sábado, 24 de março de 2012

A totalidade do Chico


Difícil é aparecer de novo na cena cômica brasileira alguém como Chico Anysio (1931 – 2012). O Brasil seria um país feliz demais se isso acontecesse, o Brasil, terra escassa de gênios que transformam positivamente a nação. Chico era um gênio, sem dúvida, e abriu as cortinas do riso para muita gente.

O rio de humor que corre hoje pelo país muito se deve a Chico Anysio, a parte boa, porque a canalha que faz do humor trampolim para despejar o próprio preconceito passa longe das gags, do histrionismo, do clown e das mil e uma facetas do velho Chico, que conhecia a alma brasileira como poucos.

terça-feira, 13 de março de 2012

Entre lobos e homens

Muitas foram as tentativas de apagar Rudyard Kipling (1865-1936) da lista de gênio da narrativa, mas ele sobreviveu até agora, graças à força de histórias curtas, como as presentes em O livro da selva, que acaba de ganhar segunda edição pela Editora Ática (168 páginas, tradução de Duda Machado, introdução e apêndice de Geraldo Galvão Ferraz), com a reformulação da série Eu Leio.

A prosa de Kipling, grande escritor e poeta inglês, tem a velocidade de um ataque feroz, o ritmo de um animal em disparada. A grande qualidade desse texto é justamente a polifonia da natureza, as diversas vozes traduzidas pela marcha verbal bem torneada, milimetricamente calculada, sem floreios, mas que traz uma beleza inigualável.

Não há desperdício em suas palavras. Uma lição e tanto para quem quer aprender a escrever, para quem se preocupa com a entonação das frases, o ritmo, o alinhamento de imagens que procuram oferecer a tradução da massa maior de significados.

Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1907, Kipling reveste como ninguém os animais com a alma e os sentimentos humanos, criando uma grande alegoria social e política. Em O livro da selva, publicado originalmente em 1894, o leitor de qualquer idade se delicia com as aventuras de Mowgli, menino que foi criado por lobos e aprendeu a falar as línguas de todos os bichos.

Além das histórias de Mowgli, que são as três primeiras e que viraram desenho da Disney, o livro também traz outros quatro contos, incluindo “Toomai dos elefantes”, uma narração sensível sobre a vida dos elefantes e sua utilização pelo governo indiano em trabalhos delicados como em batalhas de guerra.

Curvas sutis

Existe um sem número de traduções de O livro da selva, em versões infantilizadas ou não, ofertadas pelas editoras brasileiras. Mas a de Duda Machado, tradutor acostumado com os autores clássicos de línguas como o próprio inglês e o francês, é bastante sensível em relação ao ritmo que o texto original imprime. Esta nova edição da Ática também teve o cuidado de procurar corrigir as curvas sutis de algumas palavras que fugiam ligeiramente do ritmo.

Coisas simples, que parecem não incomodar o leitor envolvido na trama, mas que dão outro fôlego à leitura, como no trecho “Mowgli ia floresta adentro, correndo para valer, e seu coração queimava. Chegou ao covil junto com a névoa rosada do crepúsculo, respirou e olhou para o vale lá embaixo.”

O editor teve a sensibilidade de observar que a preposição ‘para’ na primeira frase quebrava o ritmo, e passou por cima da orientação purista, segundo a qual, a escrita formal não aceita síncopes como esta. Acontece que o texto literário busca outras normas que vão ao largo da gramática normativa.

E aí, a frase ficou assim: “Mowgli ia floresta adentro, correndo pra valer, e seu coração queimava. Chegou ao covil junto com a névoa rosada do crepúsculo, respirou e olhou para o vale lá embaixo.” Faz toda a diferença.

Esse galope prosaico, essa maneira intensa de contar uma história é o maior encantamento do texto de Kipling neste livro. Uma criança de oito anos lê pela primeira vez, e aos 80, ainda se lembrará daquela aventura literária, e provavelmente lerá de novo, em seus dias de cadeira de balanço, ou algo assim.

Certamente indica a outros, indica aos amigos, ainda na infância, aos filhos dos amigos, na idade adulta, aos netos, na velhice. Kipling é um grande estímulo cerebral, sem dúvida. Em sua prosa, há uma cavalgadura intensa e bem compassada.

A vertigem da narração e as características de Kipling

Quando lemos as histórias de Mowgli em O livro da selva, entramos num universo cheio de nuanças, muitas delas criadas apenas pela coordenação das palavras, pelo ritmo que vai comandando os diversos gestos da selva.

Mowgli foi encontrado no mato pela Mãe Lobo, que o levou para sua alcateia. O garoto era a presa do malvado, manco e rancoroso tigre Shere Khan, que não aceitou a afronta dos lobos e prometeu vingança. Até que o desfecho desse atrito se consumasse, Mowgli foi aceito pelo Conselho da alcateia e treinado por Baloo, “o sonolento urso-pardo que ensina a Lei da Selva aos filhotes de lobo.”

Outra fera que ajudou a proteger Mowgli, a Rã, na linguagem lobal, foi a pantera negra Bagheera. Veja que nenhum desses três animais é de fato um lobo, mas estão integrados ao universo da alcateia (castas), que na visão da narrativa de Kipling é o mundo mais organizado da selva, porque seguem as leis desta.

E são exatamente esses três que protagonizam as mais belas cenas de aventura e tensão. Depois de ter sido treinado por Baloo, de se tornar um poliglota da selva e saber se sair de diversas enrascadas, sempre observando a Leia da Selva, Mowgli conhece a turma mais anárquica entre os bichos, os macacos, os Bandar-log.

Na opinião de Baloo, os macacos não só não têm lei, como mentem, são preguiçosos, numerosos, malvados, sujos e sem-vergonha. “Eles não têm memória. Eles contam vantagem e tagarelam, e fingem que são um grande povo capaz de fazer grandes coisas na selva, mas a queda de uma noz faz com que fiquem rindo e esqueçam tudo.”

Num momento de rebeldia, Mowgli faz amizades com esses bichos, sai com eles e se sente importante no meio da turba de macacos. Até que um dia eles o raptam, e o menino acaba sendo levado para uma cidade abandonada, ondes os primatas faziam suas farras sem serem incomodados, porque era distante e nenhum bicho gostava de ir lá.

Vertigem

Com a ajuda de uma serpente chamada Kaa, a pantera e o urso seguiram a fuga dos macacos. Os três correndo por baixo, e os Bandar-log na disparada louca pelo cume das árvores rumo à cidade vazia, carregando Mowgli, entre um salto e outro, como se levassem um cacho de banana para alimentar a família.

Esse trecho da narração é um dos mais eletrizantes de todos os contos do livro, o exemplo mais exato do poder de contar uma história e encantar os leitores de que Kipling era revestido. Durante o rapto, Mowgli não podia fazer nada, a não ser sentir a experiência única de sua vida, naquela disparada na selva onde fora criado.

Seus sequestradores subiam com ele até o alto de uma árvore e só quando sentiam o galho mais alto e fino estalar e vergar embaixo deles é que, com um grunhido e um berro, se arremessavam no ar para baixo e para cima, até alcançarem, segurando-se com as mãos ou os pés, os galhos mais baixos da próxima árvore. Às vezes ele podia ver a selva verde e quieta por muitos e muitos quilômetros, tal qual um homem no topo de um mastro de navio pode ver milhas e milhas de mar, e aí os ramos e as folhas batiam no seu rosto, e ele e seus dois guardas mais uma vez estavam quase tocando a terra. Assim, saltando, e estalando, e guinchando, e gritando, toda a tribo dos Bandar-log atravessava a trilha das árvores com Mowgli, seu prisioneiro.

Além da vertiginosa narração (a história contada, simplesmente), que é o que há de mais encantador em sua literatura, e dos meandros da narrativa (o modo de trazer à tona o conteúdo da história), assunto mais apropriado aos críticos literários, vale ressaltar aqui duas características do universo criativo de Kipling: a doce intervenção materna em prol de uma vida e o acato à autoridade, a obediência quase cega às leis.

Quando Mowgli ousou desobedecer a Lei da Selva (não se juntar aos macacos), ele sofreu uma penosa consequência, e se curvou diante dessa força maior, dizendo ter aprendido a lição.

Quando Mowgli era bebê e estava na selva desamparado, uma mãe lobo o salvou, levando-o à alcateia, enfrentando os demais lobos que não queriam aceitar um animalzinho sem pelo e filhote de homens em seu meio.

Depois de crescer, foi expulso da selva pelos lobos e teve de procurar moradia na cidade, onde foi acolhido por uma mãe que havia perdido seu filho na selva (talvez fosse o próprio Mowgli). Ao ser contestado também na cidade, e ser apedrejado, sob a acusação de ser feiticeiro maligno que não obedece as leis divinas, de novo o instinto materno da mulher que o acolhera o protegeu.

Fábula moderna

No universo selvagem de Kipling todas as ações são demasiado humanas, porque era isso que ele queria discutir. Criou uma fábula moderna de homens que vivem entre lobos, uma releitura de Leviatã, de Thomas Hobbes, guardadas as proporções, mas também uma tradução de seu próprio modo de ver o mundo.

Os personagens de Kipling acatam a ordens muito prontamente. Aqueles que não o fazem são considerados desordeiros e encrenqueiros. É o caso dos macacos. E essa visão está muito ligada ao modo de agir do próprio império britânico ao qual Kipling fazia parte, sendo considerado o poeta do império.

Essa visão era racista, etnocêntrica, sem dúvida, e podia claramente ser vista em sua narrativa. Nascido em Bombaim, Índia, mas de família de ingleses, Kipling estudou na Inglaterra, na cidade portuária de Bideford.

Depois voltou a morar na Índia por vários anos. Escreveu seu livro mais famoso, no entanto, nos Estados Unidos, vivendo isolado, nas montanhas, provavelmente maldizendo os vizinhos. Toda essa história extraliterária e as chaves de interpretação de sua literatura podem ser encontradas no ótimo apêndice escrito por Geraldo Galvão Ferraz.

Apesar de sua visão etnocêntrica e preconceituosa, não se pode tirar dele o mérito de ser um grande escritor. Segundo a Academia Sueca, Kipling ganhou o Prêmio Nobel em 1907 em consideração “à sua força de observação, originalidade de imaginação, vitalidade nas ideias e um considerável talento narrativo que caracteriza suas criações.” Então está dito mais uma vez. Ele morreu em Londres, em 1936. (Gilberto G. Pereira, in Tribuna do Planalto)