Exercício de Tradução – Grito de Marimorena, de Virginia Brindis de Salas - Leituras do Giba

Criado em 2007, este blog é focado em literatura e humanidades e no acervo que as rodeia, com ênfase em jornalismo literário, literatura contemporânea, clássicos, cultura afrodescendente e decolonialidade pelo viés da crítica literária, da comunicação e da sociologia da cultura. Seja bem-vindo(a)!

Breaking

Home Top Ad

Responsive Ads Here

Post Top Ad

Responsive Ads Here

terça-feira, 31 de março de 2026

Exercício de Tradução – Grito de Marimorena, de Virginia Brindis de Salas

 

Virginia Brindis de Salas (1908-1958), poeta afro-uruguaia


Virginia Brindis de Salas é uma poeta afro-uruguaia que viveu basicamente na primeira metade do século XX. Nasceu em 1908 e morreu em 1958. Fez uma poesia marcada pelas questões raciais, e está entre os autores negros que mais expõem a marca da condição humana dos herdeiros da diáspora africana em todo o território das Américas.


A razão pela qual traduzi a trilogia poética Pregón de Marimorena, que está em seu livro homônimo, é justamente o diálogo que o sujeito poético de sua obra faz com qualquer outra obra de autor negro, não importando se este autor é do Uruguai ou do Canadá, do Caribe, do Brasil ou dos Estados Unidos.


Não importam a língua, a riqueza semântica e a diversidade cultural que as obras tragam, há sempre elementos dialogantes e dialógicos no interior de todas elas. No caso específico do poema de Virgínia, esse elemento é a sentimento de exploração no trabalho realizado por Marimorena. Por ela ser negra, essa sensação se amplia na consciência histórica do leitor do poema, sendo ele negro também, como se a exploração ecoasse um sofrimento chancelado pela discriminação, um escolacho que os subalternos sofrem desde sempre. 


Vou dar apenas um exemplo desse diálogo entre obras negras, utilizando o romance At the Full e Change of the Moon, de Dionne Brand, autora de origem trinitária (Trindade e Tobago) com cidadania canadense. Sua literatura explora o imaginário diaspórico, e este romance em particular narra a saga de uma família que começa com Marie Ursule, matriarca escravizada no século XIX, e vai até seus descendentes na virada do século XX para o XXI.


O eco de um sofrimento chancelado pela discriminação se vê em toda a obra, como mostra o personagem de Margaret Childs, a Sese, que contou em carta para a mãe a seguinte história: 


“uma garota caminhando por uma vala de esgoto a céu aberto parou para o carro passar em Annoto Bay, e naquele momento ela levou um lenço ao rosto para enxugar o suor, e eu vi sua tristeza, tão grande quanto a tristeza de uma mulher adulta. Não pude segurar o choro, enquanto passava. Não pude deixar de sentir que eu estava deixando alguma coisa frágil na beira da estrada, e que eu deveria voltar para salvá-la ou para matá-la” (tradução minha).


Essa sensação do personagem de At the Full e Change of the Moon é a mesma sentida pelo sujeito poético de Pregón e Marimoerna, quando diz: “Pega meu verso/ Marimorena/ sei que o beberás/ como bebida alcoólica,/ em troca/ quero tua angústia/ Marimorena.” Marimorena é uma jornaleira das ruas de Montividéu, que vende os jornais gritando. A menina que Sese viu estava numa cidade do litoral da Jamaica.


As duas personagens viviam em tempos diferentes, em línguas diferentes, em idades diferentes e contextos e espaços diferentes, mas a dor e o sofrimento têm origens que se intersecionam com o racismo e a história, embora estas palavras não sejam mencionadas. “Quero tua angústia”, continua o poema de Virgínia, “quero tua pena/ toda tua pena/ e o talho de tua boca/ quando ris/ feito uma louca/ Marimorena,/ toda bêbada/ mais que de vinho,/ de miséria.”


Nos dois casos, há desfechos diferentes também. No primeiro, a narradora quer salvar, mas entende que não pode. Isso diz muito de nossa condição humana de negros da diáspora, de como somos abandonados por todos, inclusive pelos nossos, porque os nossos somos nós mesmos, e também estamos fraturados. No segundo, há uma coragem e uma disponibilidade que também encontramos em nós mesmos, quando estamos minimamente inteiros. 


Obviamente, esta é uma leitura de dentro. A rigor, diante do humano, qualquer um, pelos seus, quer fazer alguma coisa, e faz, quando pode. O caso aqui, no entanto, é sobre os afrodescendentes. Segue a trilogia. A tradução é minha, e é amadora, feita num exercício de tradução. Virginia publicou só dois livros em vida. Além de Pregón de Marimorena, saiu também, Cien Carceles de Amor. Boa leitura!


...


O GRITO DE MARIMORENA

Virginia Brindis de Salas

Tradução de Gilberto G. Pereira



GRITO NÚMERO UM


Pega meu verso

Marimorena

sei que o beberás

como bebida alcoólica,

em troca

quero tua angústia

Marimorena.



Quero tua angústia,

quero tua pena

toda tua pena

e o talho de tua boca

quando ris

feito uma louca

Marimorena,

toda bêbada

mais que de vinho,

de miséria.



Tua voz

que nunca ninou

teus filhos

nem teus netos

e é voz de pária

nina cuidadosamente

toda a imprensa diária.


Não há quem te faça calar

dois vinténs por um jornal

ninguém deixa de comprar

para melhorar teu astral.


Deixa ver tua cara

Marimorena,

que a atenção escancara

causando tristeza e pena


Quanto te devem

Marimorena,

esses que escrevem

e que tu pagas

com teus vinténs

com teus gritos,

pela manhã

e pela tarde

mil vezes;

em troca tu

pagas com juros;

o jornalismo deles

a propaganda politiqueira deles

todas as sujeiras deles, o egoísmo deles,

As falsas torpes carreiras deles.


Marimorena

vende jornal todos os dias;

tenha pena

Marimorena

e é sua melancolia.



GRITO NÚMERO DOIS


Às seis da manhã

pelas ruas da cidade

uma voz gira no ar;

grito de Marimorena.


Que notícias, que notícias

do mundo traz a imprensa? 


Às cinco da tarde;

grito de Marimorena

sonoro como campainha

dos bairros populares;

grito de Marimorena!


Quem te deu, velha morena,

essa gritaria maravilhosa

que sai de teus pulmões

agitando noite e dia

do mundo as sensações?


Camelô de desejos

com jornais debaixo do braço;

dois vinténs e um gracejo

que esqueces rua abaixo.


A noite de suburbanos

em tua mente é renascida;

dançam corações insanos

para que outros sobrevivam.


O que sabem “jornalistas”

sobre vender jornal

políticos ou “doutores”

após o diploma e tal?



Tu, negra, ignara,

Marimorena,

dia a dia, cara a cara

as ruas plenas

com gritos envolventes:

na manhã nascente

e à tarde outra vez

ao longo de trinta dias

ou trinta e um do mês.


Não há sol que te afaste nunca,

nem chuva de que te esquive,

e se encharca tua nuca

ou tuas botas respinguem

segue adiante com teus gritos

como repórter em coletivas

e é um espetáculo teu anúncio

de todos os jornais juntos.


Quando um senhor da imprensa

passar ao teu lado e te ouvir

que não se possa escapar desta

e teus gritos desouvir:

para quando tu não puderes

anunciar o jornal que escreves

pois sem o pão tu já eras

e a ti nada mais serve.


Diz a ele que nas colunas

do jornal que eles bancam

podem pedir sem dúvida

que jornaleiros descansem.


Pão para o trabalhador

que trabalhou toda a vida

que dará duro até a morte

para ser enterrado em seguida;

e que não se esqueça de

que os pioneiros da indústria

— a indústria do jornal —

são todos os jornaleiros

que como a ti fazem igual.


Ouçam, políticos,

jornalistas,

que não olham, não erguem as vistas;

vejam como tem vivido

Marimorena,

senhores tão egoítas,

que nunca nada lhes tem pedido.


grito, teu grito camelô

de toda a imprensa diária,

Marimorena, morena

de olhar extravagante.

Tu fazes mais que as rotativas

e mais que os linotipos

que cantam nas gráficas.


O que fariam tantos trabalhadores

se você não vendesse os jornais?

O que fariam com a tiragem

sem teu grito solitário?

gerentes e empregados

e outros comodamente sentados?

... ... ...


Um jornal por dois vinténs,

Marimorena,

seu caminho do além.



GRITO NÚMERO TRÊS


Crítica.

Que crítica é

que crítica é

uma página de jornal;

críticas

que críticas são

que críticas são

também seis mais dez.


O chumbo afunda

e o tac, tac, tac

da máquina que escreve

deixa o texto pronto e feito;

depois a rotativa imprime

com a dobradora estendida

da bobina de papel,

ampliada e obstinada;

e rugem os motores

sem penas nem dores:


Iuhu hu hu,

Iuhu hu hu,

Iuhu hu hu,

Iuhu hu hu,

Iuhu hu hu,

Iuhu hu hu!

Iuhum


quantos homens

carregam e descarregam

suados

e sujos de tinta

entre vapores nocivos.


Ânimo

linotipos,

abaixo

as rotativas;

por ali, por outro lado,

rumo ao elevador

um homem carregado:

um peão,

um peão;

o carregador

é um operário

da expedição.


No corre-corre

pelo trem

para a estação

um peão, outro peão e outro peão

da expedição,

no corre-corre

para a estação.



É assim que os jornais vão para a campanha;

por uns vinténs

ai, quanta gente sofre.

Toda hora saem os trens,

para a campanha.

Às seis da manhã

ruge na rua um grito;

ah, grito,

que grito foi esse!


quando a gente vai trabalhar;

uma canção é o

que sempre se ouve lá embaixo

no caminho da jornada;

que é um atalho

para o afogamento


de seu sentimento

para o afogamento

do seu pensamento;

é um atalho

quando a gente vai trabalhar.


As roldanas

dão seu grito;

o tipo

de proletariado

deixa seu cochão duro

para soltar

seu grito diuturno.


Crítica.

Que crítica é,

uma página, um jornal

que o jornaleiro oferece

com seu grito colossal.


E Mari Marimorena

Que Mari com seu grito;

que antena!

E Mari Marimorena

Que Mari com sua canção,

tanto se aliena!


E Mari Marimorena

Que Mari predisposição

franca e plena!


E Mari Marimorena

Que Mari mistura sol,

e lua replena!

E Mari Marimorena;

Que Mari de triste voz

ai, que pena!

E Mari Marimorena

Que Mari que não roubou

ainda a cena!



.....//


PREGÓN DE MARIMORENA

Virginia Brindis de Salas



PREGÓN NÚMERO UNO


Toma mi verso

Marimorena

yo sé que lo has de beber

como una copa de alcohol, 

a cambio de él

quiero tu angustia 

Marimorena.



Quiero tu angustia, 

quiero tu pena, 

toda tu pena

y el tajo de tu boca

cuando ríes

como una loca

Marimorena,

toda ebria

más que de vino, 

de miseria.



Tu voz,

que nunca arrulló

a tus hijos

ni a tus nietos

y es voz de paria 

arrulla mimosamente

toda la prensa diaria.


Y no hay quien te haga calar

por dos vintenes un diário

no hay quien deje de comprar

para aliviar tu sudario.



Déjame ver tu cara

Marimorena,

que la atención acapara

causando lástima y pena.



Cuánto te deben

Marimorena,

esos que escriben

y que tú pagas 

con tus vintenes, 

con tus pregones, 

por la mañana

y por la tarde 

miles de veces; 

en cambio tú

pagas con creces; 


su periodismo,

su propaganda politiqueira

todas sus lacras, su egoísmo,

sus fementidas torpes carreras.



Marimorena

todos los días vende los diarios;

tiene una pena

Marimorena

y es su sudario.



PREGÓN NÚMERO DOS


A las seis de la mañana

por las calles de la ciudad

gira una voz por el aire;

pregón de Marimorena.



Qué noticias, qué noticias

del mundo trae la prensa?



A las cinco de la tarde;

pregón de Marimorena

como campana, sonora

de los barrios populares;

pregón de Marimorena!



¿Quién te dio morena vieja

esa hermosa gritería

que sale de tus pulmones

agitando noche y día

del mundo las sensaciones?



Pregonera de esperanzas

con los diarios bajo el brazo;

dos vintenes y una chanza

que tú olvidas calle abajo.



La noche de los subúrbios

en tu mente es rediviva;

danzan corazones turbios

para que otros vivan.



Qué saben los “redactores”

cómo se vende un diario,

políticos o “doctores”

después del abecedario?



Tú, negra, analfabeta,

Marimorena,

día a día, jeta a jeta

las calles llenas

con pregones sandungueros:

en la mañana primero

y por la tarde después

durante los treinta días

o treinta y uno del mes.



No hay sol que te arredre nunca,

ni lluvia que te aglutine,

y si se empapa tu nuca

o chapotean tus botines,

vas adelante y pregonando

como heraldo en los mítines

y es un concierto tu anuncio

de todos los diarios juntos.



Cuando un señor de la prensa

pase a tu lado y te oiga

que no se escape de ésta

y tus pregones desoiga:

para cuando tú no puedas

gritar el diario que escribe

pues sin el pan te quedas

y a ti nadie se suscribe.



Dile que en las columnas

del dario que ellos fabrican

pueden reclamar sin duda

jubilación para el canillita.



Pues pan para el que trabaja

y que trabajó en su vida

y que bregue por la caja

en la cámara en seguida;

y que siempre lo recuerde

que pioneros de la indústria

— la industria del periodismo —

son todos los pregoneros

que como tú hacen lo mismo.



Oigan políticos,

periodistas,

que aquí hacen gordas sus vistas;

pues miren cómo ha vivido

Marimorena,

señores tan egoístas,

que nada nunca les ha pedido.



Pregón, tu pregón pregonera

de toda la prensa diaria,

Marimorena, morena

de mirada estrafalaria.

Tú haces más que las rotativas

y más que las linotipos

que cantan en los talleres.



¿Qué harían tantos obreiros

si su labor no vendieras?

¿Qué harían con el tiraje

sin tu pregón solidario?

Administradores y empleados

y otros cómodos sentados?


... ... ...


Por dos vintenes un diario,

Marimorena,

camino de su sudario.



PREGÓN NÚMERO TRES


Díscola.

Qué díscola es,

qué díscola es

una página de diario;

díscolas

qué díscolas son

qué díscolas son

también dieciséis.



El plomo se mecha

y el tac, tac, tac!

de la máquina que escribe

da la línea pronto y hecha;

después la rotativa imprime

con el velamen tendido

del papel abobinado,

extendido y obstinado;

y rugen los motores

sin penas ni dolores:



Yuhu hu hú,

yuhu hu hú,

yuhu hu hú,

yuhu hu hú,

yuhu hu hú,

yuhu hu hú!

Yuhum



Cuántos hombres

que cargan y descargan

sudados

y sucios de tinta

entre perniciosos vahos.



Arriba

las linotipos,

abajo

las rotativas;

por allá, por otro lado,

hacia el ascensor

un hombre cargado:

un peón,

un peón;

el carguero

es un obrero

de la expedición.



Corre que corre

por el tren

a la estación

un peón, otro peón y otro peón

de la expedición,

corre que corre

a la estación.



Es que así marchan los diarios a la campaña;

por unos vintenes

ay cuánta gente se daña.

A toda hora salen los trenes,

para campaña.


A las seis de la mañana

ruge en la calle un pregón;

¡ah, pregón,

qué pregón!



Cuando la gente va al trabajo;

es una canción

que siempre oye el de abajo

camino de su jornada;

y es un atajo

para el hundimiento

de su sentimento

para el hundimiento

de su pensamiento;

es un atajo

cuando la gente marcha al trabajo.



Las poleas

dicen su pregón;

la ralea

del proletariado

deja su jergón

para cantar

su cuotidiano pregón.



Díscola.

Qué díscola es,

una página, de diario

que el canillita ofrece

con su pregón extraordinario.



Y Mari Marimorena

qué Mari con su pregón;

¡qué antena!

Y Mari Marimorena

qué Mari con su canción,

¡tan ajena!

Y Mari Marimorena

Que Mari predisposición;

¡franca y plena!



Y Mari Marimorena;

qué Mari mezcla de sol,

¡y luna llena!

Y Mari Marimorena;

qué Mari de triste voz

ay qué pena!

Y Mari Marimorena

qué Mari que no logró

aún su cena!

...

Nenhum comentário:

Post Bottom Ad

Responsive Ads Here

Pages