![]() |
“A morte está sempre à porta, como a vida”. António Lobos Antunes (1942-2026) |
O escritor português António Lobo Antunes morreu no dia 5 de março de 2026, aos 83 anos. Fiquei com a impressão de que, no Brasil, ninguém deu muita bola. Foi uma morte lisa, que passou pela peneira de minhas redes como um neutrino atravessa nosso corpo. Só fui saber de seu passamento duas semanas depois.
Estava conversando com um amigo sobre livros que nos fazem chorar, e eu disse que chorei ao ler A Ordem Natural das Coisas, não exatamente pelo que diz, mas como diz, que em geral é assim que a literatura nos emociona. E aí, ele disse “ele morreu, né”. A morte é mesmo furtiva.
Li outros livros interessantes dele, sempre muito derramados de sentimentos, como Os Cus de Judas, Sôbolos rios que vão, Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura, e até os romances mais conhecidos, como Eu Hei-de Amar uma Pedra e Memória de Elefante. Mas, de sua obra, A Ordem Natural das Coisas foi a que mais me marcou.
Há autores que a gente lê e logo se esquece do que leu deles. Há livros que não ficam quase nada em nossa memória, só rastros ínfimos, mínimas pegadas de uma certa filosofia, de um certo ensinamento ou uma frase torneada.
Como diz o narrador de O Náufrago, de Thomas Bernhard, “os nossos grandes filósofos, nossos grandes poetas, se reduzem a uma única frase bem-sucedida, essa é que é a verdade.”
De Lobo Antunes, no entanto, lembro de muita coisa do que li, não exatamente com as mesmas palavras expressivas, lembro da tonalidade poética, do ritmo quase de prece de seu texto.
Li A Ordem Natural da Coisas em 2005, quando ainda morava em São Paulo, cidade que faz de tudo para secar nossas emoções e nos deixar frios, mas nunca consegue, porque, contraditoriamente, oferece tudo o que nos faz querer expressar nossa interioridade de algum modo, por sobrevivência, por resistência, por vingança.
A memória da leitura deste livro de Lobo Antunes está em volta à névoa das lembranças dessa cidade. Talvez porque São Paulo não seja sombria, nem estranha, talvez porque seja como diz Juliete, uma das narradoras de A Ordem, “as sombras e as estranhezas existem em nós e não nas coisas”, e a memória, como diz Ernesto, outro narrador, “tem o seu mecanismo próprio, o seu ritmo, as suas leis, os seus caprichos.” E é mais ou menos assim que o autor será lembrado. Que descanse em paz.
...


Nenhum comentário:
Postar um comentário