terça-feira, 26 de junho de 2012

O sol que revela o mundo


Em 1814, quando Arthur Schopenhauer tinha 26 anos e concluía o doutorado, uma discussão brutal se deu entre ele e a mãe, Johanna, que então gozava de grande prestígio como escritora de best-sellers. No calor da briga, ela disse que a tese dele, Sobre a raiz quádrupla do princípio da razão suficiente, devia ser “alguma coisa para farmacêuticos”.

O jovem filósofo retrucou à altura: “Será ainda lida quando não restar um só exemplar de teus escritos nem sequer num sebo.” Nem Tirésias seria tão severo, nem Hermes tão certeiro. As duas profecias foram confirmadas. De Johanna Schopenhauer não se encontra hoje nenhum exemplar, nem mesmo no mais volumoso e heterogêneo dos sebos.

Mas o filósofo também teve de melhorar, e muito, seu trabalho de doutorado até que se tornasse a obra respeitada e canonizada que se conhece atualmente sob o título O mundo como vontade e representação.

Toda essa história de conflitos interiores e embates colossais com todos que se punham à frente de Arthur Schopenhauer é contada em Schopenhauer – e os anos mais selvagens da filosofia (Geração Editorial, 2012, 688 páginas, tradução de William Lagos, R$69,90), de Rüdiger Safranski, mesmo autor de Nietzsche – biografia de uma tragédia e Heidegger – um mestre da Alemanha entre o bem e o mal, ambos publicados pela Geração.

Schopenhauer entrou para a história revolucionando o pensamento ocidental, erigindo um corpo teórico novo, fecundante, parte do qual é inegavelmente precursora da psicanálise, outra parte, precursora da hermenêutica heideggeriana, do existencialismo, do niilismo, do ateísmo filosófico.

Bem antes de Freud existir, o filósofo alemão já havia postulado alguns elementos daquilo que seria essencial na teoria psicanalítica, como a sexualidade. Muito antes de Heidegger, Schopenhauer já tinha elegido a arte como elemento veiculador da intuição, cujo grau de conhecimento seria mais elevado que os conceitos filosóficos preexistentes.

Os dois grandes conceitos que estruturam sua obra são vontade e representação. No entendimento comum, presente nos dicionários lexográficos e na filosofia tradicional, vontade é “o apetite racional ou compatível com a razão, distinto do apetite sensível, que é o desejo”, segundo o Dicionário de Filosofia Nicola Abbagnano.

Mas Schopenhauer redimensiona o significado de vontade e tira o fator racional de sua órbita. “A vontade é um impulso (Strebung) primário e vital”, explica Safranski. Abbagnano também cita um trecho de O mundo como vontade e representação para explicitar esse particular significado schopenhaueriano de vontade:

“É um ímpeto cego, irresistível, que já vemos aparecer na natureza orgânica e vegetal, assim como na parte vegetativa de nossa própria vida (...). O que a Vontade sempre quer é a vida, justamente porque esta é apenas o manifestar-se da Vontade na representação, e é simples pleonasmo dizer Vontade de viver em vez de Vontade”

Sexo e vontade

É a partir desse conceito que Schopenhauer discute as diversas pulsões da vida e antecipa Freud na análise da sexualidade. “‘Contra a poderosa voz da natureza, a reflexão tem muito pouco poder’”, diz o filósofo, sendo citado por seu biógrafo, que acrescenta: “Schopenhauer dá rédeas soltas a seu nada desprezível talento satírico em sua descrição do ridículo por que passa o espírito quando este pretende entrar em colisão com as maquinações do corpo.”

“A voz mais poderosa da natureza e as ocasiões mais adequadas para que o espírito seja envergonhado pela vontade”, continua Safranski, explicando o pensamento de Schopenhauer, demonstrando a tibieza racional, “são, como não poderia deixar de ser, as manifestações da sexualidade.”

Para Schopenhauer, os órgãos sexuais eram o “autêntico foco da vontade”. Perante nossa consciência e nossa sensibilidade, continua o biógrafo, escaneando as ideias do filósofo, “a natureza, que persegue inexoravelmente dentro de nós a vontade e o alvo da espécie, ou seja, a pura e simples procriação, se disfarça a maior parte das vezes sob um sentimento artificial que interpretamos como encantamento amoroso.”

Mas essa encenação toda da vontade é apenas um truque. “São os órgãos genitais que se buscam enquanto as almas julgam que se encontraram.”

O livro de Safranski é uma grande aula de filosofia, uma aula iluminada, esclarecedora do divisor de águas da velha e da nova filosofia, daquela que veio antes e da que veio depois de Kant. Schopenhauer é a luz mais brilhante dessa posteridade. Ou melhor, ele é o sol.

Não é à toa que em sua obra mais bem acabada e mais revolucionária, ele comenta que o homem comum usa o patrimônio cognoscitivo como “a lanterna que ilumina o caminho”. Já para o gênio, esse mesmo patrimônio “é o sol que revela o mundo.” Estava falando de si mesmo, claro.

Neste sentido, o livro de Safranski mostra como o menino Schopenhauer, da carência de afeto na infância, fez o mundo inteiro, pelo menos o mundo manifesto em inteligência, se curvar diante dele, no final da vida e na posteridade, fez a escuridão humana ganhar um laivo de fulgor e por um instante, como quem na noite escura vê o mundo ao redor pela luz de um relâmpago, ser capaz de compreender a vida por trás das representações.

Amarras e carências

Arthur Schopenhauer nasceu no dia 22 de fevereiro de 1788, em Dantzig, principado que respondia ao império prussiano e que se tornaria parte da futura nação alemã. Filho de Johanna e Heinrich Floris Schopenhauer, família abastada de comerciantes, o menino foi criado com todo o conforto, mas com distanciamento afetivo.

Muito viajado e culto, com acesso ao que havia de mais elevado para o espírito de sua época, Schopenhauer constantemente se via como um órfão, um pobre menino rico largado à solidão, à angústia e ao medo. Sentia-se assim a ponto de ter registrado em suas memórias a seguinte observação:

“Quando eu era um menino de seis anos de idade, reencontrei meus pais, que voltavam uma tarde de um passeio a pé pela cidade, depois de ter passado pelo maior desespero, porque subitamente me viera a ideia de que eles tinham me abandonado para sempre.”

Compensava esse distanciamento afetivo mergulhando no mundo simbólico. Em 1803, quando se preparava na escola de comércio para substituir o pai nos negócios da família, a mãe lhe escreveu uma carta dizendo: “seria um resultado insuportável que você desde já desperdiçasse todo o seu tempo com a arte. Você tem agora somente quinze anos de idade. Contudo, já leu e estudou todos os melhores poetas alemães e franceses e agora já se familiarizou com uma boa parte dos poetas ingleses.”

Essas admoestações faziam sentido não apenas do ponto de vista da vida prática, mas também em relação ao futuro do menino. O pai queria que ele fizesse o Aprendizado comercial, mas o filho já não aguentava mais aquilo e queria seguir uma carreira intelectual.

Libertação

O domínio paterno, no entanto, era soberano e Arthur Schopenhauer não se sentia à vontade para pedir para sair. Heinrich morreu em 1805, sob suspeita de suicídio, quando Schopenhauer tinha 17 anos e sua única irmã, Adele, era uma menininha de oito anos. Mesmo depois da morte do pai, o filho não conseguiu se ver livre dessas amarras para projetar sua vida. Sentia-se moralmente obrigado a seguir a determinação paterna.

Já Johanna, que havia se casado aos 18 anos, não demorou para tirar as amarras e programar sua nova vida de viúva. Não se casou nunca mais, no entanto, levou a vida livre e regada de festas e saraus em Weimar, onde recebia os grandes artistas da época, entre eles, Schiller e Goethe.

Foi a mãe que o desobrigou do fardo de seguir o que o pai determinara. E aos 19 anos, Schopenhauer se sentiu livre para fazer os estudos que o levaria para o topo da cadeia intelectual. Mas o conflito com a mãe, a quem ele culpava pela morte do pai, seguiu até o fim, em meio a uma desconfiança geral sobre as mulheres.

Brilhante e brigão, “bastante desembaraçado com seus punhos”, ou seja, arruaceiro, Schopenhauer seguiu sua vida entre os estudos de Platão, Kant e, quando já escrevia sua tese de doutorado, os Upanishads, criando inimizade com Deus e o mundo. Foi implacável com todos que se punham a sua frente.

Quando completou 21 anos, recebeu a herança do pai e passou a viver de renda até o fim da vida, podendo se dedicar full time à sua filosofia, grandiosa e profunda, que dava crédito à arte como único caminho capaz de livrar o homem do massacre da vontade. A mesma arte que sua mãe havia condenado. Morreu em 1860, aos 72 anos.

Schopenhauer – e os anos mais selvagens da filosofia é um farol que lança luz sobre um dos pensadores mais ilustres e aguçados do Ocidente de todos os tempos. Safranski soube costurar bem a vida do filósofo e seu tempo, apontando as influências e as negações, mostrando como os filósofos se envolvem com o mundo e como o transformam. Schopenhauer foi um desses grandes transformadores.

(Gilberto G. Pereira. Publicado originalmente na Tribuna do Planalto em 24/06/2012)

domingo, 10 de junho de 2012

Um igual, um irmão

Paulo Francis (1930 - 1997) foi um sujeitinho interessante. Passou da esquerda para a extrema direita sem pestanejar. Nisso, temos de admirá-lo. Tinha estômago para escolher o que queria, sem modismo. Era mais ou menos como as prostitutas que não escolhem a cara, nem o cheiro, do homem no qual têm de praticar a felação.

Nunca foi pobre. Portanto, provavelmente, nem sabia por que um dia admirou as ideias de Trotski, para depois ter de descartá-las em nome de uma trama maior e um pagamento superior, para viver em Nova York. Era de lá que expelia seu veneno inteligente e mal humorado sobre tudo e sobre todos.

De Albert Camus (1913 - 1960), por exemplo, disse aquilo que qualquer provinciano aplicaria sobre si mesmo: Segundo ele, Camus era “de um palavrório estático, solene, pomposo, típico do provinciano que aprendeu as cadências majestosas dos clássicos franceses.”

No Brasil, Francis sequer tinha a desculpa dos clássicos, porque havia Machado de Assis apenas. Guimarães Rosa, o gênio mor, falava a quem pudesse interessar, mas não das tribunas, dos parley da metrópole. Era universal sem precisar passear na Broadway.

Francis, portanto, para ser o que era em Nova York, teve de se alimentar dos clássicos franceses e dos ingleses. Neste sentido, foi exatamente como Camus, que saíra da atrasada Argélia para estudar filosofia na Sorbone, enquanto se tornava um respeitável escritor.

No Brasil, repito, Francis até podia se passar por um ilustrado e dotado de uma inteligência sarcástica e célere, mas, em Nova York, não passava de mais um provinciano saindo da roça da América do Sul para tentar se dar bem na cidade mais urbanizada do mundo. Era – como muitos outros – apenas mais um bocó.

Pergunta em Nova York quem foi Paulo Francis, como quem pergunta quem foi Paul Bowles, e ninguém saberá responder. Francis teve a sacada de entender Camus não exatamente pela brilhante inteligência freudiana-lacaniana, mas pela experiência de ser um igual, um irmão.

domingo, 3 de junho de 2012

A autoria da morte


Alejandro Zambra (foto), autor de Bonsai, publicado no Brasil pela Cosac Naify, tem 36 anos e faz parte da nova geração de escritores chilenos. Ele vai participar da Festa Internacional de Paraty deste ano. A Ilustríssima, da Folha de S. Paulo deste domingo, trouxe uma entrevista com ele, em que fala do boom de novos escritores no Chile.

Boa parte dessa febre de literatura que o Chile vive agora é devido a dois escritores, o espanhol Enrique Vila-Matas e o chileno Roberto Bolaño. O fato é que quem gosta de literatura já leu, no mínimo, um ou dois livros desses senhores magistrais.

No Brasil, há também uma espécie de renovação literária com jovens escritores do nível de Carola Saavedra, Tatiana Salém-Levy, Wesley Peres e vários outros, que também beberam na fonte dessas figuras renovadoras. Bolaño morreu aos 50 anos, em 2003. Vila-Matas tem 64 anos e está vivíssimo.

O que me levou a postar este texto, na verdade, foi uma das respostas de Zambra sobre a influência de Bolaño em sua literatura.

Para mim, Bolaño é como um irmão mais velho que chega em casa muito tarde da noite e começa a contar suas aventuras. E, ainda que você tenha vontade de viajar e experimentar essas mesmas aventuras, de algum modo você sabe que o que resta a você é ficar onde está, esgotar uma paisagem única, se aprofundar em algumas poucas ruas que você conhece de cor.

A obra dele me interessa muito, foi muito importante para mim. E não me diga que ele morreu, porque não vou acreditar em você.

Há quem diga, há quem venda e até force na cabeça de algumas pessoas a ideia de que a literatura está morrendo. Faço minhas – porque sou pobre de ideias ou porque realmente aproveito o momento – as palavras de Zambra, para tamanha provocação: não me diga que a literatura está morrendo porque não vou acreditar em você.