo escrita por seu ex-seguidor. Foi a gota d’água. Trevisan pôs os dentes em riste e desandou a falar mal do ex-amigo, junto, claro, com o coro de seu séquito ordinário.


Viagem ao coração da maldade

Em 2004, Miguel Sanches Neto, já era considerado um grande crítico literário, colunista do jornal Gazeta do Povo, de Curitiba, e já tinha publicado Chove sobre minha infância, romance que deu projeção nacional ao escritor. Nessa época, ele escreveu a Carta aberta a Dalton Trevisan, em que negava estar escrevendo qualquer biografia dele, mas sim um romance que tratava da convivência dos dois e de mais uma multidão de gente. Este se tornaria o Chá das cinco com o vampiro, aventura intelectual que o autor chama de “viagem ao coração da maldade.”

“O novo romance foi escrito entre 2001 e 2003, sob um estado de espírito marcado pela decepção. (...) Embora não seja exclusividade nossa, a grande marca do paranaense é a intriga”, dissera o autor. A carta aberta acirrou ainda mais os ânimos de Trevisan, que acabou escrevendo um poema esculachando Sanches Neto: “Hiena papuda necrófila/ traveca de araponga louca da meia-noite// mente na vírgula mente no pingo do i/ mente no bico fechado mente na carta aberta/ chorrilho merdoso de intriga e falácia.”

A reação de Trevisan revela muito de sua alma ao leitor distante desta realidade e, no plano da ficção, ajuda a entender porque Beto Nunes diz que Trentini é dono de um “estilo corrosivo e impiedoso”. Desde que escreveu a Carta aberta, Sanches Neto, claro, revisou várias vezes seu romance para chegar à maneira como foi publicado.

Ainda em carta aberta, o autor diz: “Toda pessoa real, transposta para o mundo da ficção, torna-se outra, e só existe ficção quando há esta alteridade.” É neste sentido que o romance de Sanches Neto deve ser encarado pelo leitor. Como escritor consciente que é, ele mesmo já havia concluído que se Chá das cinco “é contra os escritores paranaenses, é também contra o próprio autor, que não pode se julgar acima dos demais e que confessa aqui sua culpa, sua incomensurável culpa.”

Beto Nunes, como alter ego do autor, é o mais bem desenhado, o mais corrosivo no plano da criação literária em Chá das cinco. Se Trevisan aparece como uma caricatura de seus atos repetitivos, como escritor e como homem que construiu uma imagem que tomou conta de sua própria existência, tornando-o mito, Sanches Neto é apenas a sombra na feitura de Beto Nunes. Ali existe de fato um caráter novo. E é ele que conduz a trama.

Roberto Nunes Filho (Miguel Sanches Neto), o mesmo número de caracteres para os dois nomes, é filho da classe média rural de Peabiru. Seu pai tornou-se um imprestável homem que vive apenas da renda das terras herdadas da família. Sua mãe, submissa, não consegue amar o filho na presença do pai. A pessoa mais importante na vida de Beto é sua tia solteirona, Ester, irmã de Roberto.

Ela é sua mentora intelectual e sua iniciadora nos mistérios do sexo. Os dois tiveram uma única relação sexual quando Beto tinha treze anos, em que ela fingia que dormia e o sobrinho fingia-se de bobo enquanto penetrava a tia na calada da noite. A complexidade do personagem de Beto está inserida em três questões caras à obra de Sanches Neto: literatura, sexo e religiosidade.

“Sua incomensurável culpa”, a do autor, por estar atuando como Judas, é expurgada de forma simbolicamente violenta nas atitudes de seu alter ego. Beto é subversivo ao extremo. Ele atua como um herege. Do ponto de vista moral, cada ato de sua vida é uma heresia contra a família, contra os bons costumes e, principalmente, contra o escritor-deus, Geraldo Trentini.

Relíquia

Numa das cenas mais contundentes, que vão caracterizar esta imagem, o Beto adolescente – que depois de ter cometido o incesto de segundo grau com a tia, só pensa no alívio solitário do sexo – estupra um pão, símbolo da ceia cristã. Em outra ocasião, quando vai acender uma churrasqueira, não hesita em umedecer de álcool um pão velho e queimar junto com o carvão. “— Não pode fazer isso, filho. — Isso o quê? — Queimar o pão. É o corpo sagrado de Cristo”, foi o diálogo entre mãe e filho no desfecho da subversão.

Em outro momento, Beto havia roubado a calcinha da tia para se masturbar sentindo o cheiro daquela que o despertou para o mundo, e depois de muitas homenagens decidiu recortar o fundilho da peça. “Aquela tira de tecido passou a ser meu marcador de livros, o que fez com que tia Ester habitasse todos os volumes que, por aquele tempo, eu lia.”

Ester era uma mulher culta, que havia morado um tempo em Curitiba. Como mentora do sobrinho, praticamente arranjou um jeito de ele ir para a capital e lá construir sua carreira de escritor bem sucedido, coisa que ela não havia conseguido fazer. No esquema narrativo de Chá das cinco, há um jogo de efeito bem definido, em que Beto vai contando suas peripécias de adolescente a caminho, enquanto, por outro lado, aparece em feixes de textos no meio da narração central, o Beto já consolidado em Curitiba, já amigo de Trentini e colunista do principal jornal da cidade.

Esse jogo de cena entre o Beto adolescente e o escritor vitorioso, em que a cada momento os dois se encontram na passagem de um capítulo para o outro, dá ao romance uma dinâmica vigorosa e um exemplo da técnica narrativa de Miguel Sanches Neto. O livro inteiro, nesse aspecto, aparece como uma espécie de espelho em que reflete várias imagens do curso da jovem vida sendo percorrida.

O garoto nu de civilidade, apenas com uma bagagem de leitura ainda pequena para os padrões intelectuais de uma cidade média como Curitiba, chega à capital paranaense, com roupas inadequadas, ar interiorano, e se depara com aquele desfile de prédios altos. Curitiba também entra como um personagem, um tipo nada elogiável aos olhos de Beto. A cidade é “um corpo de pele clara, silhueta esguia e com uma solene indiferença ao meu ser escurecido pelo sol e pela poeira.”

As heresias do sexo, em meio a leituras e relações sociais, e a decepção do novo escritor no final também flertam com os gostos estéticos de Trevisan, autor que sem dúvida influenciou profundamente as escolhas de Sanches Neto. Por isso mesmo estão inscritos ali autores da predileção do vampiro, como a excentricidade de J. D. Salinger, a literatura de Tolstói, e até a citação de O complexo de Portnoy, de Philip Roth, em que o comportamento sexual do protagonista também é extravagante.

A referência a J. D. Salinger pode ser entendida quando Beto já bem sucedido, cansado do joguinho de vaidades literárias, decide retornar ao campo. “Depois de conviver com escritores por algum tempo, você acaba sentindo necessidade de fazer parte da espécie humana, pois os deuses, os deuses cansam.” E vai embora.

Bíblico

Outras duas características presentes na obra de Sanches Neto, inclusive neste romance, marcam fortemente a influência que ele teve como escritor por Dalton Trevisan, coisa que o próprio Sanches Neto não nega. Uma delas é a presença forte de passagens da Bíblia, como os nomes de personagens ou temáticas que remetem imediatamente aos princípios cristãos.

Além de Ester, Beto teve outra mulher em sua vida que se chamava Ruth, outro nome bíblico. Era uma prostituta, que aparece na trama para traduzir o caráter de dualidade do romance. Ester foi a primeira mulher de Beto. Mas aos olhos do pai, foi Ruth, porque quando o filho tinha lá seus 16 anos, o pai o levou para prostíbulo com a intenção de iniciá-lo como ‘homem’, sem ter a menor ideia de que sua irmã já tinha feito isso.

Essas referências bíblicas têm a ver com Trevisan pelo fato de ter sido ele quem sugeriu a Sanches Neto o estudo da Bíblia, na tradução de João Ferreira de Almeida, como um elemento apurador do estilo. Essa história está contada numa das crônicas de Herdando uma biblioteca. Aliás, Herdando uma biblioteca é o livro-chave de Sanches Neto, porque trata do exercício do apuramento do autor, em que ele conta histórias de sua vida vivida, que posteriormente são retrabalhadas em seus contos e romances.

A insistência na reescritura é outra característica de Trevisan que está presente em seu discípulo mais rebelde. Mas ao contrário do mestre, que reescreve o mesmo texto em edições seguintes e, na opinião de Sanches Neto, vem reescrevendo a mesma coisa desde há muito tempo, este retoca situações e cenas de um texto para outro.

Autor do primeiro time da literatura contemporânea, oriundo de família pobre e sem estudo, Sanches Neto nasceu em Bela Vista do Paraíso, cidadezinha do interior do Paraná, em 1965, e aos quatro anos se mudou para Peabiru, onde viveu a segunda infância e a adolescência. Seu pai morreu quando ele ainda era criança e aí teve de dividir a presença da mãe com o padrasto.

A diferença de idade de Sanches Neto para seu alter ego em Chá das cinco com o vampiro é de cinco anos. O que dá ao autor a liberdade de inventar cenários e situações diferentes de sua real existência na linha do tempo e das experiências vividas. De Peabiru mudou-se para Curitiba para tentar outra vida. Foi quando conheceu Trevisan e passou a fazer parte de seu grupo.

Talentoso, Sanches Neto logo começou a se destacar. Publicou um livro de poemas, Inscrições a giz, e foi estudar literatura. Sempre na linha de influência de Trevisan, fez sua dissertação de mestrado e a tese de doutorado, ambas na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), estudando a obra do mestre, além de ter escrito vários artigos elogiosos sobre o autor de O vampiro de Curitiba.

Atualmente (em 2010), ele é professor de literatura na Universidade Estadual de Ponta Grossa e crítico literário do jornal curitibano Gazeta do Povo e da revista Veja. Em 2006, a diretora editorial do Grupo Record, Luciana Villas-Boas (atualmente é ex-diretora do Grupo Record), que em Chá das cinco aparece como Judith Bronfmann, já tinha dito que ele era um dos autores mais importantes que ela havia descoberto.

A Record é a mesma editora de Trevisan, mas Sanches Neto faz questão de dizer que nunca pediu nenhum favor ao vampiro no sentido de facilitar sua vida de escritor publicado. Em todo caso, o livro da discórdia mudou de rota e acabou sendo publicado pela Objetiva.

Em Chá das cinco, Beto dá a dica de como Sanches Neto decidiu sair de Curitiba e da sombra de sua maior influência. “A história literária está cheia de exemplos de personalidades fortes que sufocaram aqueles que viveram à sombra de uma produção maior.” Em outro trecho, o personagem completa: “Isolado, fui me familiarizando comigo mesmo, até descobrir que apenas negando aquela admiração eu podia chegar a uma maneira própria de fazer literatura.”

Antes de decidir voltar para o interior, Beto tinha lançado Mãos Pequenas, que retrata sua vida particular e de seus familiares. De fato é outro roman à clef, que na realidade é Chove sobre minha infância. No plano da ficção, é sobre Mãos Pequenas que a tia Ester escreve para Beto e diz “seu livro mostra quem somos de uma maneira meio rancorosa mas bonita.”

O mesmo poderia ser dito de Chá das cinco com o vampiro, que não é só uma detração. É também uma homenagem a Dalton Trevisan e um exercício de superação. O autor de Capitu sou eu deveria se sentir orgulhoso de ter tido na vida um discípulo da envergadura de Sanches Neto.


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quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O futuro do livro e a literatura

Hoje em dia, pipocam na imprensam dados de pesquisas que mostram que as vendas de livros estão caindo. Os supostos leitores da nova geração estão nascendo dentro das plataformas virtuais. Isso não é alento para os amantes dos livros e, principalmente, para o mercado editorial, porque as vendas dos e-books também estão caindo.

Significa que o modo de consumir informação está mudando drasticamente. A transferência de conhecimento está reivindicando uma nova tecnologia que não parece estar calcada na palavra escrita, mas numa mescla de palavras faladas com um rol de imagens numa nova plataforma, a de vídeos.

Nesse novo formato, os pensadores falam, dão exemplos, explicam, argumentam, enquanto um sistema de dados vai ilustrando as conversas, criando links com outros canais ao toque na tela. Isso ainda não é ponto pacífico, mas resistentes como Ruy Castro estarão mortos quando a mudança estiver efetivada.

O problema é que até hoje, todos os pensadores e pesquisadores vêm das gerações que leram livros. Ou seja, quem pensa é quem leu livros, quem sabe é quem leu livros, quem ensina de verdade é quem colheu palavras escritas e as assimilou. Quem serão os pensadores do futuro?

Em um texto mui arguto na edição de hoje da Folha de S. Paulo, intitulado O futuro do livro pode ser uma questão de dicionário, o jornalista Roberto Dias argumenta: “Se não for pelos livros atuais, como se dará a transmissão massificada do conhecimento? É impossível responder a isso por ora, mas parece inegável que formatos em vídeo vão ficando cada vez mais populares.”

Roberto Dias não é leviano. Ele pondera sobre as consequências dessas mudanças, abre espaço para o debate do futuro do livro. Mas ao demonstrar que o futuro do livro pode descambar para um formato que não tem nada a ver com a palavra escrita, me faz indagar sobre o futuro da literatura.

Como ficaria a literatura? Acabaria? A poesia se desprega muito facilmente do formato escrito, sobretudo porque nasceu na oralidade, quando todo mundo era analfabeto, aliás, mais do que isso, todo mundo era ágrafo (palavrinha horrorosa). Mas a prosa atual, não (à exceção dos contos de fadas). E o romance? O romance muito menos. O romance é o caçula dos gêneros literários, a menina dos olhos dos escritores de hoje. Sem palavra escrita, não há romance, há cinema.

É claro que tudo é uma questão de evolução, em meio a vendavais de involução, retrocessos e avanços, quedas e aprumos. Mas pensar num futuro sem o formato de livros tal como se conhece hoje, é pensar na própria ruína do presente ou numa passagem de bastão do passado, mais uma vez, e tudo isso é muito dolorido.


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segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Da ética à estética: resistência e tensão na literatura


A beleza criada na obra literária está vinculada a algum tipo de tensão. Parece solta – uma beleza flutuando nos espaços entre um drama e outro, entre conflitos, no espaço moroso da espera, no olho do furacão dos acontecimentos que tensionam a trama -, porque é o resultado da operação estética. É uma beleza desvinculada da ética, mas não existe sem passar pelas fibras do jogo moral dentro do qual a obra é feita.

Esta aparente contradição da criação literária é explicada por Alfredo Bosi em Literatura e resistência, livro que reúne uma série de textos que jogam luz sobre o assunto. Nesse livro, Bosi analisa autores como Padre Antônio Vieira, Luigi Pirandelo, Albert Camus, Cruz e Sousa, Lima Barreto e João Antônio, mostrando como um conceito inicialmente ligado à ética, o de resistência, torna-se de suma importância para explicar a arte literária, que tem como fim o resultado estético.

No livro de Bosi, dois textos são fundamentais para explicar o significado de resistência e tensão na literatura. O primeiro é Narrativa e resistência, em que o autor aponta o problema dos conceitos abordados, apontando inclusive alguns exemplos históricos e marcando a diferença entre a resistência como tema e a resistência como “processo inerente à escrita” (referência), que é justamente a outra ponta do problema criado por Bosi, e aonde ele queria chegar.

Em Um boêmio entre duas cidades, o segundo texto em questão, Bosi analisa a relação literária entre a vida e a obra do paulistano João Antônio, que usou sua cidade natal para ambientar a maior parte de seus contos. São Paulo não foi apenas onde João Antônio nasceu, foi também onde ele se fez como escritor marginalizado pela sua “condição humana e literária”, sendo “pobre, boêmio e suburbano numa São Paulo ainda não devorada pelo consumo; jornalista de raça e escritor atracado com o real.”

Antes de chegarmos ao ponto fulcral da resistência na literatura de João Antônio, no entanto, vamos esclarecer os conceitos estudados por Bosi no texto Narrativa e resistência. Para ele, a resistência tem um significado ético, uma vez que se trata da vontade que resiste a outra vontade. “Resistir é opor a força própria à força alheia”, e a arte “não é uma atividade que nasça da força de vontade”. Ela nasce, isso sim, das “potências do conhecimento: a intuição, a imaginação, a percepção e a memória.”

Mas há um momento em que esses dois campos se encontram, diz Bosi. É quando, de um lado, desejo, pulsões, signos e imagens – representando o sentimento da arte e da vida prática, do viver – se amarram a política, teorias, ações e conceitos, que representam aqui a ideia de razão e de vontade. “Essa interação é a garantia da vitalidade mesma das esferas artística e teórica”, diz o autor. Quando os signos nascem da intuição artística e criam uma narrativa, esta narrativa traz uma resistência, que pode vir de duas formas: como tema ou de modo inerente à própria escrita.

Segundo Bosi, isso sempre acontece nos grandes autores, porque eles sabem como manipular os signos para conseguir, como efeito, catalisar a tensão da vida social. Nesse sentido, o autor se utiliza da esfera ética para chegar à estética. Ou seja, quem interfere de fato na vida social é o homem de ação, o político, o educador, valendo-se de teorias e da vontade para atingir seu fim, racionalizando cada passo que dá. Esta é a esfera ética. Mas este homem de ação só consegue fazer isso por meio dos valores, e estes só podem ir adiante combatendo os antivalores inerentes.

Daí, para catalisar a vida, os artistas elaboram a tensão entre valores e antivalores no interior dos signos. Esta é a esfera da estética: “Só para ilustrar: o despotismo traduz-se por atos arbitrários e tons de voz autoritários daquele que detém poder. Leia-se Balzac descrevendo com vivacidade a conduta doméstica tirânica de um castelão decadente, um emigrado da Restauração, o conde de Mortsauf, que inferniza a esposa e os criados (Le lys de la vallée [O lírio do vale]). Que riqueza de pormenores e de matizes aproximáveis pela categoria do despotismo patriarca!”

Outros exemplos: a vilania se revela na palavra injuriosa lançada em rosto a um inocente; a traição se faz com sorrisos cúmplices, meias palavras. Nas tragédias de Shakespeare há uma riquíssima messe de situações em que os antivalores tomam corpo. A cupidez das filhas traidores de Rei Lear, Goneril e Ragane, é contrastada com a lealdade discreta da filha mais moça, Cordélia: o antivalor nas primeiras e o valor na última têm voz, têm gesto, têm rosto.


Para tensionar a linguagem

Mesmo que Shakespeare não sublinhasse, mediante frases sentenciosas ditas por outras personagens, a fealdade de umas e a beleza da outra, a resistência ao mal foi trabalhada de tal maneira que o ético e o estético se converteram mutuamente.

Está claro, consequentemente, que, segundo Bosi, o autor cria a narrativa a partir de valores morais, e a resistência nesta narrativa nasce das representações do bem e do mal, de forma ambivalente, uma buscando forçar a negação da outra. “Graças à exploração das técnicas do foco narrativo, o romancista poderá levar ao primeiro plano do texto ficcional toda uma fenomenologia de resistência do eu aos valores ou antivalores do seu meio.”

A resistência na literatura não é um caráter explorado apenas na prosa. Segundo Bosi, a poesia também se vale dos valores éticos para tensionar a linguagem. Mas aqui a intenção do autor é mostrar a resistência como tema da narrativa.

Para tanto, Bosi assinala exemplos máximos da literatura, como Shakespeare, que extrapola os limites do gênero, mas, principalmente apontando os mestres na técnica de narrar ficções. Neste caso, a narrativa busca os valores morais apenas para chegar ao valor estético:

“A partir do momento em que o romancista molda a personagem, dando-lhe aquele tanto de caráter que lhe confere alguma identidade no interior da trama, todo o esforço da escrita se voltará para conquistar a verdade da expressão. A exigência estética assume, no caso, uma genuína face ética.”

Os romancistas recorrem aos valores morais, segundo Bosi, e atingem a esfera da tensão, escolhendo “tudo quanto a ideologia dominante esquece, evita ou repele” e forjando a resistência. Esta aparece na narrativa de duas maneiras, conforme já foi mencionado.

No primeiro caso, o da resistência como tema, os romancistas se valem da ideologia pela qual combatem certos valores que, no caso, seriam antivalores. Por exemplo, entre 1930 e 1950, muitos escritores se engajaram na luta contra o fascismo e o nazismo e suas ramificações, como o franquismo, na Espanha, e o salazarismo, em Portugal.

Nesse período, diz Bosi, foi produzido “o cerne da literatura de resistência, coincidente.” Ele assinala como exemplo dessa literatura o livro de memórias intitulado É isto um homem?, de Primo Levi, que narra a experiência dramática e traumática de Levi em um campo de concentração nazista. Outros exemplos de utilização da resistência como tema são Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos, A peste, de Albert Camus e a trilogia Os caminhos da liberdade (A idade da razão, Sursis e Com a morte na alma), de Jean-Paul Sartre.


Esforço crítico da subjetividade

Essa tendência dentro da literatura em relação a uma “cultura de resistência política” é, segundo Bosi, imanente à teoria marxista e estendeu-se com o debate filosófico da fenomenologia, que fez nascer o existencialismo: “Existencialismo e marxismo irão encontrar-se no imediato pós-guerra para propor uma arte empenhada e ao mesmo tempo implacavelmente analítica dos mínimos movimentos da consciência.”

Os autores desta última corrente, como Sartre e Camus, fundaram, na interpretação de Bosi, uma “palavra radicalmente antiburguesa, não conformista, revolucionária, voltada para a construção do novo Homem.”

Já a resistência “como forma imanente da escrita” é independe de cultura política e está em vários autores de diferentes épocas. Trata-se de obras que buscam uma “tensão interna que as faz resistentes, enquanto escrita, e não só, ou não principalmente, enquanto tema” (ibidem, passim). Para esclarecer o significado de resistência, Bosi comenta o conceito “tensão”, utilizando-se de teorias marxistas, por meio de Georg Lukács e Lucien Goldmann.

A “tensão” surge como um esforço crítico da subjetividade que se lança contra o mundo, o eu/mundo se manifesta no interior da linguagem numa perspectiva crítica, tirando a mensagem da rotina social, dos aspectos que aparecem na malha da vida comum, e colocando-a no campo de batalha interna, no eu, onde os símbolos se elaboram para surgir ao mundo. O romance não é “uma variante literária da rotina social, mas seu avesso; logo, o oposto do discurso ideológico do homem médio.”

Não que o romancista deixe de imitar a vida, mas agora o faz de outra forma. Bosi, indica que a vida apresentada é aquela “cujo sentido dramático escapa a homens e mulheres entorpecidos ou automatizados por seus hábitos cotidianos.” A escrita da resistência é, portanto, “a narrativa atravessada pela tensão crítica.”

Bosi cita vários exemplos de autores que, no seu discurso, tiram o foco da resistência da ideologia e da convenção realista para mostrar um embate mais profundo, no interior da linguagem e também no interior do ser. Em O Ateneu, Raul Pompeia, segundo Bosi, “fez ora sátira direta, ora paródia, da linguagem pedagógica e da retórica científica e literária predominante nas escolas para a elite de nosso Segundo Império”.

Marcel Proust, segundo Bosi, no romance Em busca do tempo perdido, “fez o passado resistir em filigrana mediante a escrita infinitesimal da memória.” (...) “Na Paixão segundo G.H., de Clarice Lispector, a narrativa oscila entre o confidencial e o metafísico. O tempo do relógio é suspenso e a imaginação se projeta e se desdobra em um espaço fluido e sem margens.”

A tensão é criada pelo embate entre o eu e o mundo, com ambos resistindo um ao outro, ambos tecendo valores e antivalores: “A escrita resistente não resgata apenas o que foi dito uma só vez no passado distante e que, não raro, foi ouvido por uma única testemunha, como se dá, por exemplo, no primeiro capítulo das Memórias do cárcere”, avalia Bosi. Ela resgata também “o que é calado no curso da convenção banal, por medo, angústia ou pudor”.

Tudo isso “soará no monólogo narrativo, no diálogo dramático.” Tudo isso é escrita resistente, por meio da qual, “a narrativa descobre a vida verdadeira”, e esta “abraça e transcende a vida real.”


Resistência por meio da nostalgia

Quando Bosi analisa a literatura de João Antônio, no texto Um boêmio entre duas cidades, ele diz que o contista e romancista paulistano faz a resistência por meio da nostalgia. As duas cidades do título são a capital paulista separadas no tempo. Uma é a São Paulo da juventude de João Antônio, a outra é a nova São Paulo, que existe no tempo presente da narrativa, na vida adulta do narrador no romance Abraçado ao meu rancor, em que o autor mistura ficção e traços autobiográficos para mostrar como a boemia foi engolida pelo progresso.

A nostalgia resiste por meio da tensão criada entre passado e presente, boemia e amplidão de espaço contra a velocidade da nova vida urbana que esfriou e diminuiu e liberdade das ruas, tomou o lugar dos mais pobres, expulsando-os para mais longe.

Trata-se de uma crítica social, mas, segundo Bosi, uma crítica social que se inscreve, na escrita de João Antônio, não apenas como uma linguagem realista. É mais que isso. É uma “combinação de estilo original, realista até o limite da reportagem sem deixar de envolver-se em um fortíssimo pathos que vai do ódio à ternura e do sarcasmo à piedade.”

Neste sentido, a narrativa de João Antônio, segundo Bosi, faz o que é próprio da “escrita resistente”, indo além do que ficou escondido no passado, mas desatando os conflitos interiores entre o eu e o mundo por meio do “fortíssimo pathos” de ódio e ternura. O romancista paulistano estabelece um diálogo com a escrita de Lima Barreto, uma vez que faz a mesma coisa que fez o carioca, e também boêmio, no começo do século XX no Rio de Janeiro.

Embora Bosi não cite o termo “burguês” para se referir ao objeto de contradição de João Antônio, tanto este quanto Lima Barreto lançam farpas contra os valores burgueses, principalmente aqueles ressaltados na imprensa, e indo além, colocando a imprensa no mesmo balaio de críticas. E assim segue a escrita de João Antônio, pondo os valores capitalistas, de prosperidade e acúmulo de riqueza, como antivalores, para em seu lugar, pôr como valor de fato o modo de vida do pobre, que perdeu mais um pouco de espaço, mas que ainda joga, canta e dança.

E assim, a resistência se mantém na narrativa de João Antônio, embora a realidade insista em mostrar outra cara, outra vida, outro mundo que sempre, no implacável fluxo do tempo que segue adiante, sem olhar para os lados, diz outra coisa. A tensão existe, porque o narrador não se perdeu, e percebe isso.

O passado dá lugar ao presente para mostrar que todas as periferias são iguais, em qualquer tempo. “Nessa franja desbotada da metrópole”, diz Bosi, “onde se apinha a gente migrante e mestiça; nesse mar de pura desolação e esqualidez, o boêmio vai reencontrar não mais a outra cidade, antiga e já perdida, mas a outra face da cidade nova, face que a indústria fabrica e recusa.”


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