segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Cool Heart – diário de viagem a Nova York (10)

                                                                          Fotos: Gilberto G. Pereira
Fachada do Museu Nacional do Índio Americano, de frente para o Bowling Green
    
Dia 10 (15 de julho de 2016)


 “A brisa que vinha do Hudson trazia os cheiros do verão.”
Sombras sobre o Rio Hudson


Projeto ambicioso este, delirante que é, de visitar Nova York como um tropo literário. A base está clara. Parto de Rem Koolhaas, passando pelo meu delírio cotidiano e pelos 200 mil fragmentos do desejo contemporâneo.

Desejo é “qualquer forma de movimento em direção a um objeto cuja atração espiritual ou sexual é sentida pela alma e pelo corpo”, diz o dicionário de psicanálise. Para Freud, “o desejo é a realização de um anseio ou voto inconsciente”. Para Lacan, desejo é a “expressão de uma cobiça ou apetite que tendem a se satisfazer no absoluto, isto é, fora de qualquer realização de um anseio ou de uma propensão.”

Nova York é, portanto, meu delírio e meu desejo. Meu desejo delirante. Nova York é um delírio não só nas sandices arquitetônicas que não deram certo, ou na retícula bem-sucedida dos arranha-céus e na mistureba de culturas que se comunicam e fazem a cidade respirar sucesso. A face do desejo, a sereia (en)cantando.

Nova York delira também no mundo financeiro. Wall Street não é apenas uma ruela na Lower Manhattan; é o maior delírio de todos, a meca do capital especulativo, a cacimba-mãe das bolhas financeiras que por onde passam deixam rastros de destruição.

Sobre o mesmo espaço onde hoje corre a veia do mercado financeiro, os negros eram vendidos como mercadorias. Eles foram os primeiros a dar o sangue para fazer essa cidade crescer. Logo mais adiante, seriam enterrados, fora do perímetro urbano da incipiente Manhattan, como corpos sem valor, sem luz, sem descanso.

Hoje, rasgamos o ventre de Manhattam, passamos próximo desses corpos lá embaixo, sob prédios, sob calçadas, sob o som da nova selva, passamos como turistas felizes, e não damos a menor importância para a história. Quando apontamos a cabeça de novo à superfície, é para ver a massa de gente em meio ao concreto. Uma nova beleza brotou na ilha dos lenapes.


Visitas
Fui amarrar meu destino na embocadura do Hudson para ver Nova York (sereia da minha alma). Meu imaginário já estava espacializado. De modo consciente e com gosto é que decidi correr as ruas de Manhattan, porque “o que é de gosto é regalo da vida” (Ulysses). Com gosto, buscamos o diferente, e “vamos em busca de diferenças justamente para legitimar as fronteiras” (Zygmunt Bauman).

Minha mulher e eu pegamos o metrô (Linha 5, downtown), à 15 horas, e descemos na Estação Brooklyn Bridge. As outras duas companheiras de viagem (minha irmã e minha filha) ficaram no hotel descansando (não conseguiram acompanhar o pique). A ideia era visitar, primeiro, o African Burial Ground, uma quadra imensa sob a qual estão enterrados milhares de corpos de negros escravizados do século XVIII.

Depois, correríamos pelas galerias do National Museum of the American Indian (Museu Nacional do Índio Americano), no Battery Park, e em seguida passearíamos pela orla do Hudson até o sol se pôr. Foi o que fizemos. Mas o primeiro destino não deu certo.

Fomos até o African Burial Ground, com entrada pela Broadway, mas estava fechado. Seguimos então para o Museu Nacional do Índio Americano, no grandioso prédio de quatro andares que outrora abrigara a alfândega novaiorquina. Caminhando pela Broadway, sendo acompanhados à direita pelo imenso One World Trade Center, onipresente, visto de todos os lugares da South Manhattan.

Chegando ao Museu do Índio, foi um deleite. Todas as referências indígenas que não pudemos ver nas ruas da ilha estavam lá. Não há índios na civilizada Manhattan, e com exceção de seu nome gravado na geografia da cidade, não há vestígios de sua pré-história fora dos museus. Em Manhattan tem de tudo, chineses, coreanos, latinos, negros, europeus, indonésios, bengalis, menos índios.


Manhattan e Goiás
Neste sentido, Manhattan e Goiás têm algo em comum. Os índios que moravam nessa ilha - mergulhando no Hudson ainda com outro nome, pescando no Hudson - não existem mais, a não ser no nome Manhattan, e só. Procura outro nome indígena no traçado quadricular da ilha e não verás nome algum.

Assim também é Goiás, mais especificamente sua capital. Em solo goiano não se vê uma alma viva dos goyá, povo indígena que morava na região quando os primeiras bandeirantes deram as caras e passaram o rodo em todo mundo.

Há poucas homenagens aos índios no Estado, principalmente aos que foram dizimados. Em Goiânia, como registro indelével do genocídio, uma avenida atravessa a cidade com o nome de Anhanguera, para tocar no coração dos mais sensíveis a lembrança de um assassínio sistemático até que não houvesse mais nenhum goyá pisando sobre a terra. Hoje em dia, há uma política de apoio aos indígenas de outras etnias, é verdade, mas os goyá, esses dormem no berço do não mais.

Esse eito humano ceifado da história cria na memória dos ignorantes ou dos que não sabem ficar de outro lado que não dos vencedores o lastro do esquecimento (palimpsesto, raspagem etnográfica). Curioso batizar o Estado de Goiás com o nome de um grupo indígena desaparecido. Mas o batismo não me parece por acaso. Parece-me ser um modo de se apropriar de tudo, inclusive do nome.

O museu
O suntuoso interior do prédio desenhado por um xará, Cass Gilbert (1859–1934), que desenhou também o Woolworth (outro edifício famoso em Nova York), é fascinante. Como fascinantes são as peças da cultura indígena, de roupas a utensílios domésticos, objetos de caça, de guerra e de arte, propriamente, como música e dança, desenhos, fotografias e algumas peças criadas dentro das tradicionais técnicas de artes visuais do Ocidente, por renomados artistas indígenas como Dallin Maybee.

Fiquei surpreso ao ver tantos objetos de indígenas brasileiros de tribos como caiapó, karajá e marajó. Karajás da Ilha do Bananal, lugar onde morei, onde, quando criança, eu, de pele escura e cabelo escorrido, era chamado de indiozinho. Diziam-me que eu havia sido tomado dos índios. De certo modo, fui um indígena sem nunca ter vivido entre eles de fato, nem nunca ter falado uma língua indígena.

Hoje, digo pra minha filha que nossa origem é afro-indígena, embora jamais tenha querido negar o sangue e a cultura de Europa que também correm em minhas veias e em meu imaginário. Sou tudo isso. Sou brasileiro, nascido e criado na pluralidade, com o pensamento voltado para o respeito ao outro, embora, claro, forjado na necessidade de reivindicar uma identidade étnica.

Passeando por todas essas galerias dentro do museu, senti-me em casa, mais uma vez, como me sentiria em casa no universo dos negros americanos, porque são negros da diáspora, cuja narrativa tangencia minha própria narrativa, cuja identidade tangencia minha própria identidade. Tudo isso fui pensando enquanto registrava os passos de nossa visita.

Na parede de uma das galerias, vi um quadro com um texto razoável de uma escritora e artista performática indígena-canadense, da etnia mohawk, chamada Tekahionwake em sua língua, mas muito conhecida como Pauline Johnson (1861-1913).

Em inglês, o texto diz o seguinte:

“Por que seu povo me forçou a usar o nome Pauline Johnson? Meu nome indígena não era bom o bastante? Vocês acham que nos ajudam em alguma coisa impelindo-nos a esquecer nosso sangue? Instruindo-nos a jogar fora toda a memória de nossos mais altos ideais e nosso glorioso passado? Sou uma indígena. Minha pena e minha vida eu devoto à memória de meu próprio povo. Esqueçam que já fui Pauline Johnson, mas lembrem-se sempre de que  fui Tekahionwake, a mohawk que humildemente aspirou ser a cantora da saga de seu povo, o bardo do mais nobre saber popular (folclore) que o mundo já viu, a triste historiadora de sua heroica raça.”

Bonita reivindicação estampada no museu. Pena que está registrada em inglês. Não vi a versão em seu idioma de nascença, ainda que eu não pudesse entendê-lo sem a chave da língua inglesa. Espero que ela tenha escrito esse belo texto, que nos instiga a reivindicar nossa própria identidade, ou nos faz lembrar que temos uma identidade por cuja permanência devemos lutar, em sua língua-mãe, sendo posteriormente traduzida.

Por causa do texto de Tekahionwake (que em mohawk significa “vida dupla”), pesquisei na internet sobre o povo mohawk e conheci mais sobre sua história de perseguição e extermínio. Nada diferente do que houve com todos os indígenas América adentro.

E  o museu que resguarda esse registro acaba se tornando uma espécie de refúgio simbólico dos indígenas americanos, mas também uma confecção do cinismo imperial, uma vez que não há mais indígenas para contar essa história, não nessa região, não especificamente em Nova York. Ou seja, há aí uma duplicidade, uma ambiguidade tal qual o significado do nome da própria artista mohawk.

Nova York, meu tropo literário, me ensinou alguma coisa, exatamente como eu esperava. Deixamos o museu e  começamos o deleite ao lado do Hudson, ainda sob um sol quente, mas na expectativa de que ele se repousasse e nós colhêssemos o delicioso fruto da sombra decorrente, vendo ainda o espetáculo do ocaso. E foi assim que se deu. Nova York sonhada.

Hudson sob o sol
Hudson, o caudaloso rio que beija Nova York, a cidade entregue ao sonho, para alguns, e ao pesadelo imenso de tentar sobreviver, para muitos.

Vejo o Hudson e me lembro de Fernando Pessoa, cuja poesia cutuca nossa consciência histórica, por meio de nosso senso estético. “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,/ Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/ Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.”

O Hudson é mais belo que o rio Jaburu. Mas o Hudson não é mais belo que o rio Jaburu, porque o Hudson não é o rio Jaburu, nem o Tapirapé, nem o Meia Ponte, nem o Xavantinho, nem o Xavante, nem os córregos de minha infância.

Quando os córregos de minha infância enchiam na período de chuvas, levavam os peixes para papear ao lado de minha casa. Os peixes e bichos da água tornavam-se meus vizinhos. O Hudson não é nem o João Leite, sobre o qual passei mil vezes de ônibus para ir estudar no câmpus da Universidade Federal de Goiás.

Os parcos estudos me levaram a leituras que me trouxeram aqui. Pelo Hudson chega-se ao mundo, mas não chega ao mundo que trago comigo, world without end. São tantos rios, tantas curvas. O jaburu é o rio da minha primeira infância, é o primeiro rio a correr em minha memória, em cujas águas vi verterem sangue e lágrimas. (Uma solução de quase morte saiu de minhas entranhas quando quase me afoguei aos três anos de idade no rio Jaburu).

Quando li Odisseia pela primeira vez, juro que chorei ao ver Ulisses chorando sobre o mar. Foi identificação imediata. Fui Ulisses aos cinco anos de idade, quando saí para a guerra, rio Araguaia abaixo, com minha mãe e minha irmã, guerra da sobrevivência.

Da Ilha do Bananal, fui para terras estrangeiras, nos confins do Pará, perdido em águas que não acabavam mais. Fui lutar pela sobrevivência, e  quando voltei, os que ficaram tinham histórias pra contar, histórias que imprimiam mais dor na minha alma, narrativas mais fantásticas do que as minhas próprias, eu que havia descido o Rio Araguaia até o Pará num barco de pescador. Sou um anti-Ulisses.

O Hudson é um rio imenso que nasce lá no caixa-pregos americano (como se diz mesmo caixa-pregos em inglês?) e vem morrer nos braços do Atlântico. Mas o Hudson não é o Jaburu. O Jaburu é beleza e tristeza. O Hudson é só alegria. O jaburu é um menino espiando as águas cheias de piranha, um menino afundando uma orelha de vaca na água e puxando piranhas para dentro da canoa.

Quero marcar uma audiência com os lenapes. O Hudson é uma imagem, uma vontade atravessando a nado para alcançar, do outro lado, uma outra imagem: Rubin Carter, o boxeador Furacão (Hurricane), algemado no auge da carreira por ser negro, preso apenas por ser um preto passando perto de uma cena de crime, na “hot New Jersey night”; Bob Dylan cantando sua liberdade. História de racismo que faz Bob Dylan sentir-se “envergonhado por viver num país onde a justiça é apenas um jogo.” O Hudson é a fronteira de todos os lugares.

O Hudson é uma corda amarrada a uma pedra arrastando um cadáver. Aqueles índios que outrora caminhavam pelas suas margens com o peito estufado de orgulho afundam-se agora no curso escuro da memória caudalosa.

As águas desse rio beijam o Atlântico e se comunicam com as vozes afogadas dos negros que ficaram para trás, cujos ossos se desfizeram enquanto corriam levados pelas correntes do velho oceano, ou assentaram-se em cálcios marinhos para jamais testemunhar história alguma do horror que foi, e que é, qualquer escravidão.

Abaixo das avenidas, um calçadão arborizado corta a orla inteira do Hudson. Iates ancorados no píer em frente ao Brookfield Place e seu Winter Garden, um belo shopping perto da One World Tower, embelezam a vista. Pessoas se divertem nos bares lotados à sombra. Pessoas passam com câmaras e registram o paraíso.

Caminhamos e respiramos o ar de Tribeca. Ancoramos no Pier 25. O sol, o barulho do som e da fúria dos turistas felizes invadiam a atmosfera do lugar. Esperamos o sol se pôr. Eram mais ou menos 17:40, quando chegamos. Achei que o sol afundaria do outro lado do Hudson, atrás dos prédios de Nova Jersey, lá pelas 19 horas. Não perguntamos a ninguém, nem consultamos nada. Havíamos nos essquecido dessas coisas de rotação e inclinação do eixo da Terra, de que a despedida do sol no hemisfério Norte é tardia. Esperamos.


Luzes, sombras, noite
Um bar flutuante ancorado do lado esquerdo do Pier estava lotado. Sob o sol, novos clientes esperavam numa fila. Um fotógrafo, com uma objetiva de dar inveja, se recostou nas grades do cais e ficou ali disparando fotos contra quem estava no bar flutuante. Devia haver alguém importante naquela civilizada horda de homens e mulheres contentes com seus destinos.

No curso do rio, barcas passavam flamejantes de alegria, abarrotadas de turistas “full of joy and happiness.” O sol foi se pôr lá pelas 20:45. Mas foi lindo. Deixamos o Pier 25 e subimos até o Pier 45, onde, ao longo do espaço retangular, havia três aglomerações. No pé do Pier, logo na entrada, um grupo de jovens negros ensaiava passos de dança semelhante ao kuduro angolano. Havia uma bela mistura de gêneros, mas todos negros.

No meio, um cantor negro cantava belas canções pops, apreciadas por um grupo de jovens de todas as cores. E na ponta do Pier, uma roda de capoeira: o mestre puxava em português uma cantiga ao som do berimbau: “Tem que saber cair”; e assim ia.

Já era noite. O sol havia caído por completo. Caminhamos ainda na orla do Hudson até a altura da Rua 12, pela qual fomos até a Oitava Avenida, e subimos rumo à Rua 32, presenciando a  diversão nova-iorquina nos bares do Chelsea.

...


O sol se põe em Nova Jersey, que faz fronteira com Nova York

  
Beira do Hudson, com Nova Jersey escurecendo do outro lado
    

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