A música nos ajuda a ver coisas novas em nós mesmos - Leituras do Giba

Criado em 2007, este blog é focado em literatura e humanidades e no acervo que as rodeia, com ênfase em jornalismo literário, literatura contemporânea, clássicos, cultura afrodescendente e decolonialidade pelo viés da crítica literária, da comunicação e da sociologia da cultura. Seja bem-vindo(a)!

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quinta-feira, 2 de abril de 2026

A música nos ajuda a ver coisas novas em nós mesmos

 


Conheço a história de uma moça de Goiânia, dona de muita atitude nos anos 1990, roqueira apaixonada, fã de clássicos como Led Zeppelin, The Who, e de contemporâneos seus como Belle & Sebastian e Nirvana, que, depois de três anos trabalhando no noroeste dos EUA, chorou ao ouvir Chitãozinho e Xororó.


Ela não tinha deixado de amar o rock, mas descobriu dentro dela uma emoção forjada nas modas sertanejas. Muito presente em Goiânia, o sertanejo entra pelos poros da gente e se agarra a nossa memória afetiva. Está nas rádios, nas novelas, nas propagandas, no celular da mãe ou do pai, nas redes sociais, no som desenfreado do vizinho, ou de quem se namora, talvez até num gosto negado.


Músicas são cronógrafos perfeitos, importantes marcadores existenciais. O adolescente que ouviu bastante música terá no mínimo um acervo de bunkern simbólicos que o ajudarão nas possíveis batalhas contra traumas.


A música de fato toca na essência da existência, nos ajuda a descer aos porões da alma, iluminando coisas que não conseguimos ver nos espaços sombrios de nós mesmos. Além disso, as frases musicais nos ajudam a descobrir o mundo.


Como disse o maestro e pianista argentino Daniel Barenboim, em A Música Desperta o Tempo, a música “é um instrumento muito mais valioso com o qual podemos aprender sobre nós mesmos, sobre a nossa sociedade, sobre a política”. 


A existência tem uma materialidade magnética que vai puxando e colando fenômenos que nos cercam em grande intensidade ou em pequenos grãos sensíveis dentro de nós. Esses fenômenos têm a curiosa capacidade de encolher ou aumentar no espaço poroso da memória, que se desenvolve em espiral, carregando ocultamente a essência da existência.


A essência é o presente contínuo do ser, segundo Heidegger, com outras palavras, obviamente. Mas, no caso do humano, enquanto a essência vai acompanhando o fluxo de transformações do ser, vai deixando registros que se cristalizam na memória (numa misteriosa conexão com o que parece esquecido dentro de nós) e que são acionados quando algo poderoso toca essa memória, como a música.


Muitas vezes, as músicas que ouvimos na infância ou na adolescência nos sequestram na vida adulta para nos mostrar o quanto de afeto elas imprimiram na essência da nossa existência. 


Não importa se essa infância fora cercada de outras vidas, de pântanos de violência ou bem-estar, outros ritmos e outras entonações, ou ocupada pela solidão, a música sempre arranja um jeito de salvar alguma coisa boa dentro dessa memória.


Na minha adolescência, em 1989, por exemplo, aqui em Goiânia, eu ia caminhando da Vila Moraes, onde eu morava, até meu trabalho, na Vila Nova, e no caminho, no Bairro Feliz, eu passava em frente a uma casa de onde escutava alguém tocando piano. 


Eu acabara de chegar de uma cidadezinha do Mato Grosso, chamada Porto Alegre do Norte, onde meu ecletismo musical já tinha começado, com o álbum duplo dos Beatles, Raul Seixas, mas também Roberta Miranda e todas as gerações da música sertaneja até então, que eu ouvia na casa de minha irmã. Mas também me conectava com músicas de trilhas sonoras de novelas, como INXS, trilhas sonoras de filmes, como blues, jazz, além do country etc, que eu ia assimilando.


Em Goiânia, indo para o trabalho, todas as manhãs, era quase sempre a mesma música que eu ouvia, uma música melodiosa e potente que vibrava dentro de mim. Não tinha erudição para entender aquilo, mas sentia de modo intenso. Acredito piamente que o sentir é mais poderoso que o pensar. 


Saí do emprego no ano seguinte, e três anos depois eu já havia perdido a memória da música que costumava ouvir no caminho para o trabalho. Um dia, me peguei sentindo uma melodia que eu não sabia o que era, como nas experiências que uma canção vem à nossa mente e gruda, e não paramos de cantarolar. 


A diferença é que não era uma canção. Não tinha letra. A música que me invadiu era misteriosa. Se eu fosse tentar assoviá-la, eu não conseguiria. Ela permanecia diáfana, como algo que fica entre a vigília e o sono. Até que, por volta de 1993, fui ver pela primeira vez o filme Sociedade dos poetas mortos, de 1989, no vídeo cassete da escola onde eu estudava.


O filme conta a história da relação afetiva e revolucionária entre John Keating (Robin Williams) – um carismático professor de literatura – e seus alunos, num colégio de ricos conservadores dos EUA. Keating encanta os estudantes com seu método subversivo de ensinar poesia.


Numa das cenas no meio do filme, eles celebram a liberdade ao som de um lindo coral. Naquele momento, me veio a memória da música que eu ouvia. Senti uma vontade muito grande de chorar. Quis me levantar e pular junto com os personagens do filme. Mas eu não estava só na sala, e a única coisa que fiz foi perguntar “que música é essa?”, e a professora respondeu “é a Nona Sinfonia, de Beethoven”. 


A partir daquele momento passei a amar Beethoven, e sempre que ouço a Nona Sinfonia, essa história me vem à cabeça automaticamente. Hoje sei que, provavelmente, a pessoa que tocava o refrão do coral no piano – naqueles dias em que eu ia para o trabalho – devia ser um adolescente aprimorando sua técnica, talvez até tivesse sido influenciado pelo filme.


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