terça-feira, 18 de agosto de 2015

Da solidão à vertigem de ser plural

Vista parcial do Parque Ibirapuera (2015, domingo por volta das 14 horas)

De 1554 até 1900, São Paulo se restringiu a uma pulsação urbana tímida e solitária nas dependências que se restringiam entre os rios Tamanduateí e Anhangabaú, com poucas saliências além. Bom Retiro, Vila Buarque, Higienópolis eram terrenos de chácaras que começaram a ser loteados nas últimas décadas do século XIX e começo do XX. É nesse período que o censo percebe que a capital está reagindo e começando a crescer, já contando 240 mil habitantes.

Se esta história foi narrada em A capital da solidão, de Roberto Pompeu de Toledo, este mesmo autor adianta o passo para contar como tudo virou, dando início à vertigem do crescimento, em A capital da vertigem: uma história de São Paulo de 1900 a 1954, quando São Paulo completou 450 anos e já tinha 2,8 milhões de pessoas, não apresentando mais os sinais da quietude que lhe fora peculiar durante todos aqueles séculos anteriores.

Os tempos agora eram de faustismo e movimento, com tantas coisas acontecendo simultaneamente. A riqueza do café, a badalação cultural dos modernistas, a chegada de tanta novidade arquitetônica e urbanística, a ocupação dos imigrantes que burlaram a política de substituição dos escravos nas fazendas e se aboletaram na cidade, tudo isso, em poucas décadas, faria a cara de sampa mudar vertiginosamente.

Roberto Pompeu de Toledo já havia provado seu valor de narrador soberbo no primeiro volume, em que diz coisas como: “Para recriar na imaginação a vida de São Paulo nos primeiros anos, é preciso incluir a escuridão, profunda e primitiva, de suas noites. Acrescente-se o silêncio. Talvez seja recomendável adicionar um pouco de tristeza. Era um burgo solitário, o mais solitário de todos.”

O que Toledo fez agora foi ampliar essa verve, mostrando-nos São Paulo e suas mil faces, desde o motor econômico, com a arrojada gestão de Antonio Prado (seu primeiro prefeito), até as novas ideias modernistas que tomaram conta da Pauliceia. Na década de 1920, com a chegada dos revolucionários da estética modernista, os paulistanos, segundo Pompeu de Toledo, já sentiam a sensação de aceleração do tempo “com mais força do que os outros brasileiros.” Eis a vertigem, produzida nos “anos confiantes, em que a cidade ousou tornar-se maior pela força da arte e da cultura”.

A cidade acordada

A vertigem também se dá pelos inúmeros projetos de urbanização da nova São Paulo quando ainda não havia o termo urbanização – entre eles a inauguração do Theatro Municipal, o reordenamento do Vale da Anhangabaú – e pelo aparecimento do primeiro automóvel na capital, o surgimento do cinema, o barulho de todas as coisas da modernidade, acordando a cidade de seu silêncio secular.

Essa aceleração não parou até hoje. Se o autor chamou o período entre 1900 e 1954 de vertiginoso, o que dizer de 1954 para agora, em que a cidade saltou de 2,8 milhões de habitantes para 11 milhões e ainda puxou a seu redor outra dezena de milhões de pessoas? Prudente, Toledo contextualiza: “Perto do que é hoje”, diz ele, a São Paulo dos modernistas ainda ostentava “o ar de vila interiorana.”

Em A capital da vertigem, Toledo demonstra um domínio absoluto da história de São Paulo, transversalizando temas como urbanização, movimentos artísticos, economia, vida noturna e social, política, comportamento, a dinâmica dos setores produtivos, imigração e o problema das águas. O autor não deixa nada de fora da biografia, nem mesmo a ascensão pelo mercado do sexo, narrando histórias de mulheres que alcançaram a alta sociedade paulistana por meio da prostituição de luxo, como Nenê Romano, como ficou conhecida Romilda Machiaverni, protagonista de uma tragédia em que foi assassinada por um dos amantes, Moacyr de Toledo Piza, da alta sociedade, que depois se matou.

Madame Sanchez seria outra figura conhecida da noite de luxo paulistana. Ela teria sido a inspiração para Hilário Tácito (pseudônimo do engenheiro José Maria de Toledo Malta) escrever o romance conhecidíssimo Madame Pommery, “uma aula sobre São Paulo”. Até onde se sabe, Roberto Pompeu, Moacyr Piza e Hilário Tácito dialogam entre si no sobrenome em comum (Toledo), mas não se avizinham no parentesco (mas vá saber).

Os muitos nomes, as muitas coisas

No período narrado por Toledo desfila uma série de eventos históricos e personalidades diversas, muitas das quais se tornariam nomes de ruas. Vemos eventos sinistros como a gripe espanhola e a aparição de nomes importantes na saúde pública do país como Emílio Ribas, Vital Brasil e Adolfo Lutz, a Revolução de 1932 e o surgimento da Semana de Arte Moderna.

Esta última entra para a história imprimindo nomes como Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Monteiro Lobato, Anita Malfatti (descoberta em 1917), Menotti del Picchia, Vitor Brecheret (1920), Juó Bananére (Alexandre Ribeiro Marcondes Machado), o carioca radicado em Sampa Di Cavalcanti, o maranhense Graça Aranha, que entra como medalhão da semana de Arte Moderna de São Paulo (embora “de modernista não tivesse nada”), o intelectual da aristocracia paulistana Paulo Prado, Heitor Villa-Lobos, Tarsila do Amaral (que não participou da Semana de Arte Moderna, porque estava em Paris) etc.

A vertigem está presente na chegada do navio japonês Kasato Maru em Santos (1908) – que faria surgir o Bairro da Liberdade em Sampa – na aglomeração de sonhos e realizações dos italianos, alemães, árabes, no prenúncio dos arranha-céus, na criação da USP (1934), na inauguração do Pacaembu (1940), na inauguração da TV Tupi (1950) etc.

Segundo Augusto Nunes, em sua resenha sobre o livro de Toledo, na revista Veja, o biógrafo da maior metrópole da América do Sul ainda trará à luz um terceiro volume. Pois que venha, e será bem-vindo. Afinal, São Paulo não cessa de produzir e reproduzir suas memórias.

Suas ruas estão cheias de história, e, embora ela se modifique a cada segundo, com novas fachadas de prédios, estabelecimentos que fecham e no lugar abrem outros com novas tendências, a cidade tem um DNA acessível, dentro do qual está o registro da passagem do tempo e de tudo que ela viveu. São Paulo é um organismo vivíssimo, e por isso, ainda hoje, pulsa como um espaço em transformação.

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2 comentários:

alessandro copetti disse...

Vou ler o livro, Giba!

Alessandro!

Gilberto G. Pereira disse...

Maravilha, Alessandro. É uma ótima dica, principalmente para nós que amamos São Paulo.