sábado, 1 de outubro de 2016

Cool Heart – diário de viagem a Nova York (7)

                                      Foto: Gilberto G. Pereira
Liberdade: "Olhei para a estátua e achei-a um pouco rotunda"

Dia 7 (12 de julho de 2016)

Segundo Allain de Botton, em Como Proust pode mudar sua vida, o mundo do escritor francês Marcel Proust, autor de Em busca do tempo perdido, ou o mundo que Proust criou, se o lermos com acuidade, mostra-se muito parecido com o nosso mundo real, “expandindo assim a gama de lugares nos quais nos sentimos em casa.”

Tendo Proust como metonímia de sua obra e sua obra como metonímia da literatura, faço minhas as palavras de Botton para dizer que Nova York já era um lugar no qual me sentia em casa, por que para mim já era literatura.

No dia 12, pegamos o metrô (linha 1) e fomos para o Battery Park, de onde partimos em um ferry boat para visitar a Estátua da Liberdade e a Ellis Island, antigo porto de desembarque e ponto de quarentena de quem chegava a Nova York.

Enquanto a barca deslizava sobre as águas da baía do Hudson, a literatura se fez presente em mim na voz de Albert Camus. Lembrei-me de suas anotações em Diário de viagem (março a maio de 1946), suas impressões sobre a cidade que ele visitou numa viagem de navio.

 “Cansado. Minha gripe volta. E é com as pernas bambas que recebo o primeiro impacto de Nova York. À primeira vista, cidade horrenda e desumana. Mas sei que se muda de opinião.” Nessa passagem, Camus parece fazer um rápido diálogo com Franz Kafka, cujo primeiro romance (inacabado), intitulado O desaparecido ou Amerika, narra a história de um jovem rapaz, Karl Rossmann, que está fugindo da Alemanha e chega a Nova York.

“A bordo do navio, que já diminuía sua marcha”, diz o narrador de Kafka, “avistou a estátua da deusa da liberdade, que há muito vinha observando, como que banhada por uma luz de sol que subitamente tivesse se tornado mais intensa. O braço com a espada erguia-se como se tivesse recém se elevado, e em torno a sua figura sopravam os ares livres.”

Há uma raspagem neste último período. Antes, o narrador de Kafka havia dito o seguinte: “Ergueu os olhos para ela e descartou o que sabia a seu respeito.” Ou seja, neste caso, o personagem teria mudado de ideia sobre o que via agora mais de perto, como Camus também mudaria, oscilando entre o vislumbre e o mal-estar intuitivo das perenes transformações da cidade.

Enquanto Camus rodeava a estátua para chegar a Ellis Island, em seu cruzeiro, em um tempo bem anterior ao meu, eu aportava à ilha do monumento ícone num ferry boat lotado de turistas. Olhei para a estátua e achei-a um pouco rotunda. Uma silhueta cheinha se apoderava da imagem da estátua famosa. Como seu modelo é uma senhora do século XIX, nada de se espantar com a diferença em relação à ditadura da magreza dos dias atuais, cuja esbelteza e altura vemos em cartazes gigantes na 5ª Avenida.

A estátua cairia primeiro
De acordo com uma simulação apocalíptica sobre o desaparecimento repentino e total da humanidade, presente no documentário Aftermath: population zero, de 2008, se isso ocorresse, a Estátua da Liberdade não resistiria tanto quanto a Muralha da China ou as Pirâmides do Egito.

Criada em 1886, erguida com estrutura de metal e coberta com placas de cobre, 230 anos depois do fim repentino e definitivo da humanidade, seu esqueleto de ferro enferrujaria (por causa das infiltrações) e o braço levantado da estátua segurando a tocha cairia primeiro. Depois, a escultura inteira viria abaixo sobre um tapete regenerado de floresta, quando Manhattan também já teria se tornado selva.

Até lá, também estarei extinto. Até lá, o que me resta é seguir adiante com a realização da viagem e do olhar sobre todas as coisas na Big Apple, incluindo a jovem mãe liberdade e sua vizinha, a casa da ilha ao lado.

Em Ellis Island, vimos os rastros da fundação de Nova York, a chegada dos imigrantes fixada agora na memória. Fotos, telas, objetos, documentos, móveis, textos impressos, registros de voz e de imagem em vídeos, tudo.

Identidades e identificações
Há um documentário de curta metragem chamado Ellis, com Robert de Niro, que nasceu em Manhattan, narrando um drama fictício de um homem que não consegue entrar em Nova York e fica escondido nas dependências da ilha. Dirigido pelo fotógrafo francês que assina com o pseudônimo de JR, o filme é um deleite fotográfico. Vemos o homem sofrer seu drama, enquanto o tenebroso inverno e a neve alvejam a ilha, não tão distante da ilha maior de Manhattan, o alvo desejado.

Nossa visita angariou um desfecho de expectativa em mim, que esperava olhar os sobrenomes famosos de artistas e escritores cujos pais ou avós desembarcaram lá, como Bloom, Kubrick, Scorsese. Mas não houve tempo. Fiquei mesmerizado com o acervo de coisas pra ver, e foi muito bom.

Voltando à ilha dos lenapes, procurei um show no Madison Square Garden, ou uma boa partida de basquete, mas o melhor que a casa oferecia naqueles dias era Justin Bieber. Declinei.

Fui para a Broadway e comprei ingresso do Rei Leão para ver com minha filha. Ela sabe pouco inglês, mas adorou a performance visual, o jogo de palco e os bichinhos falastrões, quase todos representados por humanos caracterizados. Scar, o antagonista irmão do Mafusa, continua sendo o mais interessante dos personagens, sustentado pela ótima interpretação de um ator de teatro de Nova York que nunca vi antes na minha vida. O que me impressionou foi a tecnologia utilizada no palco do Teatro Minskoff, que só faltou falar.

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