Jalâl al-Din Rumi, ou simplesmente Rumi, é um dos poetas mais importantes do mundo. Daqueles oriundos da Idade Média, é um dos que mais se projetam na modernidade. Nos Estados Unidos, seus poemas espirituais se tornaram febre. Todo cientista político que fala do Irã, muito em voga neste momento sob a sanha insana de morte de Donald Trump, fala de Rumi.
No Brasil, há traduções de sua obra como o livro Rumi – a dança da alma, traduzido e organizado por Rafael Arraes, no qual lemos versos como os que seguem abaixo, do poema O Grande Mistério, que parece um recado, atual e contundente, aos senhores da guerra:
Adentrando ao Grande Mistério que há,
nós não somos proprietários de nada.
O que é então este senso de competição que sentimos,
antes de partirmos, um por um, através do mesmo portal?
Se você abriu seu coração para o Amado,
você está ajudando pessoas que desconhece, e que nunca viu.
Isto que digo é verdade?
Diga “Sim”, rápido, acaso já saiba o que já sabia desde antes do início deste universo...
(Tradução de Rafael Arraes)
Gerado numa família falante da língua persa, Rumi nasceu em 1207, em Bactro, cidade situada no que hoje é o Afeganistão, pertencente ao Império Corásimo, cujo coração de seu território era o Irã. Ou seja, atualmente costuma-se chamar Rumi de poeta persa, ou iraniano. Morreu em 1273, em Konia, na Turquia, onde jaz sepultado no Museu Mevlana.
O poema abaixo, que traduzi, está no livro de de Franklin D. Lewis, Rumi - Past and Present, East and West: The Life, Teachings, and Poetry of Jalal Al-Din Rumi, em que traduziu os poemas de Rumi para o inglês. Minha tradução é um mero exercício de tradução. Boa leitura!
...
Como eu poderia saber
Rumi
Tradução de Gilberto G. Pereira
Como eu poderia saber que a melancolia
me deixaria louco,
faria de meu coração um inferno
e de meus olhos dois rios furiosos?
Como eu poderia saber que uma torrente
me suspenderia no meio do nada,
me lançaria como a um navio num mar de sangue,
que as ondas quebrariam todas as costelas desse navio
rasgariam-no com o eterno balançar e desmanchariam cada tábua,
que o Leviatã levantaria a cabeça,
engoliria toda a água do oceano,
que o oceano sem fim pudesse secar como um deserto,
que a serpente sedenta de mar pudesse rachar o deserto
e pudesse me enfiar de súbito, como Cora, furiosamente num buraco?
Quando estas transmutações surgiram
nem o deserto, nem o mar ficaram à vista.
Como eu saberia como tudo ocorreu
se o como está afundado no não-como?
Quanta multiplicidade de como-eu-poderia-saber!
Mas não sei
como me opor,
com o mar correndo na minha boca,
engoli uma espuma de ópio.
.....//......//
How could I know
Rumi
Translation by Franklin D. Lewis
How could I know melancholia
would make me so crazy,
make of my heart a hell
of my two eyes raging rivers?
How could I know a torrent would
snatch me out of nowhere away,
Toss me like a ship upon a sea of blood,
that waves would crack that ship’s ribs board by board,
tear with endless pitch and yaw each plank
that a leviathan would rear its head,
gulp down that ocean’s water,
that such an endless ocean could dry up like a desert,
that the sea-quenching serpent could then split that desert
could jerk me of a sudden, like Korah, with the hand of wrath deep in to a pit?
When these transmutations came about
not desert, not sea remained in sight
How should I know how it all happened
since how is drowned in the Howless?
What a multiplicity of how could I knows!
but I don’t know
for to counter
the sea rushing in my mouth
I swallowed a froth of opium

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