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| Imagem de um jogo no Estádio do Maracanã, antes da Copa do Mundo de 1950, cuja final o Brasil perdeu para o Uruguai |
A Copa do Mundo, com 48 seleções e 104 jogos até a final, será realizada de 11 de junho a 19 de julho de 2026, em três países: Estados Unidos, com 78 jogos, México e Canadá, cada um com 13 jogos.
Você pode aproveitar a travessia dos 3.900 quilômetros entre o estádio mais distante do México e o estádio mais longe do Canadá para ler. Aliás, toda hora é hora de leitura. Então, você pode começar agora a lista de dez livros sobre futebol.
A leitura nos ajuda a entender melhor o valor da vida, segundo Proust. Logo, livros sobre futebol de diversas perspectivas podem nos ajudar a entender o valor do futebol na nossa vida.
Por isso mesmo, a lista é eclética, misturando ficção, ensaio sociológico e biografia. Boa leitura!
-1 A Falta: memórias de um goleiro - Xico Sá
Segundo romance do jornalista e ficcionista cearense, com passaporte pernambucano, traz o goleiro já quarentão Yuri Cantagalo narrando - minuto a minuto - seu dilema de estar debaixo da trave, esperando o fuzilamento do gol, enquanto sua angústia se redimensiona pelo drama da própria vida, como se ele, tal qual Atlas da mitologia grega, estivesse sob o peso do mundo.
Órfão que nunca viu o pai, viu a mulher, tal qual o pai, sair para comprar pão e não voltar nem depois do café da manhã.
“Não é uma falta que se preencha com álcool e canções tristes. Nem adianta cantar ‘Wild World’, a sua preferida do Cat Stevens, debaixo dessas traves. É um mundo bem mais bruto. Sua dependência corria e corre nas veias. Até a sua volta para o Brasil foi pensada por Ela, você não era mais decisivo nem para o futebol nem para si mesmo.”
Cearense do Crato, formado no Recife, torcedor do Santos, Xico Sá faz golaços no jornalismo político e na crônica esportiva, mas é na cultura que ele se garante como craque.
-2 Estrela Solitária – um brasileiro chamado Garrincha - Ruy Castro
Ruy Castro narra a extraordinária vida do craque de Pau Grande, Manoel Francisco dos Santos, o Garrincha, gênio da bola, o anjo das pernas tortas que ganhou a Copa de 62 pá nóis, o amor incondicional de Elza Soares. Despontou para o estrelato junto com Pelé, em 1958, quando fez o diabo no jogo contra a União Soviética, jogando até então como reserva.
“Nos dias seguintes à partida contra a URSS, a Europa já não sabia o que escrever a seu respeito. Um jornal de Estocolmo deu em manchete: ‘PARABÉNS, GOTEMBURGO. NA QUINTA-FEIRA VOCÊS VERÃO GARRINCHA OUTRA VEZ!’. Referia-se ao jogo seguinte do Brasil, agora pelas quartas-de-final, contra o País de Gales. E, quando diziam Garrincha, não queriam dizer o Brasil, mas Garrincha mesmo, o homem-show.”
Anos depois, Garrincha, arrebentado pelo álcool e pelo machismo, começava a fazer o diabo também em outra circunstância nada nobre, e foi com a vida de Elza Soares. Está tudo contado nesta obra-prima do Jornalismo Literário brasileiro.
-3 Febre de Bola - Nick Hornby
O autor de Alta Fidelidade emprega neste livro, Febre de Bola, toda sua paixão pelo futebol – mais especificamente, pelo seu time do coração, o Arsenal – e todo talento para escrever. É impressionante como as palavras rolam no gramado das páginas como uma bola que encontra uma espécie de Ronaldinho Gaúcho das Letras.
O livro é de 1992, quando o autor tinha 32 anos de idade. Hornby narra uma série de jogos e uma série de febres sentidas como torcedor desde os 11 anos, diante das vitórias e das derrotas de seu amor maior e de jogos de outros times, descrevendo e analisando o futebol inglês daquela época.
“Eu me apaixonei pelo futebol como mais tarde me apaixonaria pelas mulheres: de repente, inexplicavelmente, sem aviso, sem pensar no sofrimento e nos transtornos que aquilo ia me trazer.”
-4 Futebol ao Sol e à Sombra – Eduardo Galeano
Não nos esqueçamos que o autor deste livro é de um país campeão do mundo duas vezes. Não nos esqueçamos que a segunda vez que seu país ganhou a Copa do Mundo foi no Brasil, em cima da seleção brasileira. Mas acho que já esquecemos, depois da chapuletada dos 7X1, também aqui no Brasil.
Eduardo Galeano (1940-2015) é um mestre da memória sociológica, sendo autor de As Veias Abertas da América Latina, mas também é um mestre da memória pessoal. Demonstra isso neste livro memorável, em que mistura as duas coisas, passeando pelo seu tempo de infância, a jogar pelada com os amigos, e pela história política do país.
“No futebol, sublimação ritual da guerra, onze homens de calção acabam sendo a espada vingadora do bairro, da cidade ou da nação. Estes guerreiros sem armas nem couraças exorcizam os demônios da multidão e confirmam sua fé: em cada confronto entre duas equipes, entram em combate velhos ódios e amores herdados de pai para filho.”
-5 O Drible - Sérgio Rodrigues
O romance dramatiza um conflito geracional entre pai (ausente) e filho, moradores do Rio de Janeiro. O primeiro, que se chama Murilo Filho, “leão da Cônica Esportiva, o maior comedor da cidade”, é um jornalista esportivo apaixonado por futebol, flamenguista, que não saía do Maracanã. “A tribuna da imprensa do Maracanã, onde quase sempre sobravam cadeiras, era sua segunda casa.”
O filho também é Murilo, logo, Neto, que em vez de jornal escolheu o mercado editorial, é revisor, amante da música, sem contato com o pai por mais de duas décadas,
A história serpenteia entre livros, música, cinema e futebol, entre o passado e o presente, entre a história da arte e a história de um Rio de Janeiro iluminado por seu sol, suas ruas e sua cultura.
“Murilo Filho continuou a escrever três vezes por semana sua coluna no jornal, nome importante na equipe, praticamente uma vaca sagrada. O auge de seu sucesso tinha ficado para trás, mas que castigo mais chinfrim era aquele, amargurava-se Neto, se o auge do sucesso do futebol brasileiro sobre o qual ele escrevia também tinha ficado para trás e o do próprio JB ia no mesmo caminho?”
-6 O Medo do Goleiro Diante do Pênalti - Peter Handke
O ganhador do Nobel de Literatura de 2019 é apaixonado por futebol, talvez tanto quanto o é por cogumelos. Parece que estou viajando ao juntar os dois temas.
Então, vá ler O Medo do Goleiro Diante do Pênalti e estabeleça você mesmo os paralelos, além da metáfora entre o direito penal e a batida de penalidade que o goleiro, angustiado, tem de se jogar quase em vão para defender a bola.
O romance narra a história de Joseph Bloch, trabalhador da construção civil que já sentiu o sucesso como goleiro, mas que agora, ao perder o emprego, perde também a sanidade ao assassinar uma mulher. E aí, começa seu périplo delirante de atrocidades mentais.
A angústia do goleiro é uma metáfora, o futebol é uma metáfora, mas talvez a vida também seja apenas uma metáfora da existência vazia, no exato ponto onde se encontram o ser e o nada. A única coisa palpável é a loucura. O resto é literatura.
-7 O Negro no Futebol Brasileiro - Mário Filho
Clássico da historiografia do futebol, que você não deve deixar de ler sob o risco de ser taxado de o mais inculto dos incultos. Leia apenas, e aprenda sobre relações de classe e raça no Brasil, aplicadas ao esporte mais popular do país, na demonstração de como o futebol saiu da égide da elite branca e abraçou as classes populares e, portanto, os negros, e como isso resultou na consagração do futebol brasileiro, não sem antes passar pela perseguição racista.
Algo parecido aconteceu com a seleção da França também, mas sobre isso o livro de Mário Filho não conta, evidentemente. Mário Filho empresta seu nome à identidade oficial do Estádio do Maracanã, e era o irmão mais velho do dramaturgo Nelson Rodrigues.
O Negro no Futebol Brasileiro é tão importante que, lançado em 1947, até hoje é reeditado. A edição mais recente é de 2010.
-8 O Primeiro Homem – Albert Camus
Este romance é peculiar, e se encontra peculiarmente nesta lista por dois motivos. Primeiro, porque Albert Camus amava futebol, e foi goleiro na sua época de adolescente. Segundo, porque, embora não tenha dedicado um livro específico ao tema, em O Primeiro Homem, ficção autobiográfica inconclusa, seu alter ego fala do tempo em que jogava bola na escola, escondido da avó, porque só tinha um par de sapatos e era proibido usá-lo fora da caminhada de casa para a escola e vice-versa.
Na vida real, Camus jogava como goleiro para desgastar menos os sapatos. Na ficção, o drama se poetiza, o drama se potencializa, e é de chorar. Antes de jogar um trecho desse drama entre o amor pelo futebol e a pobreza, é bom lembrar que este romance foi o último texto de Camus, cujos originais foram encontrados, de forma inacabada, junto a seu corpo dentro do carro capotado.
“Os companheiros caçoavam dele por causa da maneira de vestir-se (...). De resto, esses breves vexames eram logo esquecidos na sala de aula, onde Jacques recuperava a vantagem, e no pátio de recreio, onde reinava absoluto no futebol. Mas esse reino era proibido. Pois o pátio era cimentado e as solas dos sapatos gastavam-se com tal rapidez que a avó proibiu Jacques de jogar futebol durante o recreio. Ela própria comprava para os netos sólidos e grossos sapatos abotinados, que esperava fossem imortais. Por via das dúvidas, para aumentar-lhes a longevidade, mandava cravar nas solas uns enormes pregos cônicos que ofereciam dupla vantagem: era preciso gastá-los antes de gastar a sola, e permitiam verificar as infrações à proibição de jogar futebol. As corridas sobre o chão cimentado de fato os gastavam rapidamente e davam-lhes um polimento cuja clareza denunciava o culpado. Toda tarde, ao voltar para casa, Jacques tinha então que ir até a cozinha, onde Cassandra fazia o seu ofício por cima das panelas pretas, e, de joelho dobrado, sola para cima, na posição do cavalo que vai ser ferrado, mostrava as solas dos sapatos. Claro que não podia resistir ao convite dos amigos e aos atrativos do seu jogo preferido, e todo o seu empenho limitava-se não ao exercício de uma virtude impossível, mas sim a disfarçar um erro. Passava, portanto, longos momentos na saída do colégio, e mais tarde do ginásio, esfregando as solas dos sapatos na terra molhada. O truque às vezes dava certo. Mas chegava uma hora em que os pregos ficavam tão escandalosamente gastos que a própria sola era atingida, ou até mesmo, última das catástrofes, como decorrência de um pontapé desajeitado no chão ou na grade que protegia as árvores, soltava-se da parte de cima e Jacques chegava em casa com o sapato amarrado com um pedaço de barbante para calar a boca da avó. Essas eram as noites do chicote.”
-9 Páginas Sem Glória – Sérgio Sant’Anna
O livro possui dois contos, que vêm primeiro, e por último uma novela, que traz o nome do título e que fala sobre Zé Augusto, o Conde, um ponta-esquerda descoberto no futebol de areia pelo Fluminense, preguiçoso pra dedéu, “só costumava correr na boa e jogava igual treinava, alternando altos e baixos, quase brincando”, mas dotado de um talento extraordinário. Está quase falando do Garrinha, que, aliás, é citado, mas sem a glória póstuma da Estrela Solitária.
A história do Zé Augusto vai contemplando sua oscilação de craque e FDP. E foi perdendo importância como jogador, virando folclore, mas mantendo seu talento sazonal, sua ‘craquecidade’ manqué. Já jogando no Bonsucesso, num jogo em que este estava perdendo por 1x0 para o América, acontece o que se segue:
“Até aquele momento, o Conde, jogando meio recuado, fazia bons lançamentos que seus companheiros não aproveitavam. De repente, ele pega uma bola na intermediária do América e, em vez de passá-la a alguém, avança, dribla um, dribla dois, penetra na área, o goleiro sai da meta e atira-se a seus pés, também é driblado, e eis o Zé diante do gol vazio. Em vez de só enfiar a bola para dentro, como é o costume, em respeito ao adversário, o Zé ultrapassa, com a pelota dominada, justinho a linha do gol. Depois pega a bola com as mãos, se dirige até o goleiro e a devolve com um gesto gentil, como se dissesse: ‘Toma, pode continuar com a cera’.”
E esta não é a história de desfecho dessa “crônica” esportiva forjada no texto maravilhoso de Sergio Sant’Anna.
-10 Veneno Remédio – o futebol e o Brasil – José Miguel Wisnik
Este ensaio que envolve análise semiótica e sociológica (“embora ele não seja do gênero sociológico”) da sociedade brasileira por meio do futebol oferece ao leitor, ao mesmo tempo, uma dimensão poética e uma dimensão sociopolítica e cultural de nossa realidade. É endereçado a qualquer um que goste de ler o Brasil, com a diferença de que a leitura aqui sofre a gravidade da pelota, como sofremos quase todos nós, de alma tupiniquim.
Para ficarmos ainda na órbita do goleiro, já citado em outras ocasiões no presente texto, Wisnik diz que se trata de um personagem “ligado ao paradigma do feminino, por seu vínculo inalienável com o espaço-tabu do gol, ‘órgão feminino’”.
O goleiro, diz o autor, “é sabidamente um ser de exceção, e, nos momentos cruciais, um solitário. Como os indivíduos sagrados e malditos, ele pode o que os outros não podem (tocar a bola com as mãos) e não pode o que os outros podem (atravessar todo o campo e consumar o desejo maior do jogo, o gol).” Ou seja, o goleiro guarda um mistério e uma angústia que nenhum outro atleta dentro de campo é capaz de sentir nem compreender.
E assim, ele vai alinhavando uma série de questões que traduzem nossa relação com o futebol por meio das metáforas, das analogias e das análises. Wisnik busca no poeta e cineasta italiano Pier Paolo em Pasolini duas definições de futebol, prosa e poesia: “Futebol em prosa significava, para ele, jogo coletivamente articulado, buscando o resultado por meio da sucessão linear e determinada de passes triangulados”; e futebol em poesia supõe “dribles e toques de efeito, ao mesmo tempo gratuitos e eficazes, capazes de criar espaços inesperados por caminhos não lineares.” Ou seja, a nossa escola.
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