Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

PARA QUEM QUER ENTENDER O IRÃ: seis livros essenciais


Agora em julho saiu na revista norte-americana The New Yorker uma nota sobre os seis livros essenciais para se entender o Irã. Quem dá as dicas é a jornalista Laura Secor, que está escrevendo um livro sobre o país. Leia-se nas entrelinhas, Laura está contribuindo para que sua pátria entenda melhor os costumes, as articulações políticas e as relações culturais iranianos.

Dos seis livros citados no texto, todos podem ser encontrados no Brasil, mas em inglês, no site da Livraria Cultura. Apenas um tem tradução para o português, o romance de Dalia Sofer, Setembros de Shiraz, publicado pela Editora Rocco. Para quem se interessar, segue a lista com o comentário da jornalista.

The Mantle of the Prophet: Religion and Politics in Iran, de Roy Mottahedeh (Livraria Cultura, R$ 74,65)

“Publicado originalmente em 1985 por Roy Mottahedeh, professor da Universidade de Havard, o livro é uma história intelectual, tão instigante e gracioso quanto um bom romance. O autor fala de um jovem clérigo que lutou contra o vasto e épico pensamento iraniano (persa), de Zoroastro a Avicena, de Kasravi a Khomeini. The Mantle of the Prophet é poético, didático e profundamente sensível. O estilo de Mottahedeh é esplêndido e seu conteúdo é um ensinamento aos leitores ocidentais que não fazem ideia da influência poderosa dos Shiitas e do pensamento persa ao longo dos séculos.”

An Islamic Utopian: A Political Biography Of Ali Shari'ati, de Ali Rahnema (Livraria Cultura, 418 páginas, R$ 110,66)

“Shari’ati foi o intelectual basal cuja mistura engenhosa de shiitismo com marxismo foi o combustível para a revolução de 1979. A biografia escrita por Rahnema conta a história de Shari’ati, mas, ao mesmo tempo, traça um importante perfil do Irã ao longo do período crucial da vida de Shari’ati, de 1933 a 1977. A década seguinte – os anos de chumbo da revolução, batalha pelo poder, execuções em massa, guerra civil, depressão econômica e a guerra contra o Iraque – aparece notavelmente como pano de fundo.”

Tortured Confessions: Prisons And Public Recantations In Modern Iran, de Ervand Abrahamian (Livraria Cultura, R$ 152,35)

“De forma corajosa e detalhada, este livro dá conta da ascensão do sistema prisional da República Islâmica, do abuso de poder e da matança dos dissidentes políticos no confinamento dessas prisões nos anos de 1980. As histórias desse tempo reverberam sombriamente até os dias de hoje.”

The Soul Of Iran: A Nations Journey To Freedom, de Afshin Molavi (Livraria Cultura, 355 páginas, R$ 44,18)

“Meu livro de relato jornalístico favorito é este, The Soul of Iran: A Nation’s Journey to Freedom, de Afshin Molavi, que tem uma visão íntima e cheia de nuanças do Irã. Seu livro introduz o leitor comum não apenas à história contemporânea do Irã e à luta de seu povo, mas também à tessitura cultural, à literatura e até mesmo à paisagem do país.”

Iran Awakening: A Memoir Of Revolution And Hope, de Shirin Ebadi (Livraria Cultura, R$ 69,11)

“Escrito em parceria com Azadeh Moaveni, tem a seu favor uma poderosa história pessoal que mapeia o arco da revolução iraniana e desce à funda violência e ao movimento pró-reforma.”

Setembros de Shiraz, de Dalia Sofer (Editora Rocco) (Livraria Cultura, 288 páginas, R$ 39,00)

“Também li recentemente, e amei, o incandescente Setembros de Shiraz, primeiro romance de Dalia Sofer, que conta a história de uma família judia que fora dispersa pela revolução – com partes indo para a prisão, Brooklyn e o cada vez mais esfacelado lar da família em Teerã.”

Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

O PROBLEMA FILOSÓFICO PÓS-CAMUS

Camus: autor de O primeiro homem, romance autobiográfico inacabado

No livro inacabado e autobiográfico O primeiro homem, o narrador de Albert Camus se vê diante de um problema filosófico intrigante. O personagem nascido em 1913, não conhece o pai, porque este morrera em 1914, aos 30 anos de idade, recém-chegado ao fronte da recém-começada Primeira Guerra Mundial.

Quando Jacques Cormery, aos 40 anos, vai visitar a mãe, decide fazer uma visita também ao pai morto, sepultado num túmulo não muito longe da casa materna. Nosso personagem então começa a imaginar o absurdo da cena, ele ali, olhando para um pai que nunca conhecera, um pai que, a rigor, era mais jovem do que ele, pois havia vivido apenas 30 anos.

Agora, essa possibilidade da literatura filosófica camusiana, cujo esforço para imaginar o absurdo da cena era apenas intelectual, pode se tornar real, pelo viés surreal da ciência. É que os cientistas acabaram de conseguir criar um espermatozóide a partir de células-tronco.

A notícia está no site Globo.com, segundo o qual, pesquisadores da Universidade de Newcastle e do Instituto de Células-Tronco do Nordeste da Inglaterra são os autores da façanha. O texto é de Reinaldo José Lopes, que faz a seguinte constatação: “Não fosse pelas barreiras éticas e tecnológicas que ainda existem, a equipe de pesquisadores poderia ter criado um embrião que nem chegou a nascer e mesmo assim foi pai.”

A cena de Camus ficaria para trás em matéria de reflexão. Haveria um filho de 40 anos, abismado, olhando para um pai que não chegou a nascer, para um monte de células num laboratório. Nem Huxley, com Admirável Mundo Novo, nem Bradbury seriam mais eficazes. A vida é um cisco na poeira cósmica, dizem, e o resto é literatura. Não seria o contrário?

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

LITERATURA E SUICÍDIO: viés da transgressão

Sócrates, obrigado a se matar, prestes a tomar a cicuta e discutindo
a imortalidade da alma em quadro de Jacques-Luis David (1787)

O suicídio é um tema antigo da literatura. Para quem encara a Bíblia como texto literário, já pode retirar daí um exemplo clássico, por assim dizer. Saul, o primeiro rei de Israel, se suicidou. O jovem Werther, personagem criado por Goethe no romance O sofrimento do jovem Werther, também se matou, por amor, ou por falta de um feedback amoroso.

Em O resto é silêncio, Erico Veríssimo trata da morte misteriosa de uma moça que cai do alto de um prédio, cujos indícios dão a entender que foi suicídio. O romance de Kenzaburo Oe, O grito silencioso, também trata do suicídio. O narrador encontra seu amigo dependurado numa corda, mortinho, nu e com um pepino introduzido no ânus, e aí começa o calvário da escrita.

Argemiro de Sant’Amour, personagem de O amor nos tempos do cólera, de García Márquez, se mata quando fica velho, por se sentir imprestável. Suicida-se junto com o cachorro, quer dizer, mata o cão, que não tinha nada a ver com a crise do seu senhor, ao inalar gás até a morte. Essa Terra, de Antônio Torres, conta a história de um rapaz que sai da terra natal, no interior da Bahia, para ganhar São Paulo, mas fracassa, e, ao voltar, não suporta o desconforto da vida e se enforca.

Em Romeu e Julieta há suicídio. Em O clube dos suicidas, de Robert L. Stevenson, o título já se encarrega do tema, que é recorrente na literatura adulta. Mas nos romances juvenis, será que há? Nos Estados Unidos, o escritor Jay Asher virou best-seller com Thirteen reasons why (Treze razões, em tradução literal), livro que aborda esse assunto espinhoso, para os adultos, talvez, porque para os jovens, nem tanto.

Antes ele do que eu

Segundo Josalyn Moran, vice-presidente da área de livros infanto-juvenis da Barnes & Noble, famosa rede de livrarias norte-americana, a morte sempre foi um tema popular entre a garotada.

Para Moran, em entrevista ao Sunday Book Review, caderno literário de The New York Times (9/03/2009), os adolescentes gostam de ler sobre situações que parecem piores do que aquelas em que eles se encontram. “Fazem isso para concluírem ‘Ok, minha vida não é tão ruim assim’.”, explica.

Eu particularmente não consigo me lembrar de nenhum livro tendo o suicídio como tema que tenha sido febre de jovens leitores brasileiros, e por isso me inclino a concluir que há algo de errado na alma da juventude norte-americana. Talvez eu esteja equivocado e o próximo passo do best-seller seja chegar ao Brasil e arrasar quarteirões.

Não li o livro. Mas também não estou escrevendo exatamente sobre ele, apenas sobre literatura e suicídio, e, de quebra, o que a mídia anda publicando a respeito desse romance de Asher.

Segundo matéria do El País (10/03/2009), por ocasião de seu lançamento em espanhol, a trama de Thirteen reasons gira em torno das gravações que Hannah Baker, menina de 16 anos, fez antes de cometer suicídio e da reação de seus colegas após ouvir o que estava gravado. Cada fita revela um episódio sobre um colega de classe que Hannah culpa por sua morte.

“As fitas são enviadas ao colega Clay Jensen, numa caixa de sapatos. Clay fica sabendo que são 13 as razões pelas quais Hannah se suicidou, ou seja, as 13 fitas cassettes se referem às 13 pessoas que devem escutá-las. E ele é uma delas. ‘É um jogo muito simples: primeiro as escuta, depois passa adiante’, diz Hannah na primeira fita descoberta.”

Treva

Desde que esse livro foi publicado nos Estados Unidos, em 2007, até março de 2009, ocasião das reportagens em The New York Times e no El País, haviam sido vendidos 158 mil exemplares no mercado norte-americano. É algo semelhante ao que aconteceu com Crepúsculo, de Stephenie Meyer, que também é a ‘treva’, para usar uma expressão em voga bem adolescente. O livro de Meyer fala de vampiros (morte em vida) e é um fenômeno, inclusive no Brasil.

É bem verdade que de todos os livros sobre suicídio citados neste post, Thirteen reasons why é o único voltado para o público jovem desde sua concepção. Mas O sofrimento do jovem Werther também atingiu esse público em toda a Europa do final do século XVIII, sempre propenso ao fatalismo, à morte, à visão mórbida do mundo, um tipo de espírito que predominou na estética por muito tempo, sob a batuta dos românticos ao largo da terra.

O suicídio é um tema recorrente na literatura. É uma espécie de veia psíquica da arte, o afluente principal da transgressão. Com exceção do sexo, não conheço nada mais transgressor do que a morte, e quando ela é trabalhada na concepção do suicídio, se for bem manejado, aí não há víscera que fique de fora. Até os vasos sanguíneos da ereção entram na jogada.

Domingo, 5 de Julho de 2009

STRANGE FRUIT EM VERSÃO BRASILEIRA COM SEU JORGE

Foto: Bettmann/Corbis/ Divulgação (9/08/1930)



“Eis uma fruta
Pra que o vento sugue
Pra que um corvo puxe
Pra que a chuva enrugue
Pra que o sol resseque
Pra que o chão degluta
Eis uma estranha
E amarga fruta.”

Trecho da letra de Strange Fruit, em versão novinha em folha de Carlos Rennó.
Foi a coluna da Monica Bergamo da Folha de S. Paulo deste domingo (05/07/09) que trouxe a bela matéria, cujo trecho segue abaixo:

Na década de 30, Abel Meeropol, um professor judeu do ensino médio do Bronx, em NY, colocou os olhos em uma das mais dantescas imagens do século 20: uma foto em que dois negros americanos pendem de uma árvore, depois de linchados por uma multidão em Indiana, no sul dos EUA. Sob o pseudônimo de Lewis Allan, ele escreveu ‘Strange Fruit’, que expressa o seu horror. Foi sua primeira, e única, canção gravada.

Ao descobrir e emprestar sua voz para ‘Strange Fruit’, Billie Holiday [veja abaixo vídeo no Youtube] a transformou num hino contra o racismo e numa das mais populares canções americanas. Não foi fácil: temendo represálias no sul, a Columbia, por onde ela lançava discos, não quis gravar a música; Billie recorreu à Commodore, selo alternativo de jazz. Era sempre a última música de seus shows. Ela exigia que os garçons parassem de servir e que as luzes se apagassem. Um foco de luz iluminava seu rosto e Billie entoava os versos da canção.





Eu não sabia dessa história”. A frase replicou o que eu dizia comigo mesmo ao ler o texto, por razões gerais. Mas quem disse mesmo foi o jornalista, letrista e produtor Carlos Rennó, por razões particulares (apenas sobre o episódio de Holiday, imagino). Rennó vai produzir “um disco de versões de músicas negras americanas, como Strange Fruit, compostas por judeus”, junto com o músico Jaques Morelenbaum.

Segundo a matéria, “No cardápio, clássicos como ‘My Romance’ com Gal e Carlinhos Brown, ‘Over The Rainbow’ com Zélia Duncan, ‘Bewitched’ por Maria Rita e ‘Strange Fruit’ por Seu Jorge.

Antes de cantar, Seu Jorge disse: ‘Preciso representar isso aqui. O que eu devo encarnar? Um amigo dos dois negros pendurados naquela árvore? Ou os amigos que perdi no Brasil?’. Os amigos. Ao final, todos choraram. ‘A versão desta canção tem relação profunda com as duas maiores escravocracias do mundo, a americana e a brasileira.’ A capa de ‘Nego’ é azul, vermelha, verde e amarela.

Para quem é assinante da Folha e não se deu conta dessa beleza de matéria e gosta de música, corra aqui.

Letra de Strange Fruit

Southern trees bear strange fruit,
Blood on the leaves and blood at the root,
Black bodies swinging in the southern breeze,
Strange fruit hanging from the poplar trees.

Pastoral scene of the gallant south,
The bulging eyes and the twisted mouth,
Scent of magnolias, sweet and fresh,
Then the sudden smell of burning flesh.

Here is fruit for the crows to pluck,
For the rain to gather, for the wind to suck,
For the sun to rot, for the trees to drop,
Here is a strange and bitter crop.

Sábado, 4 de Julho de 2009

O AMOR DE RIOBALDO - trecho de Grande Sertão: Veredas

Sério, quieto, feito ele mesmo, só igual a ele mesmo nesta vida. Tinha notado minha ideia de fugir, tinha me rastreado, me encontrado. Não sorriu, não falou nada. Eu também não falei. O calor do dia abrandava. Naqueles olhos e tanto de Diadorim, o verde mudava sempre, como a água de todos os rios em seus lugares ensombrados. Aquele verde, arenoso, mas tão moço, tinha uma velhice, muita velhice, querendo me contar coisas que a ideia da gente não dá para se entender – e acho que é por isso que a gente morre. De Diadorim ter vindo, e ficar esbarrado ali, esperando meu acordar e me vendo meu dormir, era engraçado, era para se dar feliz risada. Não dei. Nem pude nem quis. Apanhei foi o silêncio dum sentimento, feito um decreto: – Que você em sua vida toda por diante, tem de ficar para mim, Riobaldo, pegado em mim, sempre!... – que era como se Diadorim estivesse dizendo. Montamos, viemos voltando. E, digo ao senhor como foi que eu gostava de Diadorim: que foi que, em hora nenhuma, vez nenhuma, eu nunca tive vontade de rir dele. (Grande Sertão: Veredas, p. 252)

Esse trecho de Grande sertão: veredas, um pseudo segredo de brokeback mountain, fala tanto do amor de Riobaldo por Diadorim. Fala assazmente muito do medo de Riolbado e do que se passa na alma de Diadorim. Tanto sobre o sertão e a metáfora dos olhos verdes, o céu e o inferno de Riobaldo. Tanto de um sentimento rastreado apenas pelo cinzel de Heidegger, pelo agir da linguagem, pela essência dela, desdobrada em sua magnitude de arte, ali, Riobaldo pensador, filósofo do sertão no porvir do sentimento amoroso. Filosofia e amor são duas coisas que procuram cavar a verdade do ser no ser, através do tempo. “Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.”

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

LEITURA E ARTE LITERÁRIA II: Bloom, Manguel e Proust

O crítico Harold Bloom lê em aula conferência

Harold Bloom, em Como e porque ler, nos diz que lemos para descobrir cérebros mais geniais do que o nosso, mas que a literatura não modifica nossa maneira de ser. Contrapondo a esta declaração, em No bosque do espelho, o escritor argentino Alberto Manguel diz: “Acredito que, às vezes, além das intenções do autor e das esperanças do leitor, um livro pode nos tornar melhores e mais sábios.”

Talvez Bloom tenha razão, no sentido de que toda consciência é crítica. Se existe uma consciência, existe a capacidade de contestar, muitas vezes adormecida, é verdade. De modo que a leitura não nos dá outra consciência, só desperta aquilo que já existe em nós.

Por outro lado, Manguel também tem razão, porque, se dormíamos e a leitura nos despertou, se continuaríamos a dormir sem o sussurro poético da palavra, modificamos, sim, e neste caso, podemos nos tornar melhores, mesmo havendo a possibilidade contrária.

Outra coisa que não podemos nos esquecer é de que todo grande autor é também um leitor atento. Por isso, o que eles dizem fora de sua literatura também deve nos interessar.

É nesse sentido que, além de Em busca do tempo perdido e outros livros, Proust nos deixou um pequeno legado em tradução para o português, Sobre a leitura (Editora Pontes, 64 páginas), em que ele lembra uma coisa interessante: “Nossa sabedoria começa onde a do autor termina, e gostaríamos que ele nos desse respostas, quando tudo que ele pode fazer é dar-nos desejos.”

Proust, reverberado por Bloom, já tinha ido além ao afirmar: “O poder de nossa sensibilidade e de nossa inteligência, não podemos desenvolvê-lo senão em nós mesmos, nas profundezas de nossa vida espiritual.”

Ou seja, ler o outro é importante, não porque aprendemos com ele o caminho da verdade e da vida. Pode até ser. Mas ler o outro significa, principalmente, a descoberta de algo novo em nós mesmos, alguma coisa da qual muitas vezes estávamos perto demais para descobri-la.

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

LEITURA E ARTE LITERÁRIA I

“Lemos para nos encontrar, de um modo mais intenso e crítico do que poderíamos fazê-lo não fosse a leitura. (...) Exorto o leitor a procurar algo que lhe diga respeito e que possa servir de base à avaliação, à reflexão. Leia plenamente, não para acreditar, nem para concordar, tampouco para refutar, mas para buscar empatia com a natureza que escreve e lê.” (Harold Bloom).

Foto: Jesús Ciscar


A palavra como arte é subversiva, e é por isso que ela nos tira do curso monótono da vida. É preciso ter cuidado, porque ela pode nos guiar para mares inavegáveis. Esse desvio de rota é visto em personagens como Dom Quixote, Policarpo Quaresma, Emma Bovary e até o real Domenico Scandella, do livro de Carlo Guinzburg, O queijo e os vermes, que sofreram a influência da leitura.

Mas é aí que está a delícia da arte literária. A aventura dentro da qual o leitor se encontra compartilha elementos de quem escreve e de quem lê. A leitura literária é uma espécie de espelho que nos revela os caminhos mais secretos de nossa própria alma. Ler um bom livro equivale a explorar nossos sentimentos. Porque somos todos humanos.

Quem escreve pode ter uma visão mais larga, mais ampla daquilo que sentimos e vemos, daquilo sobre o qual também pensamos, e pode nos mostrar uma maneira mais plena de olhar o mundo.

Quem escreve pode inclusive nos dar a oportunidade de conhecer algo novo ou sobre nova perspectiva. Mas isso não significa que esse algo novo esteja fora de nossa própria existência. Na verdade isso pouco importa.

O importante é saber que a leitura da arte literária vai além da articulação da informação. Tem como fator principal a formação estética e o prazer. Com ela, aprendemos a olhar as coisas de modo diverso sem perder o princípio do prazer. E por isso mesmo, a leitura nos dá a capacidade de olhar para dentro de nós mesmos por intermédio da palavra do outro.

A literatura como arte lida com emoções, forja um conhecimento sensível que tem na emoção sua mola propulsora, por meio da qual se alcança o estético. Daí a palavra ‘estético’ vir de ‘estesia’, ou seja, sensibilidade. Outras palavras também têm sua raiz no vocábulo ‘estesia’, como anestesia e sinestesia, respectivamente, ‘sem os sentidos’ e ‘mistura das sensações’.

Desse modo, a literatura é sensual. E quanto mais concentrada em significado, quanto mais suas palavras forem polissêmicas, mais ela corresponde ao valor literário.

Ler é colher as palavras, abrir brechas na espessura misteriosa do texto e da vida. Conhecimento também é texto (tecido). Literatura também é conhecimento. Mas é um tipo de conhecimento, um tipo de saber que não se faz pela objetividade do mundo, de fora para dentro, mas pela articulação subjetiva das verdades.

Um exemplo desse conhecimento interior e do conflito que vem dele é o poema de Ferreira Gullar, Traduzir-se:

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
_ que é uma questão
de vida ou morte _
será arte?


A leitura do texto literário pode ser feita de várias maneiras. E não é porque queremos, é porque a própria literatura possibilita diversos modos de ver aquilo que está sendo dito. Citei a poesia, mas a prosa também se enquadra no elemento do espanto, do estranhamento.