sexta-feira, 17 de julho de 2015

Wifredo Lam no MON - Curitiba


Wilfredo Lam em foto-montagem publicada no site Afropunk.com

Entre as diversas mostras em cartaz no Museu Oscar Niemeyer (MON), em Curitiba, agora em julho, a do Wifredo Lam (1902-1982) me chamou a atenção, não por ser uma obra toda marcada pelo surrealismo e o cubismo, flertando o tempo todo com Picasso, havendo inclusive uma imensa foto do pintor com seu mestre, mas pelo sincretismo que nos arrebata. A mistura dos credos entre o cristianismo, o imaginário chinês e as religiões afros são sensacionais.

Lam é negro e chinês ao mesmo tempo. Seu cabelo afro e seus olhos orientais são imaginados na configuração da sua obra, antes mesmo de lermos seu nome ou vermos sua figura. Há dragões e pretos velhos recortados pela geometria cubista dos quadros. Adorei conhecer esse artista cubano. 

Artes visuais não são minha praia, infelizmente (se é que tenho alguma), mas tenho aprendido tanto com esse lance de espaço e textura, e sobretudo com a ideia de narrativas no interior do quadro, quando não uma alegoria inteira por meio do jogo de luzes, linhas e espaços que flerta com meu imaginário, que acabo vislumbrando a história da arte e as grandes narrativas, os grandes mitos, os discursos antropológicos e psicológicos das formas.

Tenho aprendido tanto com isso nos últimos anos que já faz parte da técnica de mover espaços e redesenhar caminhos com as palavras em meus textos. Achei que à medida que eu fosse envelhecendo, eu fosse desistindo das letras, parando de ler, aceitando a morte da palavra dentro de mim. Mas tudo isso está vivaço. Tudo isso é vida, é o universo dançando e me conduzindo na dança da existência.

Infelizmente, um passeio pela mostra de um artista não é suficiente para quase nada. Eu teria de ver Lam muito mais vezes. Mas posso complementar essa visita com outras visitas a outros artistas, ler livros, ver filmes, e continuar a jornada da vida e da arte. Cada um, em sua inteireza de consciência, escolhe o modo como quer exercitar sua existência. Escolhi passear no bosque das artes, já que não posso viver dentro dele.

Lam reavivou isso de algum modo, inclusive porque me fez lembrar de um escritor cubano respeitável esteticamente, com uma narrativa que não faz concessão a ninguém, nem mesmo no nome, Severo Sarduy (1937 - 1993), na novela De donde son los cantantes (onde pretos, brancos e orientais se misturam de modo incrível), que me levou à canção popular cubana, à dança, à cultura cubana, e me deixou um pouco mais conhecedor desse povo tão rico.


Se de um lado Cabrera Infante (1929 - 2005) me apresentou ao cheiro, à sensualidade e à vida cubana de modo geral, Sarduy me envolveu na mistura de cores e significados que é esta mesma cultura. Lam pareceu-me tudo isso, ou pelo menos me levou a tudo isso. Estou vivo. Viva Cuba. Cuba livre. Cuba Libre! Tintim!

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Violência e fé

Há um fosso imenso entre pensar - e sentir - que matar um homem, sob qualquer circunstância, é um mal e não matar ninguém. Da mesma forma, existe uma tremenda lonjura entre acreditar em Deus e se sentir bom, achar que vai para o céu, e não desejar matar ou ferir, insultar, quem comunga outra fé. Podemos ir além da premissa sartreana, retroceder o grau dessa violência e dizer que ferir alguém, não importa o motivo, também é fazer o mal.

As ressalvas para acidentes e legítimas defesas são da involuntariedade e da vontade e não do ato em si. Neste sentido, há quem se contente em desejar o mal a quem não comunga a mesma fé. E há quem sinta a necessidade orgânica de praticar o mal, e para tanto, arranja um jeito de conciliar a consciência do mal à mensagem religiosa que professa.

Segundo dados da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, divulgados em reportagem da Folha de S. Paulo, no dia 27 de junho, a cada três dias o Disque 100 recebe uma denúncia de intolerância religiosa. As religiões mais discriminadas são as de matrizes africanas, como umbanda e candomblé. Das 504 queixas de violência registradas entre 2011 e 2014, 75 vítimas eram de fés afros. Esse tipo de perseguição é notório, inclusive em discursos inflamados de certos pastores em programas de TV na calada da noite.

O curioso é que a segunda corrente de vítimas é de evangélicos, donos de 58 denúncias registradas. Se a mostragem não permite reflexões profundas, por falta de cruzamentos do tipo quem maltrata membros das religiões afros e quem maltrata os evangélicos, pelo menos aponta para o coração da imbecilidade humana, da gratuidade, da maldade, da violência que corre em nossas veias, fatores para os quais temos de nos chamar a atenção sempre.

Quem comete esse tipo de violência - como as pessoas que apedrejaram uma garota praticante do candomblé no Rio de Janeiro, no dia 14 de junho - não faz profunda reflexão de si mesmo sem usar a muleta daquilo que acha que é a verdade. Não mergulha em si mesmo porque sabe que encontrará no fundo da consciência um monstro calado, e à espreita, pronto para agir ao primeiro comando, alimentado por restos ancestrais de animalidade, sem resquícios de outra linguagem que não seja a da intolerância e do ódio.

Esse tipo de comportamento é fruto da falta absoluta de compreensão da alteridade, aliada à falta absoluta de respeito ao outro, de reconhecimento do direito à existência do outro. Não é que o sujeito vê o outro praticando o mal e quer corrigir o mal, é que ele acha, em sua cabeça doentia e má, que a maneira de o outro exercer sua fé, por ser diferente da dele, é por si mesma intolerável.

Recuso-me em acreditar que a fé que fortalece a alma, que nos impulsiona para a vida, com vigor e vontade de viver, que nos enche de dignidade, é a força motriz dessa violência contra o outro.

(Gilberto G. Pereira. Publicado originalmente no jornal O Popular, 04/07/2015)

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Wolverine

Wolverine é um dos mais emblemáticos personagens da série em quadrinhos X-Men, da Marvel. Quando o cinema começou a saga desses heróis, em 2000, o único que funcionou, mostrando-se em sua grandeza, foi ele (a atuação de Hugh Jackman reforçou o carisma do personagem, sem dúvida). Os outros se curvaram à sua sombra. Protagonista solo de dois filmes, X-Men Origens: Wolverine e Wolverine – Imortal, já tem outra sequência em produção.

Wolverine é um ícone dessas figuras imortais que não são deuses e que veem a imortalidade como maldição. Personagem angustiado e revoltado, ciente de nossa miséria, ele carrega para sempre a clareza da desgraça humana. Todos os outros X-Men podem morrer, ou estão envelhecendo aos pouquinhos, até que um dia só restará uma carcaça mutante definhada. Wolverine, não. Com capacidade regenerativa absurdamente desenvolvida pela mutação genética, suas células estacionaram na dimensão do eterno.

É o personagem mais trágico dos X-Men, o mais dionisíaco e por isso mesmo o que mais faz sucesso entre os fãs. Talvez porque tente amar. Apesar dos percalços, quer sentir o coração pulsando. Em Wolverine - Imortal, ele aparece em sua microtragédia, de modo inverso, repetindo o velho refrão poético que fala do sonho dentro de um sonho ("dream within a dream"), tendo pesadelos dentro de um pesadelo.

A verdade é que nosso herói não pode amar ninguém, porque todos que ama morrem. Não pode dormir com alguém, porque acorda no meio da noite com as afiadas garras de metal armadas e matando quem está do seu lado. Foi assim que feriu Jean (a Fênix), mutante poderosa e a mulher que ele amava. Seu pesadelo agora é sonhar com essa cena, em que vê a amada ao seu lado na cama e diz: "Não vou mais te ferir". Serenamente, ela diz: "É tarde demais." Ele olha e vê sua garra enfiada no ventre dela. Mais uma vez, desperta atordoado.

A morte é uma espécie de buraco negro móvel, que sempre ronda nossas sombras até que um dia acaba nos abocanhando de vez. É um emaranhado de fios delicados em meio à maçaroca da vida. Neste sentido, os atributos construídos para um sujeito que sofre de imortalidade nos ensinam sobre o caráter da vida que passa.

A imortalidade é uma quimera paradoxal, é apenas um modo de se referir à extensão indefinida de um tempo que vai além do tempo dos outros. Todo mundo morre, até os deuses. Há incontáveis maneiras de morrer, e nem sempre é uma maneira honrosa. O suicídio, para muitas culturas, é um modo terrível e ultrajante. Wolverine não quer morrer assim. É um herói. Mas se lança à procura da morte, sem encontrar uma força capaz de lhe tirar a vida.

O resultado dessa equação é a angústia de ser um herói imortal. Todo herói põe sua vida em risco para salvar o outro. Wolverine faz isso também. Mas todo herói tem uma fraqueza que, se descoberta, é sua ruína. Não Wolverine.

(Gilberto G. Pereira. Publicado originalmente no jornal O Popular, 27/06/2015)

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