quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

A lavoura prosaica de Edival Lourenço


Se será um clássico da literatura produzida em Goiás só o tempo vai dizer, mas Naqueles morros, depois da chuva (Hedra, 2011, 236 páginas, R$ 36), de Edival Lourenço, é uma obra de mestre, de quem sabe manejar a linguagem para alçar os voos altos da criação.

Ambientado no século XVIII, o romance narra os primórdios da fundação do estado de Goiás, mostrando os conflitos entre nativos e exploradores do ouro e, principalmente, a aventura quase errante de uma comitiva oficial que traz o novo governador da província de São Paulo para elevar o Arraial de Nossa Senhora de Santana a Vila Boa de Goiás.

Dom Luís de Assis Masca­renhas, personagem real, vem terminar o que seu antecessor não conseguiu. Este “veio da província de São Paulo, de mula, e voltou de vento: só a alma”. E quem narra é a figura mais interessante do romance de Lourenço, uma ficção que ganha vida absoluta e toma conta do livro inteiro num monólogo ritmado, que não deixa, em momento algum, a peteca cair.

O narrador é conhecido como o homem da cobra, porque como sentinela traz uma jiboia de nome Messalina enrolada ao pescoço, enquanto segura firme o pescoço dela, durante as vigílias noturnas. Se ele cochilar e afrouxar seu pulso, a cobra o enforca, e ao mesmo tempo não pode matá-la.

Há tanto tempo sendo chamado assim, nem se lembra mais de quando seu nome deixou de ser pronunciado. Diz que é filho bastardo de Barto­lo­meu Bueno da Silva, o segundo Anhanguera, com uma escrava. E que só por isso se livrou dos grilhões. Seu pai, que não o as­sumiu como filho, teve ao me­nos a decência de não o escravizar.

Pela armação do texto, desde o título, outra grande personagem do romance é o lugar, a região das Minas dos Goyazes e adjacências, em que se veem mescladas a vida privada e a pública. A viagem da comitiva oferece ao leitor a apreciação da paisagem e das cenas que ilustram uma época, uma passagem da história brasileira, em geral, e da goiana, em particular.

Outros sertões

Não é à toa que Naqueles morros, depois da chuva traz um título tão semelhante e ao gosto de Grande sertão: veredas. Têm naturezas parecidas. Longe de querer pôr aqui os dois no mesmo barco. Mas não há dúvida de que Lourenço tinha consciência dessa aproximação, e nem podia ser diferente.

Em certo trecho, o narrador diz “coragem em mim, às vezes é não, às vezes é sim. Sou muito carecedor é da sustância que na hora me acuda.” Quem leu Grande sertão: veredas deve se lembrar de um momento parecido, quando Riobaldo tenta explicar o medo que lhe correu pela espinha no confronto com o diabo: “Medo, não, mas perdi a vontade de ter coragem.”

O monólogo, tal como o faz Riobaldo no romance fundante de Guimarães Rosa, a linguagem trabalhada pela expressividade de um lugar e tempo que está diretamente ligada aos gerais, tudo isso dá ao romance de Edival Lourenço o tom de uma criação de grande valor.

No coração das minas dos goyazes surgem várias personagens que compõem o quadro geral desse romance de fundação. Muitas delas criadas na atmosfera do realismo fantástico, no ambiente místico de uma época dura, sem romantismo, pessoas afundadas numa realidade que não distinguia muito da magia e do mistério da vida, do medo, da sensação de esquecimento, da violência desmedida.

Fantástico

De um lado estão os caiapós, que se preparam para uma batalha épica contra os homens brancos que usurparam as terras dos goyazes e que certamente renderiam as outras tribos. Para antecipar a batalha e tentar salvar sua nação, os caiapós desenham estratégias bélicas, fazem exercícios de guerra e começam a atacar os mineiros, numa fúria arrasadora.

De outro lado, vem a comitiva do novo governante de São Paulo de Piratininga. É nessa trilha onde surgem os principais acontecimentos da narrativa, caminho pelo qual a comitiva vai encontrando os rastros de destruição deixados pelos indígenas, além de sofrer fenômenos estranhos de doenças e superstições.

A certa altura eles se deparam com uma figura maravilhosa (do realismo fantástico) chamada Zumba Macumbela, que para alguns já passou da idade de morrer de tão velho, e para outros já morreu há muito tempo, mas, por ter pacto com o diabo ainda zanza por aquelas plagas. “Tem capacidade de exalar-se quando não quer ser visto (...). às vezes desaparece, sem mais nem menos, como que por encanto.”

“Às vezes, vira outra coisa: um murundum de cupim, um toco de pau seco, um cogumelo, uma árvore com vento individual ou com flores de chama, um enxame de abelhas ferozes, um sapo emproado, uma jaguatirica furiosa, um pássaro voando, um grito zunindo, um rodamoinho, uma nuvem que passa com zunido de chuva sem chover.”

As proezas de Zumba Macumbela são inúmeras. Ele caberia sem dificuldades num roteiro de HQ. É ca­paz de voar “enganchado em seu bastão de peregrino, com a tralha tremulando ao vento e tamborilando nas costas (...). Às vezes salta com suavidade do cimo das montanhas, segurando seu cajado ao meio e fazendo ele rodar por entre os dedos feito as pás velozes de um moinho de vento.”

“Dizem que ele banca até um riacho correndo para cima com cachoeira e tudo (...).” To­das essas proezas ainda parecem mínimas perto de realizações ainda mais fantásticas, que o aproximam sem a menor sombra de dúvida do grande pai das peripécias, o próprio diabo.

Tem o dom da onipresença e de “chegar ao destino antes de sair de onde esteja, ou de aparecer de repente, como se chegasse sem ter vindo. Às vezes não chega de todo, só o mau cheiro; às vezes chega a tralha, depois ele. Às vezes chega a voz e ao redor da voz ele se faz sem chegar.”

O romance e a negação da fábula

Zumba Macumbela tem uma importância fundamental dentro da narrativa de Na­que­les morros porque é ele quem evita o confronto da comitiva com o batalhão de índios que passa pelos povoados arrasando tudo. Ele previne dom Luís de Assis Masca­renhas, que acampa no Arraial do Meia-Pon­te (futura Pirenópolis) e fica lá até se sentir seguro para con­tinuar a marcha rumo ao Ar­raial de Nossa Senhora de Santana.

Neste sentido, Macumbela é o anticlímax da história. E é a chave principal do não-romance proposto pelo autor. Por causa dele não existe a batalha épica, da mesma forma que ele mesmo é uma figura simbólica da aventura humana, ele mesmo existe apenas no imaginário da cultura, é um não personagem dentro de um romance histórico.

O que não acontece nesta narrativa de Edival Lourenço é matéria para outra leitura, mas podemos vislumbrar algumas coisas. Anhanguera, por exemplo, surge no início como uma promessa de protagonista, como se sua velhice é que fosse ser contada, o outono do diabo velho. Mas, nada.

No decorrer da viagem, a comitiva encontra um vilarejo massacrado pelos índios, onde sobrevivem apenas um velho com sua filha. Aquele põe a filha à venda. O governador diz não à proposta. Mas aceita levá-los na trupe, fazendo nascer a promessa de um futuro romance, que é frustrado ao longo da narração.

A narrativa (não a narração em si, mas a técnica, a linguagem, a forma, enfim) dá a entender que haverá o confronto. Os caiapós se preparam para isso, e o governador continua a marcha na expectativa da resistência. Mas os índios desistem da luta, e os homens brancos chegam sãos e salvos.

O narrador é fulcral, muito bem desenhado pelo autor. Foi castrado num momento pré-narração. Conta essa história e promete vingança. “Jurei a mim mesmo, por tudo de mais sa­gra­do que possa haver, que o dia em que eu topar o Trairi­nha, o chefe da escumalha que botou fora meus petrechos de macho, vou vingar dele, com adornos de crueza.” O leitor espera essa vingança, mas ela não acontece.

Genocídio

Por tudo isso, a narrativa é o grande sucesso do romance. Uma linha da história contada é capaz de comprovar a eficácia do autor. Até certa altura, o narrador é o sentinela substituto, e assume o posto definitivamente quando morre o primeiro, que é um legítimo goyá. E aí o narrador diz: “morria ali o derradeiro dos derradeiros da dita nação goyá.”

Não precisa mais do que isso para ter narrado (sem narrar) a extinção de um povo. O genocídio está registrado, como está prenunciado o que virá contra os caiapós. Esse jogo de tramas e não tramas é típico do romance moderno. E o de Edival Lourenço traz essa carga de modernidade, principalmente, em se tratando de uma ambientação de época.

A riqueza de detalhes da pai­sagem humana e geográfica é outra mostra da importância do lugar como personagem. Isso vem aliado a uma su­cessão de frames narrativos, com cortes e zooms cinematográficos e um narrador que ultrapassa seu tempo. Sua cultura livresca às vezes parece extrapolar a fronteira de seu sa­ber, deixando escapar vestígios de erudição do próprio autor.

Não pelos livros e ideias citados, porque isso, inteligente que é, mesmo num fim de mundo como era o Brasil colonial, ele poderia ouvir e ler (talvez às escondidas) dos viajantes cultos, como o próprio dom Luís de Assis Mascarenhas. Mas algumas palavras provavelmente não tinham registro em sua época.

Palavras como ‘guerrilheiro’ e ‘negrada’ são vocábulos que só vieram a ter registro no final do século XIX. E é pouco provável que elas existissem na boca de quem quer que fosse na primeira metade do século XVIII. Menos provável ainda é que o autor, em suas pesquisas, as tivesse encontrado.

Filhos da mistura

Ou seja, é um prova da mo­dernidade do texto, porque há uma intervenção do autor, que ultrapassa o narrador em si. Existe um ditado popular, se­gun­do o qual uma pessoa falastrona ‘fala mais do que o ho­mem da cobra’, e esta é a sen­sação do leitor quando (ouve) lê o narrador de Naqueles morros.

O sopro moderno na alma desse narrador que nasceu no último ano do século XVII também pode ser visto pelo riso, a ironia, o jogo de palavras, o rit­mo de sua fala, que vêm em con­traste com o espírito da época.

O narrador, o espaço e o tempo em que se crava a narrativa são as melhores coisas deste livro, que ainda têm inúmeros casos e personagens excêntricos e interessantes. Há uma fina sugestão de que somos mesmo, do aedo ao grão-mestre, filhos da mistura.

O que vale pouco (o narrador) é filho de um dos homens mais importantes da história de fundação de Goiás. O que mais manda, gene da alta roda, é fi­lho incógnito de um “flâmulo ser­viçal da casa.” Goiás agora tem um débito com Edival Lourenço.

(Gilberto G. Pereira. Publicado originalmente na Tribuna do Planalto, 11/12/2011)

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