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| Virginia Brindis de Salas (1908-1958), poeta afro-uruguaia |
Virginia Brindis de Salas é uma poeta afro-uruguaia que viveu basicamente na primeira metade do século XX. Nasceu em 1908 e morreu em 1958. Fez uma poesia marcada pelas questões raciais, e está entre os autores negros que mais expõem a marca da condição humana dos herdeiros da diáspora africana em todo o território das Américas.
A razão pela qual traduzi a trilogia poética Pregón de Marimorena, que está em seu livro homônimo, é justamente o diálogo que o sujeito poético de sua obra faz com qualquer outra obra de autor negro, não importando se este autor é do Uruguai ou do Canadá, do Caribe, do Brasil ou dos Estados Unidos.
Não importam a língua, a riqueza semântica e a diversidade cultural que as obras tragam, há sempre elementos dialogantes e dialógicos no interior de todas elas. No caso específico do poema de Virgínia, esse elemento é a sentimento de exploração no trabalho realizado por Marimorena. Por ela ser negra, essa sensação se amplia na consciência histórica do leitor do poema, sendo ele negro também, como se a exploração ecoasse um sofrimento chancelado pela discriminação, um escolacho que os subalternos sofrem desde sempre.
Vou dar apenas um exemplo desse diálogo entre obras negras, utilizando o romance At the Full e Change of the Moon, de Dionne Brand, autora de origem trinitária (Trindade e Tobago) com cidadania canadense. Sua literatura explora o imaginário diaspórico, e este romance em particular narra a saga de uma família que começa com Marie Ursule, matriarca escravizada no século XIX, e vai até seus descendentes na virada do século XX para o XXI.
O eco de um sofrimento chancelado pela discriminação se vê em toda a obra, como mostra o personagem de Margaret Childs, a Sese, que contou em carta para a mãe a seguinte história:
“uma garota caminhando por uma vala de esgoto a céu aberto parou para o carro passar em Annoto Bay, e naquele momento ela levou um lenço ao rosto para enxugar o suor, e eu vi sua tristeza, tão grande quanto a tristeza de uma mulher adulta. Não pude segurar o choro, enquanto passava. Não pude deixar de sentir que eu estava deixando alguma coisa frágil na beira da estrada, e que eu deveria voltar para salvá-la ou para matá-la” (tradução minha).
Essa sensação do personagem de At the Full e Change of the Moon é a mesma sentida pelo sujeito poético de Pregón e Marimoerna, quando diz: “Pega meu verso/ Marimorena/ sei que o beberás/ como bebida alcoólica,/ em troca/ quero tua angústia/ Marimorena.” Marimorena é uma jornaleira das ruas de Montividéu, que vende os jornais gritando. A menina que Sese viu estava numa cidade do litoral da Jamaica.
As duas personagens viviam em tempos diferentes, em línguas diferentes, em idades diferentes e contextos e espaços diferentes, mas a dor e o sofrimento têm origens que se intersecionam com o racismo e a história, embora estas palavras não sejam mencionadas. “Quero tua angústia”, continua o poema de Virgínia, “quero tua pena/ toda tua pena/ e o talho de tua boca/ quando ris/ feito uma louca/ Marimorena,/ toda bêbada/ mais que de vinho,/ de miséria.”
Nos dois casos, há desfechos diferentes também. No primeiro, a narradora quer salvar, mas entende que não pode. Isso diz muito de nossa condição humana de negros da diáspora, de como somos abandonados por todos, inclusive pelos nossos, porque os nossos somos nós mesmos, e também estamos fraturados. No segundo, há uma coragem e uma disponibilidade que também encontramos em nós mesmos, quando estamos minimamente inteiros.
Obviamente, esta é uma leitura de dentro. A rigor, diante do humano, qualquer um, pelos seus, quer fazer alguma coisa, e faz, quando pode. O caso aqui, no entanto, é sobre os afrodescendentes. Segue a trilogia. A tradução é minha, e é amadora, feita num exercício de tradução. Virginia publicou só dois livros em vida. Além de Pregón de Marimorena, saiu também, Cien Carceles de Amor. Boa leitura!
...
O GRITO DE MARIMORENA
Virginia Brindis de Salas
Tradução de Gilberto G. Pereira
GRITO NÚMERO UM
Pega meu verso
Marimorena
sei que o beberás
como bebida alcoólica,
em troca
quero tua angústia
Marimorena.
Quero tua angústia,
quero tua pena
toda tua pena
e o talho de tua boca
quando ris
feito uma louca
Marimorena,
toda bêbada
mais que de vinho,
de miséria.
Tua voz
que nunca ninou
teus filhos
nem teus netos
e é voz de pária
nina cuidadosamente
toda a imprensa diária.
Não há quem te faça calar
dois vinténs por um jornal
ninguém deixa de comprar
para melhorar teu astral.
Deixa ver tua cara
Marimorena,
que a atenção escancara
causando tristeza e pena
Quanto te devem
Marimorena,
esses que escrevem
e que tu pagas
com teus vinténs
com teus gritos,
pela manhã
e pela tarde
mil vezes;
em troca tu
pagas com juros;
o jornalismo deles
a propaganda politiqueira deles
todas as sujeiras deles, o egoísmo deles,
As falsas torpes carreiras deles.
Marimorena
vende jornal todos os dias;
tenha pena
Marimorena
e é sua melancolia.
GRITO NÚMERO DOIS
Às seis da manhã
pelas ruas da cidade
uma voz gira no ar;
grito de Marimorena.
Que notícias, que notícias
do mundo traz a imprensa?
Às cinco da tarde;
grito de Marimorena
sonoro como campainha
dos bairros populares;
grito de Marimorena!
Quem te deu, velha morena,
essa gritaria maravilhosa
que sai de teus pulmões
agitando noite e dia
do mundo as sensações?
Camelô de desejos
com jornais debaixo do braço;
dois vinténs e um gracejo
que esqueces rua abaixo.
A noite de suburbanos
em tua mente é renascida;
dançam corações insanos
para que outros sobrevivam.
O que sabem “jornalistas”
sobre vender jornal
políticos ou “doutores”
após o diploma e tal?
Tu, negra, ignara,
Marimorena,
dia a dia, cara a cara
as ruas plenas
com gritos envolventes:
na manhã nascente
e à tarde outra vez
ao longo de trinta dias
ou trinta e um do mês.
Não há sol que te afaste nunca,
nem chuva de que te esquive,
e se encharca tua nuca
ou tuas botas respinguem
segue adiante com teus gritos
como repórter em coletivas
e é um espetáculo teu anúncio
de todos os jornais juntos.
Quando um senhor da imprensa
passar ao teu lado e te ouvir
que não se possa escapar desta
e teus gritos desouvir:
para quando tu não puderes
anunciar o jornal que escreves
pois sem o pão tu já eras
e a ti nada mais serve.
Diz a ele que nas colunas
do jornal que eles bancam
podem pedir sem dúvida
que jornaleiros descansem.
Pão para o trabalhador
que trabalhou toda a vida
que dará duro até a morte
para ser enterrado em seguida;
e que não se esqueça de
que os pioneiros da indústria
— a indústria do jornal —
são todos os jornaleiros
que como a ti fazem igual.
Ouçam, políticos,
jornalistas,
que não olham, não erguem as vistas;
vejam como tem vivido
Marimorena,
senhores tão egoítas,
que nunca nada lhes tem pedido.
grito, teu grito camelô
de toda a imprensa diária,
Marimorena, morena
de olhar extravagante.
Tu fazes mais que as rotativas
e mais que os linotipos
que cantam nas gráficas.
O que fariam tantos trabalhadores
se você não vendesse os jornais?
O que fariam com a tiragem
sem teu grito solitário?
gerentes e empregados
e outros comodamente sentados?
... ... ...
Um jornal por dois vinténs,
Marimorena,
seu caminho do além.
GRITO NÚMERO TRÊS
Crítica.
Que crítica é
que crítica é
uma página de jornal;
críticas
que críticas são
que críticas são
também seis mais dez.
O chumbo afunda
e o tac, tac, tac
da máquina que escreve
deixa o texto pronto e feito;
depois a rotativa imprime
com a dobradora estendida
da bobina de papel,
ampliada e obstinada;
e rugem os motores
sem penas nem dores:
Iuhu hu hu,
Iuhu hu hu,
Iuhu hu hu,
Iuhu hu hu,
Iuhu hu hu,
Iuhu hu hu!
Iuhum
quantos homens
carregam e descarregam
suados
e sujos de tinta
entre vapores nocivos.
Ânimo
linotipos,
abaixo
as rotativas;
por ali, por outro lado,
rumo ao elevador
um homem carregado:
um peão,
um peão;
o carregador
é um operário
da expedição.
No corre-corre
pelo trem
para a estação
um peão, outro peão e outro peão
da expedição,
no corre-corre
para a estação.
É assim que os jornais vão para a campanha;
por uns vinténs
ai, quanta gente sofre.
Toda hora saem os trens,
para a campanha.
Às seis da manhã
ruge na rua um grito;
ah, grito,
que grito foi esse!
quando a gente vai trabalhar;
uma canção é o
que sempre se ouve lá embaixo
no caminho da jornada;
que é um atalho
para o afogamento
de seu sentimento
para o afogamento
do seu pensamento;
é um atalho
quando a gente vai trabalhar.
As roldanas
dão seu grito;
o tipo
de proletariado
deixa seu cochão duro
para soltar
seu grito diuturno.
Crítica.
Que crítica é,
uma página, um jornal
que o jornaleiro oferece
com seu grito colossal.
E Mari Marimorena
Que Mari com seu grito;
que antena!
E Mari Marimorena
Que Mari com sua canção,
tanto se aliena!
E Mari Marimorena
Que Mari predisposição
franca e plena!
E Mari Marimorena
Que Mari mistura sol,
e lua replena!
E Mari Marimorena;
Que Mari de triste voz
ai, que pena!
E Mari Marimorena
Que Mari que não roubou
ainda a cena!
.....//
PREGÓN DE MARIMORENA
Virginia Brindis de Salas
PREGÓN NÚMERO UNO
Toma mi verso
Marimorena
yo sé que lo has de beber
como una copa de alcohol,
a cambio de él
quiero tu angustia
Marimorena.
Quiero tu angustia,
quiero tu pena,
toda tu pena
y el tajo de tu boca
cuando ríes
como una loca
Marimorena,
toda ebria
más que de vino,
de miseria.
Tu voz,
que nunca arrulló
a tus hijos
ni a tus nietos
y es voz de paria
arrulla mimosamente
toda la prensa diaria.
Y no hay quien te haga calar
por dos vintenes un diário
no hay quien deje de comprar
para aliviar tu sudario.
Déjame ver tu cara
Marimorena,
que la atención acapara
causando lástima y pena.
Cuánto te deben
Marimorena,
esos que escriben
y que tú pagas
con tus vintenes,
con tus pregones,
por la mañana
y por la tarde
miles de veces;
en cambio tú
pagas con creces;
su periodismo,
su propaganda politiqueira
todas sus lacras, su egoísmo,
sus fementidas torpes carreras.
Marimorena
todos los días vende los diarios;
tiene una pena
Marimorena
y es su sudario.
PREGÓN NÚMERO DOS
A las seis de la mañana
por las calles de la ciudad
gira una voz por el aire;
pregón de Marimorena.
Qué noticias, qué noticias
del mundo trae la prensa?
A las cinco de la tarde;
pregón de Marimorena
como campana, sonora
de los barrios populares;
pregón de Marimorena!
¿Quién te dio morena vieja
esa hermosa gritería
que sale de tus pulmones
agitando noche y día
del mundo las sensaciones?
Pregonera de esperanzas
con los diarios bajo el brazo;
dos vintenes y una chanza
que tú olvidas calle abajo.
La noche de los subúrbios
en tu mente es rediviva;
danzan corazones turbios
para que otros vivan.
Qué saben los “redactores”
cómo se vende un diario,
políticos o “doctores”
después del abecedario?
Tú, negra, analfabeta,
Marimorena,
día a día, jeta a jeta
las calles llenas
con pregones sandungueros:
en la mañana primero
y por la tarde después
durante los treinta días
o treinta y uno del mes.
No hay sol que te arredre nunca,
ni lluvia que te aglutine,
y si se empapa tu nuca
o chapotean tus botines,
vas adelante y pregonando
como heraldo en los mítines
y es un concierto tu anuncio
de todos los diarios juntos.
Cuando un señor de la prensa
pase a tu lado y te oiga
que no se escape de ésta
y tus pregones desoiga:
para cuando tú no puedas
gritar el diario que escribe
pues sin el pan te quedas
y a ti nadie se suscribe.
Dile que en las columnas
del dario que ellos fabrican
pueden reclamar sin duda
jubilación para el canillita.
Pues pan para el que trabaja
y que trabajó en su vida
y que bregue por la caja
en la cámara en seguida;
y que siempre lo recuerde
que pioneros de la indústria
— la industria del periodismo —
son todos los pregoneros
que como tú hacen lo mismo.
Oigan políticos,
periodistas,
que aquí hacen gordas sus vistas;
pues miren cómo ha vivido
Marimorena,
señores tan egoístas,
que nada nunca les ha pedido.
Pregón, tu pregón pregonera
de toda la prensa diaria,
Marimorena, morena
de mirada estrafalaria.
Tú haces más que las rotativas
y más que las linotipos
que cantan en los talleres.
¿Qué harían tantos obreiros
si su labor no vendieras?
¿Qué harían con el tiraje
sin tu pregón solidario?
Administradores y empleados
y otros cómodos sentados?
... ... ...
Por dos vintenes un diario,
Marimorena,
camino de su sudario.
PREGÓN NÚMERO TRES
Díscola.
Qué díscola es,
qué díscola es
una página de diario;
díscolas
qué díscolas son
qué díscolas son
también dieciséis.
El plomo se mecha
y el tac, tac, tac!
de la máquina que escribe
da la línea pronto y hecha;
después la rotativa imprime
con el velamen tendido
del papel abobinado,
extendido y obstinado;
y rugen los motores
sin penas ni dolores:
Yuhu hu hú,
yuhu hu hú,
yuhu hu hú,
yuhu hu hú,
yuhu hu hú,
yuhu hu hú!
Yuhum
Cuántos hombres
que cargan y descargan
sudados
y sucios de tinta
entre perniciosos vahos.
Arriba
las linotipos,
abajo
las rotativas;
por allá, por otro lado,
hacia el ascensor
un hombre cargado:
un peón,
un peón;
el carguero
es un obrero
de la expedición.
Corre que corre
por el tren
a la estación
un peón, otro peón y otro peón
de la expedición,
corre que corre
a la estación.
Es que así marchan los diarios a la campaña;
por unos vintenes
ay cuánta gente se daña.
A toda hora salen los trenes,
para campaña.
A las seis de la mañana
ruge en la calle un pregón;
¡ah, pregón,
qué pregón!
Cuando la gente va al trabajo;
es una canción
que siempre oye el de abajo
camino de su jornada;
y es un atajo
para el hundimiento
de su sentimento
para el hundimiento
de su pensamiento;
es un atajo
cuando la gente marcha al trabajo.
Las poleas
dicen su pregón;
la ralea
del proletariado
deja su jergón
para cantar
su cuotidiano pregón.
Díscola.
Qué díscola es,
una página, de diario
que el canillita ofrece
con su pregón extraordinario.
Y Mari Marimorena
qué Mari con su pregón;
¡qué antena!
Y Mari Marimorena
qué Mari con su canción,
¡tan ajena!
Y Mari Marimorena
Que Mari predisposición;
¡franca y plena!
Y Mari Marimorena;
qué Mari mezcla de sol,
¡y luna llena!
Y Mari Marimorena;
qué Mari de triste voz
ay qué pena!
Y Mari Marimorena
qué Mari que no logró
aún su cena!
...


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