terça-feira, 3 de março de 2026

Exercício de tradução - Canção de raiz, de Henry Dumas

O poema Canção de raiz é do afro-americano Henry Dumas. Está no livro Knees of a natural man – the selected poetry of Henry Dumas. O poeta morreu em 1968, aos 33 anos de idade, assassinado pela polícia, num Metrô de nova York. Segundo Toni Morrison, Dumas era dotado de um gênio absoluto para a poesia. 


Minha tradução é um mero exercício, sem a pretensão de trazer para o português toda a carga semântica e poética do original que possa revelar o gênio do poeta, que talvez nem esteja tão aberto e exposto assim no poema em questão. Mas logo abaixo, o leitor tem a oportunudade de ler o original.



Canção de raiz

Henry Dumas



Quando eu era árvore

a carne veio e orou em minhas raízes.

Meus ancestrais dormiram em meus

galhos estendidos e ouviram a carne

rogando e rezando ajoelhada.


Quando eu era árvore

o sol africano me acordou verde no amanhecer.

O vento africano penteou os ramos de meus cabelos.

A chuva africana lavou meus galhos.

O solo africano nutriu meu espírito.

A lua africana olhou por mim à noite.


Quando eu era árvore

a carne veio fazer sacrifício no meu tronco,

a carne veio para proteger minha voz,

a carne veio para honrar meus galhos

como tambores, como canoas, como máscaras,

como catedrais e templos de deuses ancentrais.


Agora a carne vem com dentes de metal,

com bastões que cortam,

e lança-chamas,

e a carne me derruba

e escraviza meus galhos para construir

fortes, navios, assentos para outros deuses,

paliçadas, curral de corpos,

e cruzes fincadas no alto para sacrificar deuses.


Agora a carne ri de minha forma vencida e em

chamas, me jogando na lama, queimando-me no fogo.

Agora a carne não ouve mais a voz

dos espíritos falando por meio de meus galhos.


A carne fez-se tédio aos ouvidos, agora.

A carne ficou pálida e preguiçosa.


A carne pecou contra os ancestrais.

Se a carne me ouvisse, eu lhe diria

que os espíritos estão descontentes

e estão planejando algo contra ela.

Mas a carne acha que estou morta, queimada e finda.


A carne acha que pode matar com fogo,

acha que, com dentes de metal, eu morro,

acha que me acorrentando em templos alheios

com novos deuses cravados na minha pele,

acha que todas as vozes

atadas da raiz aos galhos estão silenciadas,

acha que me derrubando,

não vou mais cantar e dançar,

mas a carne é preguiçosa e gorda.


A carne não sabe que ela

não me deu a vida,

nem que não pode me tirá-la.


Isso é o que o espírito canta agora.

Já é tempo de a carne

se ajoelhar de novo!



.......



Root Song

Henry Dumas 



Once when I was tree

flesh came and worshiped at my roots. 

My ancestors slept in my outstretched

limbs and listened to flesh

praying and entreating on his knees.


Once when I was free

African sun woke me up green at dawn. 

African wind combed the branches of my hair. 

African rain washed my limbs.

African soil nourished my spirit.

African moon watched over me at night.


Once when I was tree

flesh came to sacrifice at my foot,

flesh came to preserve my voice,

flesh came honoring my limbs

as drums, as canoes, as masks,

as cathedrals and temples of the ancestor-gods.


Now flesh comes with metal teeth, 

with chopping sticks,

and firelaunchers,

and flesh cuts me down,

and enslaves my limbs to make

forts, ships, pews for other gods, 

stockades, flesh pens,

and crosses hung high to sacrifice gods.


Now flesh laughs at my charred and beaten 

frame, discarding me in the mud, burning me up in flames.

Now flesh listens no more to the voice 

of the spirits talking through mylimbs.


Flesh has grown dull at the ears now.

Flesh has grown pale and lazy.

Flesh has sinned against the fathers.

If flesh would listen I would warn him

that the spirits are displeased 

and are planning what to do withhim.

But flesh thinks I am dead, charred and gone.


Flesh thinks that by fire he can kill, 

thinks that with metal teeth, I die,

thinks that chaining me in alien temples 

with new gods carved upon my skin,

thinks that all the voices

linked from root to limb are silenced,

thinks that by cutting me down,

I will sing and dance no more,

but flesh is lazy and clogged with fat.


Flesh does not know that he 

did not give me life,

nor can he take it away.


That is what the spirits are singing now. 

It is time that flesh

bow down on his knee again!