sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Cool Heart – diário de viagem a Nova York (11)

                                                 Foto: Gilberto G. Pereira
Brooklyn: Arco Memorial dos defensores da União na Guerra de 1861-1865
    

Dia 11 (16 de julho de 2016)

A cidade de Nova York tem cinco distritos (boroughs): Brooklyn, Queens, Bronx, Manhattan e Staten Island. Este último é uma ilha isolada ao sul de Manhattan, entre a baías e um braço do rio Hudson. Bronx é o único distrito fixado no continente, e o mais pobre de todos. Bronx foi o primeiro borough que visitei, para experimentar a comida do Oeste Africano, conforme já disse em outro texto.

No dia 16 de julho, pegamos a Linha Q do metrô e fomos ao Brooklyn, mais especificamente ao Prospect Park, no Park Slope, bairro do Brooklyn Sul, que anda fazendo o maior sucesso na cidade, sendo objeto da famigerada gentrificação (prática do mercado imobiliário que cresce o olho sobre uma área pobre e começa a investir nela para sorrateiramente expulsar os mais pobres até que a área se torne nobre).

Procurando o Brooklyn Museum, avistei um prédio gigantesco, que achei já ser o museu, mas era o prédio da biblioteca do bairro, tão linda, tão imensa quanto a de Manhattan, estrela de Nova York que aparece em tudo quanto é filme. Pensei em entrar, porque “sonhava encontrar um livro que explicasse todos os segredos, revelasse de modo infalível o caminho certo”, mas não deu.

Tive de fazer uma escolha, e escolhi visitar o museu. Gigantesco, imponente e cheio de coisas pra dizer também. Talvez ali também houvesse segredos. Como alguém pode morar num lugar desses e não se sentir orgulhoso, pensei.

Muitos moradores do Brooklyn, o maior borough de Nova York, são ricos, outros de classe média, mas uma parcela considerável da sua gente, entre negros e latinos, é pobre. Alguns bairros (neighbourhoods) do Brooklyn são pobres, todos sabemos. Se eu morasse no Brooklyn, numa transferência de espaço sem transferência de renda, eu seria pobre do mesmo jeito. As vicissitudes da pobreza nunca devem ser subestimadas.

Outro ângulo
A pobreza sempre nos afunda num lamaçal de impossibilidades, e reconheço que, sendo pobre, mesmo morando no Brooklyn, talvez não tivesse tempo de mergulhar naquele espaço de coisas antigas que narram novidades pra quem ainda não viu ou pra quem quer ver o mundo de outro ângulo.

Naquele momento, no entanto, o museu estava ao meu alcance. Quando entrei, fiquei encantado. No Brooklyn, tô sempre aqui. Não, não, isso é Sabotage. No Brooklyn, em espaços bem pertinho um do outro, havia uma biblioteca e um museu maravilhosos. Fiz minha escolha e entrei no museu, para o  espanto de meus fatigados olhos.

São cinco andares que encerram acervos próprios e acervos itinerantes. No quinto andar, há uma galeria egípcia com peças extraordinárias da arte e da cultura do Egito Antigo. Pergaminhos, peças de cerâmica, sarcófagos, múmias. Em um episódio de Black List, que não me lembro agora qual, há cenas gravadas nesse museu.

O museu fica no quarteirão da ponta leste do Prospect Park, perto de um arco sensacional, erguido em homenagem aos defensores da União, que lutaram na Guerra da Secessão americana (1861-1865), conforme vemos na foto de abertura deste texto. O museu tem um andar inteiro com pop art, street art, coleções de pintores americanos que retrataram a América, fotografias, colagens, um primor.

Sujeitos urbanos
“Estou mais interessada em estudar espaços que conseguem transformar seus habitantes em ‘sujeitos urbanos’.” Quando a socióloga e urbanista holandesa, Saskia Sassen, disse isso, referia-se ao metrô de Nova York. “É de ‘terceiro mundo’ em tantos sentidos, especialmente na manutenção”, disse ela, em uma entrevista ao jornal Folha de S. Paulo (14/06/2016). “Mas tem a capacidade de transformar todo mundo em sujeito urbano. Todas as classes sociais, religiões e raças estão ali, na mesma situação.”

Saskia é professora da Universidade Columbia (Nova York), onde é co-presidente do Comitê do Pensamento Global. E quando falou sobre espaços que transformam pessoas em sujeitos urbanos, deveria estar pensando também nos museus e bibliotecas públicas. Em Nova York, como em São Paulo, esse lugares são sensacionais, e têm essa mesma característica.

É incrível como passear por essas galerias engrandecem nossas perspectivas de espaço, de localização, de pensamento, de ideias sobre o sentir do mundo. Entendemos – e exercitamos esse entendimento – que o sentimento do mundo pulsa sem parar, que há sempre um modo diferente de ver as coisas, que há sempre novas conexões ou novas maneiras de se fazerem conexões.

O que encanta na visita a museus é a multiplicidade de olhares que vemos olhar para algum acervo, enquanto nós mesmos observamos os mesmos acervos.

Desencadeia-se uma energia interessante nesse contexto. Pessoas estão partilhando saberes, técnicas, histórias, sensações, e de alguma forma nos conectamos naquele momento, enriquecemos todos, muitas vezes silenciosamente, muitas vezes só entendendo ou sentindo com força o que vimos quando estamos solitários em nossos aposentos, ou até mesmo quando muito tempo depois, lendo um livro ou contando a experiência para alguém, ou escrevendo num blog, nos deparamos com mais sentidos daquilo que vimos.

Lembrei-me agora, por exemplo, da experiência que tive ao ver no mesmo dia o acervo de paisagens românticas na Pinacoteca do Estado, pela manhã, e o acervo de paisagens modernas no Museu de Arte Moderna, à tarde, em São Paulo. Como tudo muda, como tudo se transforma e mexe com nossas linhas de horizonte.

Viver é também saber olhar para o mundo, na expectativa de que vamos assimilá-lo melhor, ou pelo menos de modo mais plural, quando o olhamos de diversos pontos de vistas. Isso vale para as relações sociais. Um homem não é um quadro, é verdade, é mais rico, mais diverso, mais profundo, mais inesperado do que qualquer obra de arte.

Como é difícil acessar um homem com a mesma inteireza com que acessamos um quadro, às vezes incorremos no equívoco de pensar o contrário. Mas museus e bibliotecas nos dão justamente essas ferramentas do sentir e do pensar, esse ambiente de conexões. Acho que esses cruzamentos é que nos fazem sujeitos urbanos, pegando carona no conceito de Saskia Sassen, talvez tentando dialogar com ela.

Nesse dia da visita ao Prospect Park e ao museu, apreciamos também uma cena maravilhosa de convivência no gramado do parque, algo comum ali, com famílias inteiras fazendo piqueniques.

Fomos ao Zoológico. Tomamos sorvete. Almoçamos no Bar Corvo, onde fomos muito bem atendidos e onde eu comi o almoço mais gostoso da viagem, e tomei mais uma cerveja ruim, chamada Peroni.

Espacialização
Aprendi com Milton Santos que territorialização é quando uma força política toma o território do outro, ou seja, uma nação mais poderosa vai impondo seu domínio, por meio da diplomacia e das armas, sobre os territórios alheios.

Já espacialização é quando uma nação, em vez de tomar o território, invade a cultura alheia por meio dos símbolos e dos objetos de sua própria cultura, fazendo isso por meio do cinema, da literatura, da cultura de massa, da culinária, dos gostos, da estética, enfim.

Neste sentido, escolhi vir com minha família para Nova York porque já fui espacializado por ela, não exatamente pelo organograma inteiro da cultura americana, mas pelo blues, pelas figuras de Nova York, pela literatura, sim.

Como entendi isso, joguei os dados a meu favor. Aprendi a valorizar também o que há de maravilhoso na minha própria história, e por isso fiz de Nova York um tropo, e penso nela como espaço, entre o real e o imaginário, e não como uma realidade, qualquer que seja ela, rica e paradisíaca (que eu não alcançaria) ou pobre e cruel (dentro da qual não me jogaria). Sou produto dessa espacialização, ao passo que posso usufruir dela de modo autônomo.

Uma cidade, de qualquer tamanho que seja, atrai os espíritos inquietos e os estômagos vazios de igual modo. E muitos procuram as grandes cidades porque têm desejo de prosperar financeiramente ou arrumar um emprego pra pôr comida à mesa e educar os filhos.

Mas há também quem faça essa busca para poder discutir ideias, falar de coisas lidas nos livros, vistas nos filmes ou pensadas a partir da leitura do mundo. A procura por Nova York não foge a essa regra.

No caso da busca pela circulação das ideias, dizem que os americanos não são chegados na filosofia que discute conceitos abstratos demais, que consome a história do pensamento e fica remoendo gostos. Dizem que eles gostam da prática. Afinal, foi o espírito americano que desenvolveu a filosofia pragmática. OK! Isso pode servir para outras cidades americanas –  como Miami, Boston e a Califórnia inteira, apesar da indústria do delírio estar instalada lá –, mas não serve para Nova York.

Nova York é o centro da circulação das ideias de todo tipo. E há um argumento simples pra isso. Nova York não é uma cidade americana, nem de fundação nem de batismo. Foi fundada pelo espírito holandês, que encerra a tradição judaica do debate das ideias. A Holanda é a terra de Erasmo de Roterdam, que escreveu o Elogio da loucura. Pode estar aí uma das gêneses da Nova York delirante.

É claro que há também Wall Street. Mas essa parte do pragmatismo financeiro não me interessa, a não ser certo resultado disso que produz fascínio e, de algum modo, uma vertigem espetacular nos horizontes da retícula real que são os prédios e as instalações de infraestrutura novaiorquinas.

Transitando entre mundos
Andei bastante de metrô em Nova York, e senti aquilo que lembra a fala de Saskia Sassen sobre sujeitos urbanos. Percebi as instalações subterrâneas do metrô, muitas vezes simples e semelhantes a algo arcaico. Quando o metrô sai de Manhattan e ganha o espaço livre do Brooklyn, quanto mais para longe ele vai, mais parece precário e de terceiro mundo. Mas funciona que é uma beleza.

Dentro do metrô, vi de tudo. Gente pedindo trocado, gente delirando como louco, falando sozinho. Às vezes o metrô ficava lotado, às vezes está vazio. Pedi informações para pessoas brancas e negras, e todos foram gentis em me dar a informação correta. Um senhor me pediu informação dentro do metrô, e eu por acaso já sabia e o informei corretamente. Acho que isso é um modo de ser sujeito urbano.

Andar a pé foi muito bom. Andei bastante a pé pelas ruas de Manhattan, mas também peguei muito táxi e usei muito metrô. Há quem diga que não é legal andar de metrô em Nova York, porque aí não se conhece a cidade. Neste sentido, fico com o modo de pensar de Saskia.

Andar de metrô é fundamental para se juntar a um tipo de massa diversa daquela com a qual topamos nas ruas. Andar de metrô em Nova York também faz parte da aventura de conhecer a cidade por dentro, escavando seu ventre, sentindo sua respiração, e depois saindo desses buracos artificiais como quem transita entre mundos.

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