Relato de Um Náufrago – a obra-prima de García Márquez no Jornalismo Literário - Leituras do Giba

Criado em 2007, este blog é focado em literatura e humanidades e no acervo que as rodeia, com ênfase em jornalismo literário, literatura contemporânea, clássicos, cultura afrodescendente e decolonialidade pelo viés da crítica literária, da comunicação e da sociologia da cultura. Seja bem-vindo(a)!

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quarta-feira, 22 de abril de 2026

Relato de Um Náufrago – a obra-prima de García Márquez no Jornalismo Literário



O Jornalismo Literário é um gênero híbrido de escrita criativa e informação, feito numa linguagem que conserva a essência do jornalismo e acrescenta as técnicas de narração da literatura, potencializando assim a capacidade de informar a sociedade sobre qualquer coisa no âmbito dos acontecimentos e dos fenômenos socioculturais. 

Relato de Um Náufrago, de Gabriel García Márquez, é um exemplo clássico disso. O livro conta uma história que se passou com o jovem marinheiro colombiano Luís Alexandre Velasco, de 20 anos. 


Em 26 de fevereiro de 1955, o navio da Marinha de guerra colombiana, chamado Destróier Caldas, viajou de Mobile, cidade americana banhada pelas águas do Golfo do México – onde “fazia reparos eletrônicos e em seus armamentos” – até Cartagena, na Colômbia, chegando ao destino final sem oito pessoas de sua tripulação, que caíram no Mar do Caribe num lance de ventania e desfortúnio.


Todos foram considerados mortos, até que, uma semana depois da constatação, um sobrevivente chegou à costa colombiana, numa praia deserta, “depois de permanecer dez dias, sem comer nem beber, numa balsa à deriva.” Era justamente Luís Velasco.


O sobrevivente teve a sorte de dar uma série de 20 entrevistas de seis horas cada uma para García Márquez (que procurou recuperar minuto a minuto a aventura do náufrago), e assim colocou seu nome na posteridade. Só por isso, hoje sabemos quem é, ou quem foi ele.


Dividida em 14 episódios ao longo de duas semanas, a história foi publicada com narrativa em primeira pessoa no jornal El Espectador, de Bogotá, um mês após o primeiro encontro dos dois. Quinze anos depois, a série de reportagens viraria um livro.


García Márquez foi um mestre do Jornalismo Literário, e, neste gênero, Relato de Um Náufrago é sua obra-prima. Ele arrancou da memória recente do jovem marinheiro o trauma de um acidente no mar, e construiu uma rica história que encerra drama, alucinação, lirismo e um desfecho cadente de uma quase-morte soprando a vida de volta.


Embora seja uma história linear, ela prima pelas qualidades intrínsecas a seu desenvolvimento, em que Luís Velasco começa descrevendo a preparação da volta, depois de vários meses nos EUA. 


Enquanto estavam lá, os marinheiros colombianos costumavam sair com as garotas locais para ir ao cinema ou tomar sorvete. Um dia, saíram só os homens para ver o filme O Motim do Caine (filme de 1954, dirigido por Eduardo Dmytryk e estrelado por Hmphrey Bogart), que fala da aventura a bordo de um navio caça-minas. 


Luís Velasco disse que o que mais impressionou os marinheiros no filme foi a tempestade, tanto que começaram a pensar sobre o que aconteceria se sofressem um evento daquela envergadura na volta para casa. 


Esse medo da tempestade em alto mar, depois de assistirem a um filme, é o mote perfeito para o que viria acontecer. No processo narrativo, Robert Mckee chama isso de incidente incitante, é o que propulsiona a narrativa. E assim começa o relato da tragédia que viria a seguir.


O incidente incitante é a forte impressão que os marinheiros tiveram ao ver o filme que narra uma tempestade no mar. O que ocorreu com eles mesmos, no entanto, não foi uma tempestade, foram ventos fortes que derrubaram as muambas que os marinheiros traziam dos Estados Unidos. 


Oito membros da tripulação estavam na proa da embarcação, onde ficavam também as mercadorias. Na hora do vento, foram catapultados junto com as muambas para fora do navio, incluindo o narrador.


Luís Velasco viu quatro de seus amigos desaparecerem nas ondas, como o cabo Miguel Ortega, que era fiel à esposa, não gastou nada com farras para comprar muitos presentes. “Doze horas depois, o cabo Miguel Ortega estaria tombado no seu beliche, morrendo de enjoo. Setenta e duas horas depois estaria morto no fundo do mar.”


A narrativa se desenvolve num ritmo de fragata num mar tranquilo, fluindo bem, com sacadas cênicas maravilhosas, como esta: “A silhueta da costa havia se apagado. Só o mar verde e o céu azul estendiam-se à nossa volta.”


Depois, tudo vira um pesadelo, com a descrição do momento em que as ondas engoliram o barco e os oitos foram lançados ao mar. A partir daí, Velasco só viu água:


“Tentei me agarrar à carga, mas ela já não estava ali. Não havia nada ao redor. Quando saí à tona não vi em volta nada diferente do mar. Um segundo depois, a uns cem metros de distância, o navio surgiu de dentro das ondas, jorrando água por todos os lados, como um submarino. Só então percebi que havia caído na água”, diz Velasco.


Apesar do medo da tempestade, não houve chuva. O céu estava límpido. “Salvo as fortes ondas produzidas pelo vento e a mercadoria dispersa na superfície, não havia nada naquele lugar que se parecesse com um naufrágio.” 


“Foi então que vi as balsas. Eram duas, emparelhadas, a uns sete metros de distância uma da outra. (…) Num segundo, uma das balsas desaparecera de minha vista. (…) Antes, porém, que tivesse tido tempo de tomar uma decisão, eu me vi nadando até a última balsa visível, cada vez mais distante. Nadei durante uns três minutos”, completa o narrador.


“Por um instante deixei de ver a balsa, mas procurei não perder a direção. Bruscamente, um golpe de onda a colocou a meu lado, branca, enorme, vazia. Agarrei-me com força ao estrado e tentei pular para dentro. Só consegui na terceira tentativa.”


Onda de sensações


O foco narrativo em primeira pessoa dá ao texto o sabor de verdade factual, numa perspectiva de quem esteve lá de fato e sofreu a ação do que narra. A escolha de García Márquez foi acertada, e é uma escolha que tem muito a ver com a natureza do Jornalismo Literário. 


Quem está narrando a história é de fato Luís Velasco, e é sua história sendo contada ali, mas o Velasco narrador é uma criação de García Márquez. Esta ambiguidade é a magia da literatura sendo aplicada no jornalismo.


À medida que a história vai se desenvolvendo, trabalhando a memória como um testemunho, vamos vendo as técnicas literárias aparecerem sem deixar as experiências de fato se perderem, caracterizando uma espécie de aventura dramática com rastro de tragédia dos que foram tragados pelo mar para sempre. 


Velasco agora está sozinho em mar aberto, numa balsa à deriva, olhando para seu relógio o tempo inteiro. A única coisa que o mantinha na bitola da sanidade era ver o tempo passar.


Até que começou a delirar. “Antes do amanhecer o céu escureceu. Não pude dormir mais porque me sentia esgotado, mesmo para dormir. Em meio às trevas, não via o outro extremo da balsa, mas continuava olhando para a escuridão, tentando penetrá-la.” 


Nesse cenário, Velasco vê um amigo de infância, Jaime Manjarrés. “Segui a direção de sua mão e vi as luzes do porto, as boias da baía dançando sobre a água. ‘Já chegamos’, disse, e continuei olhando intensamente as luzes do porto, sem emoção, sem alegria, como se estivesse chegando depois de uma viagem normal.”


Mas ao olhar para o amigo, ele já não estava lá. “As luzes do porto eram os primeiros raios de sol. Os primeiros raios do meu terceiro dia de solidão no mar.” E assim, vão-se construindo as cenas, ora ilustrando medo, ora ilustrando desespero, ora uma onda de sensações abraça seu espírito, e o que ele narra é pura beleza. 


O momento da descrição dos peixes acompanhando a balsa é um desses momentos em que vemos a natureza expondo sua grandeza, enquanto o homem, testemunha de uma beleza rara, expõe sua miséria. 


“Os peixes também eram diferentes. Desde muito cedo escoltavam a balsa. Nadavam na superfície. Via-os com nitidez: peixes azuis, pardos e vermelhos. De todas as cores, de todas as formas e tamanhos. Navegando junto a eles, a balsa parecia deslizar sobre um aquário.”


Lirismo e desespero


Em Relato de um Náufrago, o leitor vai se encantando pela história no embalo das palavras, na sequência da linguagem, no ritmo da calmaria, no ritmo da tormenta, no ritmo entre a angústia e o despertar, numa tonalidade lírica, mais poética que deságua num novo delírio, num novo desespero, dentro do qual a esperança vai remando sem saber se um dia haverá terra.


Um exemplo de angústia e despertar é o que se segue:


“Ao amanhecer, o vento se tornou gelado. Tinha febre. Meu corpo ardente estremeceu penetrado até os ossos pelo calafrio. O joelho direito começou a doer. O sal do mar tinha mantido seca a ferida, que, entretanto, continuava viva, como no primeiro dia. Tomava cuidado sempre para não a reabrir. Nessa noite, deitado de bruços, apoiara o joelho no fundo da balsa e a ferida latejara dolorosamente. Hoje tenho razões para pensar que a ferida me salvou a vida.”


Um exemplo de lirismo, em meio ao desespero: 


“Às 4h45 já se viam no horizonte os resplendores do sol. Antes tinha sentido medo da noite, agora o sol do novo dia me parecia um inimigo. Um gigantesco e implacável inimigo, que vinha me morder a pele ferida, para me enlouquecer de sede e de fome. Amaldiçoei o sol. Amaldiçoei o dia. Amaldiçoei minha sorte, que me tinha permitido suportar nove dias à deriva, em vez de me ter matado de fome ou estraçalhado pelos tubarões.”


Depois de dez dias à deriva, já sem esperança nenhuma de ser salvo, eis que Velasco avista a terra novamente, e, entre a confiança de chegar à praia e a desconfiança da própria mente lhe estar pregando uma peça, ele nada.


Nessa parte há drama, um drama de desfecho que mantém o leitor vivo na leitura, e que podemos ler no trecho abaixo:


“Não avançara cinco metros quando senti que a corrente com a medalha de N. Sra. do Carmo se partira. Parei. Consegui alcançá-la quando começava a afundar na água verde e revolta. Como não tinha tempo de guardá-la no bolso, apertei-a com força entre os dentes e continuei nadando.


Estava sem forças, mas ainda não via a terra. O terror voltou a tomar conta de mim: talvez, certamente, a terra era outra alucinação. A água fresca tinha me revigorado e eu estava outra vez de posse dos meus sentidos, nadando desesperadamente para a praia de uma alucinação. E tinha nadado muito. Era impossível voltar à balsa.”


Comendo um peixe verde forte


Nos “dias de solidão e desespero” de Luís Velasco, equilibrando-se na linha fina entre ficar vivo e desaparecer para sempre debaixo das águas do Mar do Caribe, tudo que ele tinha eram seus sentidos, que ora se aguçavam, ora se espelhavam e se misturavam, criando novas sensações, entre elas os delírios e as pulsões que alimentaram sua memória.


Os dados dessa memória, traduzidos em palavras, foram arrancados por García Márquez para transformar tudo em texto definitivo, um testemunho verbalizado na forja das técnicas literárias, mas ainda assim um testemunho válido sobre uma experiência ímpar. 


Ao longo da história, a primeira vez que comeu, depois de sete dias à deriva, comeu um peixe. Ele pescou um peixe, “um peixe brilhante e verde”, que “saltara para dentro da barca”, com o qual travou uma batalha para matá-lo, enquanto na água, tubarões esperavam por um único vacilo.  


O peixe era “de um verde forte, solidamente escamado”. Quando conseguiu matá-lo, Luís Velasco partiu para a estratégia de deglutição. Como comer aquilo? Já havia repelido uma gaivota que matara arrancando-lhe a cabeça e jogando para os tubarões que acompanhavam sua balsa. Quando tentou comer uma gaivota, seu estômago embrulhou de nojo e asco do sangue em meio às penas. Desistiu.


Agora, uma semana de estômago vazio, bebendo em doses homeopáticas a água do mar, tinha de dar certo. Tentou a primeira mordida, muita escama, a segunda, e nada. Na terceira tentativa, “consegui arrancar o primeiro bocado e comecei a mastigar a carne fria e dura. Mastigava com nojo.”


Assim ele sobreviveu, e no meio do caminho ainda sobrou delírio ou desconforto para reclamar da própria existência: “Encontrava-me mal porque não tinha podido morrer. Estava sem forças, mas completamente vivo. E aquela certeza produziu em mim uma sensação de desamparo.” 


A série de 14 reportagens publicadas no El Espectador trouxe uma dor de cabeça para Velasco e para o jornal de García Márquez, porque conflituava com a versão oficial da Marinha colombiana sobre o acidente da fragata. 


O governo dizia que houvera uma tempestade, e Velasco, a princípio confirmara a versão do governo, mas, nas entrevistas para García Márquez, afirmou que nem chuva choveu, apenas ventou forte e as muambas caíram arrastando as vítimas. 


Era proibido transportar mercadorias particulares a bordo dos navios do governo. Logo, a versão de Velasco confirmava um crime. O resultado disso tudo é que Velasco foi expulso da Marinha, e o jornal foi perseguido até fechar as portas. 


García Márquez acabou se exilando no México, onde deu início à fase vitoriosa de sua carreira literária, não sem antes passar pelos conhecidos perrengues de uma vida, que só não pode ser considerada miserável porque havia Mercedes, por supuesto, sua mulher.


Lembrado para sempre


Quando García Márquez publicou Relato de um Náufrago em 1970, cedeu os direitos autorais para Luís Velasco, e o livro vendeu que nem banana na feira, vendeu muito, e o náufrago conseguiu ganhar uma boa grana desses direitos, mas uma alma penada formada nas academias de direito convenceu-o de que o livro era dele, de que a história era exclusivamente dele, e a narrativa – tecida com aquele esmero, com aquela qualidade literária – era dele. 


E Velasco então entrou na justiça contra García Márquez, e perdeu. Perdeu porque o texto está forjado numa densidade literária que não é qualquer um que consegue fazê-lo, e o autor colombiano provou na justiça que um narrador é uma invenção que o autor põe no mundo para contar uma história, mesmo que a história em si não seja invenção, embora transpor um fato para uma narrativa seja sempre passível de criação, pois é necessário instalar pontes semânticas sustentadoras da verdade factual (antes de morrer, em 2000, Velasco se desculpou com García Márquez pelo processo).


No Jornalismo Literário, esse narrador é tão importante quanto na literatura, com a diferença de que, no Jornalismo Literário, o narrador sustenta uma verdade factual, não uma verdade fictícia, embora a história de Velasco tenha como testemunha apenas ele mesmo.


Ao vencer na justiça, García Márquez deixou de repassar os direitos autorais para Velasco, e publicou o livro numa nova edição acrescentando ao título um subtítulo, ficando assim: 


Relato de um Náufrago - que esteve dez dias à deriva numa balsa, sem comer nem beber, que foi proclamado herói da pátria, beijado pelas rainhas da beleza, enriquecido pela publicidade, e logo abandonado pelo governo e esquecido para sempre.



......//


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Relato de um

Náufrago

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