O Pequeno Príncipe é sucesso por ser comovente - Leituras do Giba

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terça-feira, 7 de abril de 2026

O Pequeno Príncipe é sucesso por ser comovente


O livro O Pequeno Príncipe, do francês Antoine de Saint-Exupéry, é muito lido no mundo inteiro não por ser pequeno, infantil, bonitinho e fácil de ler, mas porque, além disso, é comovente, profundamente humano e portador de uma mensagem universal, a amizade.

Foi o último livro escrito por Saint-Exupéry, em 1944, e publicado em 1946, pouco depois de ocorrer um incidente com o avião do autor, que desaparecera. A causa do desaparecimento permaneceria um mistério até o começo do século XXI, quando descobriram que a aeronave tinha sido abatida sobre o mar Mediterrâneo por engano, em plena guerra. 


A publicação de O Pequeno Príncipe imortalizou seu autor, que morreu aos 46 anos de idade. Saint-Exupéry começa o livro dedicando-o ao escritor Léon Werth, e faz um pequeno discurso argumentando por que dedica o livro a uma pessoa grande: “é o melhor amigo que possuo”; “é capaz de compreender todas as coisas, até mesmo livros de criança”.


Os dois se conheceram quando o autor de O Pequeno Príncipe tinha 31 anos, e Léon Werth, 53. Ou seja, nenhuma infância se cruzou nessa relação. O que houve foi uma amizade forjada no afeto e na confiança. 


A sensibilidade de Saint-Exupéry viu em Werth um espírito preservador da memória e da inteligência infantis que ele, Werth, um dia fora, assim como o fora o próprio autor.


Neste pequeno cosmo de beleza, entendemos que o ingênuo é pai do gênio, gerador de um espírito propenso a grandes descobertas, porque despido dos preconceitos, aberto para as estranhezas do mundo e para a beleza das coisas, independentemente de suas estruturas, de suas configurações, seus tamanhos e pesos. 


A criança está engendrada no ingênuo. As pessoas grandes, não. Foram lapidadas de suas inúmeras arestas de pureza e curiosidade. Só aprendem o que já foi testado e incansavelmente explicado. 


“As pessoas grandes não compreendem nada sozinhas, e é cansativo, para as crianças, estar toda hora explicando. (...) É preciso não lhes querer mal por isso. As crianças devem ser muito indulgentes com as pessoas grandes”, diz o narrador, pela perspectiva de sua criança interior. 


O narrador, alter ego do autor, foi tolhido na infância de seu interesse pelo desenho, e foi buscar voos mais altos, aprendendo o ofício de aviador. E como aviador, voou para lugares longínquos, para além das fronteiras do que se convencionou como realidade, voou para o espaço imaginário, sobrevoou suas cartografias de sonhos, encontrando novas maneiras de apreciar a vida. 


Mas só conseguiu fazer isso, porque, embora as asas de sua imaginação primeira tenham sido cortadas, elas nasceram de novo, e nasceram fortalecidas pela engenharia aeronáutica, com asas de metal, e a criança pôde voar no interior do adulto que ele se tornou. 


Pagou um preço terrível, é verdade, não conseguindo fazer amigos, porque os adultos continuavam alienados, focados na racionalidade factual, esta que criou o cenário em que vivia o autor e o personagem, o cenário da Segunda Guerra Mundial, com todo o horror que se estabeleceu. 


Uma flor e três vulcões


Quem narra a história é o próprio aviador, que viajou o mundo inteiro, e um dia, ao sobrevoar o deserto africano, sofreu um acidente em que sua aeronave teve de pousar no meio do nada. 


Naquele fim de mundo, ele encontrou o ser que viria a preencher o vazio de sua solidão, um alienígena de planeta distante, que ele chamou de pequeno príncipe, “um pedacinho de gente inteiramente extraordinário”, “encantador”, que amava flores.


O tico de gente pediu ao narrador que lhe desenhasse um carneiro, e o desenho foi refeito várias vezes porque o presenteado era exigente, até que o narrador desenhou uma caixa e disse que o carneiro estava dentro. O pequeno príncipe adorou, e disse que ia cuidar bem do animalzinho no seu planeta.


A partir daí, toda a narrativa se envolve numa espécie de desenho de uma caixa com um carneiro dentro. É preciso sentir a tessitura das palavras para entender o que elas querem dizer. Esse aprendizado da narrativa surge quando o garoto alienígena conversa com a raposa aqui na Terra. 


“A linguagem é uma fonte de mal-entendidos”, diz a raposa ao instruir o pequeno príncipe como cativá-la. “Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.” Ou seja, é o contrário da máxima adulta, segundo a qual “o que os olhos não veem o coração não sente”. “Os olhos são cegos. É preciso buscar com o coração ...”, diz, a certa altura, o pequeno príncipe ao aviador.


Mas antes disso, ele conta sua aventura ao aviador, ao percorrer um longo caminho tentando desvendar o mundo. O lugar de onde vinha era um planeta bem pequenininho, “pouco maior que uma casa”, onde havia uma flor e três vulcões, um dos quais era extinto, que lhe servia de tamborete. 


O tamanho do planeta do pequeno príncipe era inversamente proporcional ao tamanho da sua alma, regada pela contemplação da “doçura do pôr-do-sol”, que, por viver num planeta tão pequeno, “bastava apenas recuar um pouco a cadeira” para ver quantos poentes quisesse.  


Seu planeta era um asteroide, situado num cinturão onde outros asteroides também eram habitados por uma só pessoa, só que grande, que o pequeno príncipe saiu para visitar. 


Os moradores desses pequenos planetas compõem uma fileira de tipos interessantes: um rei sem súdito; um vaidoso sem aplausos; um bêbado que bebia para esquecer que tinha vergonha de beber; um homem de negócios muito ocupado contando as estrelas; um acendedor de lampiões e seu lampião.


No sexto planeta, ele encontrou um velho escritor de livros enormes, que se dizia geógrafo, que o aconselhou a visitar o planeta Terra, o sétimo de sua cosmoperegrinação. E é aí que os mundos, o do aviador terreno e o do pequeno ser alienígena, se esbarram, se encontram.


Na Terra, antes do encontro com o narrador, o pequeno príncipe se vê diante de uma incógnita. Se antes deparava-se com solitários habitantes de seus respectivos planetas, porque pequenos, agora, num planeta imenso como a Terra, não via ninguém.


Ele havia pousado no deserto africano do Saara, não nos esqueçamos disso, que já configura uma metáfora de muita coisa, de solidão, por exemplo, de imensidão, de vazio da própria vida, uma fonte de perspectivas, mas também um contato direto com a natureza sem a intervenção humana, um deserto de afeto, para o qual o pequeno príncipe era um oásis que saciava a sede de amizade do aviador.  “Ele era para mim como uma fonte no deserto”.


Na Terra, o primeiro ser que o pequeno príncipe encontra é uma cobra, que lhe fala por enigmas, depois uma flor, que lhe fala da terra numa perspectiva que ainda não é o bastante para ele entender o novo planeta, depois uma montanha que lhe fala por ecos. E o pequeno príncipe começa a achar que os homens da terra não são bons de conversa. Depois encontra as rosas, e na sequência, a raposa. 


A importância da amizade


O pequeno príncipe era um explorador de paisagens, externas e internas. “Nunca renunciara a uma pergunta que tivesse feito”, repetindo a pergunta até obter resposta. Era dotado de curiosidade, como toda criança, mas também de sabedoria e, uma coisa que pouca criança tem, de paciência. “É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas”, diz ele à sua flor amiga.


Com a flor, ele aprendeu que é preciso regar a amizade como se rega uma flor, ambas ameaçadas pelo efêmero. Com a raposa, ele aprendeu que é preciso cativar a amizade, prendê-la no coração, e cuidar dela na atenção do afeto. “Se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol”, diz a raposa. 


Segundo a raposa, após cativar a amizade, cria-se um vínculo simbólico, em que tudo comunica a presença do amigo. “A gente só conhece bem as coisas que cativou”, analisa.


A raposa é a que mais se expressa por um certo tom poético. Por exemplo, o pequeno príncipe é loiro, e a raposa diz que o cabelo dele são cachos dourados como os pendões do trigo, e que por isso “amarei o barulho do vento no trigo ...”. E o pequeno príncipe entendeu que “o que é importante, a gente não vê ...”, que são os sentimentos e os valores que damos ao que está em nosso redor.


O que está em nosso redor precisa ser cativado e amado, precisa receber a dedicação da amizade, porque – e aí a raposa diz a frase mais famosa do livro de Saint-Exupéry – “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.


Aprendemos com o pequeno príncipe e suas histórias que o tempo que se gasta com alguém é que faz esse alguém importante. Saint-Exupéry tentava pôr utilidade na beleza para que as coisas que parecem efêmeras se sustentassem pela captura do simbólico nos sentimentos, porque a vida prática mesmo estava em frangalhos com a guerra.


“As estrelas são belas por causa de uma flor que não se vê...”, diz o pequeno príncipe. E isto foi uma das últimas coisas que ele disse, porque a cobra não é poética, é prática e objetiva, e prometeu ao miúdo alienígena enviá-lo para seu mundo distante com uma dose de seu veneno. 


Foi assim que ele foi embora, e não cabe aqui nenhuma perspectiva adulta, nenhuma fala que venha a manchar o carneiro dentro da caixa. O que permanece é a passagem do pequeno príncipe pela Terra e seu encontro com o aviador, a amizade dos dois, e a poesia serena de sua presença. 


Ele está presente no movimento da Terra, no barulho de passos sobre a areia e no silvo do vento, na relação do sol com a natureza, que jorra luz e calor e dá vida, embora os mecanismos internos desse milagre não sejam vistos, só sentidos.



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