A série Reacher, produzida pelo Prime Video, é um sucesso. A primeira temporada é disparadamente a melhor, mas as seguintes, duas e três até agora, também não são de se jogar fora. A quarta temporada está prevista para chegar em setembro, e estou ansioso para ver.
Eu me lembro do impacto que tive vendo Reacher pela primeira vez, em 2022, depois de relutar um pouco, pensando ser mais um amontoado de socos e tiros sem o substrato do drama e do riso, que é o que sustenta uma boa história de ação. Acabei apertando o play. Comecei a assistir, querendo ver algo bom, pelo menos no nível do primeiro filme com Tom Cruise.
Poucos minutos depois, já percebia que a objetividade do personagem, interpretado pelo grandalhão Alan Ritchson, construída dentro de uma disciplina militar, estava intacta, mas havia também algo novo, uma complexidade diferente, mais agressiva e, ao mesmo tempo, disfarçada num jeito desengonçado de andar e uma aparente timidez no olhar do personagem, que, quando encarado, faz surgirem as chispas de ódio e ferocidade que os vilões foram desgostando de conhecer ao longo da história.
Na primeira sequência, já sentimos a vibe de músculos e psicologia vibrando na frente de um pequeno canalha, um abusador que esculhambava a companheira na saída de uma lanchonete.
Ao perceber Reacher ali, parado, olhando para ele, o abusador quis dar uma de machão, mas não conseguiu sustentar a macheza diante da encarada do FDP gigante, e pediu desculpas, dizendo “isso não vai mais acontecer”.
Reacher é baseada na série de 29 romances Jack Reacher, do escritor britânico, radicado em Nova York, Lee Child. A obra acompanha a saga de seu herói homônimo, major reformado do Exército americano que passa a vida viajando pelo país.
Jack Reacher vive quase sem rumo, e quase livre, não é livre de todo porque está sempre se metendo em confusão. E é assim desde criança. Os problemas botam a mochila nas costas e vão atrás dele, com seus quase 2 metros de altura e quase cem quilos de puro músculo.
A primeira temporada é ambientada em Margrave, cidadezinha fictícia no Estado da Geórgia, Estados Unidos, onde a poderosa família Kliner instalou seu QG da bandidagem para gerir, longe das autoridades federais, o lucrativo negócio de falsificação de dinheiro.
Reacher meio que cai de paraquedas na pequena cidade (sem trocadilho com a segunda temporada). Na verdade, ele queria passar por lá para conhecer o local onde seu predileto bluesman, Blind Blake, fez o último show antes de morrer.
Mas, ao chegar e entrar na lanchonete de Margrave, na mesma hora, antes de dar a primeira garfada na torta de pêssego (a melhor da Geórgia), Reacher é preso, acusado de duplo assassinato.
E aí, começa o show. De forma conflituosa com o detetive Oscar Finlay (“você não é o meu papai! Horatio Finlay é o meu pai”), e quase amigável com a agente Roscoe Conklin (a bela e surpreendente Willa Fitzgerald), Jack Reacher colabora com a polícia na investigação dos assassinatos, que só vão aumentando.
Ao longo da série, além das porradas e tiros, as frases de Reacher e os flashbacks de sua infância de país em país acompanhando o pai, oficial do Exército americano, vão revelando seu caráter, como ele vê o mundo, como se move diante das injustiças.
“Gente ruim tem que pagar pelo que faz, e sem perdão”, diz Reacher, no episódio 5 (21 min.). Pouco antes, há o flashback da época de adolescência de Jack, quando ele se negou a pedir desculpas por ter estragado a cara de um garoto mau, filho do chefe do pai de Jack e seviciador de meninos menores que ele.
“Pede desculpas”, diz a mãe. E ele, calado. “Pede desculpas, Jack”, ordena a mãe, “pede desculpas, menino”. E ele então diz: “Eu sinto muito”. Um sorriso começa a se abrir no rosto da mãe do menino mau.
“Sinto muito que o lado esquerdo da cara dele não esteja como o direito”, diz o pré-adolescente Jack Reacher, então com 12 anos, e sai com um sorriso de canto de boca, orgulhoso do feito. O pai, e por consequência a família toda, foi transferido do paraíso japonês de Okinawa para as gélidas terras da Alemanha.
Quando Jack descobre que seu irmão Joe Reacher é uma das vítimas dos dois primeiros assassinatos em Margrave, ele fica puto dentro da putice que já sente do mundo. É quando promete vingança. Daí em diante, ele só vai dar porrada ...
... e tiros, formando um quarteto entre ele, Finlay, Roscoe e a amiga Frances Neagley, interpretada por Maria Sten, que está full time na segunda temporada, e fez tão bem seu papel que ganhou um spin-off como protagonista de uma nova série, que se chamará Neagley, prevista para estrear no final deste semestre no Prime Video, antes da quarta temporada de Reacher.
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A segunda e a terceira temporadas de Reacher mostram Jack Reacher fazendo o que sabe fazer, deduzindo brilhantemente, dando porrada e matando, enquanto continua vivendo como um vagabundo, quer dizer, como um andarilho, ou, sei lá.
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