terça-feira, 29 de novembro de 2011

Vinicius de Moraes e o amor total

Vinicius de Moraes (1913-1980)


Depois de Camões, talvez o poeta que mais tenha falado de amor na literatura de língua portuguesa tenha sido Vinicius de Moraes. Não se trata aqui de comparar o libertador do idioma lusitano, o artista que pôs nossa língua no mapa da existência literária, com o poeta brasileiro.

Mas não podemos nos esquecer que, além da influência de Shakespeare, Rimbaud e companhia, Vinicius também foi influenciado pela poesia de Camões. Os sonetos são parte dessa herança. O mais famoso deles é o de “Fidelidade”, “De tudo, ao meu amor serei atento/ Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto/ Que mesmo em face do maior encanto/ Dele se encante mais meu pensamento.”

Vinicius de Moraes parece fácil. Passou da fase do sublime, das complexas golfadas de palavras, entre o místico e o hermetismo (“Através do tenuíssimo de névoa que o céu cobre/ Eu sinto a luz desesperadamente”), para a simpleza do verbo. Amar é o mais caro deles.

Na sua antologia de sonetos, o poeta abre um portal de diversidade temática, falando de amizade, natureza, pintura, cinema, futebol, animais e amor, claro. Mas sempre numa atmosfera de intimidade que encanta. Vinicius elegeu o soneto como a forma de manifestar seu espírito, sua alma larga e profunda de poeta, perpassando os poemas pela temporalidade.

A duração do tempo e a transcendência dele estão no centro da sua poética. E o objeto mais duro, como diamante, capaz de atravessar a massa espessa e invisível do tempo, é o amor. Mas não de maneira tão retilínea e simples. O amor em Vinicius é como uma chama que pode até se apagar, mas, contraditoriamente, não tem fim.

Para resolver a contradição, ou conceituá-la, aceita dizer que a duração, por mais relâmpago que seja, se vivida com tal intensidade, permanece na linha contínua do tempo, para sempre.

O amor, em geral, e o que ele mesmo sente, não precisa ser imortal “posto que é chama/ Mas que seja infinito enquanto dure”, conclui o poeta em “Soneto de fidelidade”. Esta frase está ligada a uma tradição existencial que remonta aos gregos.

Estética existencial

Vinicius não criou nada de novo, neste caso, mas ousou formular uma estética existencialista, que mistura Kirkergaard, Pascal, Nietzsche, os romanos e os gregos. É como se dissesse “nosso momento é o que temos agora, vamos, portanto, senti-lo como se fosse para sempre”.

Todos conhecem essa ideia pela famosa frase em latim carpe diem (goze este dia, aproveite o dia), em um dos poemas de Horácio. Mas ela vem de mais longe, e consta no registro de um dos sete sábios da Grécia Antiga, Pítaco: “Aproveite o dia de hoje”. Foi a única coisa que sobrou do pensamento deste sábio, mas o eternizou.

Na literatura brasileira, antes de Vinicius, outro grande poeta que influenciou todas as gerações dos românticos, Basílio da Gama, também forjou dois versos que entraram para a história com ideia parecida: “Gozemo-nos agora, enquanto dura,/ Já que dura tão pouco a flor dos anos.”

O que Vinicius fez de diferente foi buscar o conceito de instante, que remonta a Platão e chega a Kirkergaard, para fazer dele uma espécie de portal da eternidade. Viver o amor dentro do instante é uma escolha de se entregar totalmente, mesmo sabendo que haverá a consequência do fim, uma vez que é chama, mas naquele momento o amor se torna eterno.

Igual ao “Soneto de fidelidade”, o poeta escreveu outros que compõem o quadro geral do amor, o amor como o que dá sentido à existência e que, portanto, não figura na horda mortal dos homens, apenas passeia por aqui, estando além, numa outra dimensão. Amar é mergulhar na experiência da eternidade. É claro que o tempo do amor, sim, é infinito, não o nosso próprio tempo. Este sempre acaba.

Além daqueles que não trazem a palavra ‘amor’ no título, o poeta dedicou três sonetos para configurar essa ideia de amar. “Soneto do amor maior”, “Do amor total” e “Do amor como um rio”. Para fechar esta conversa, segue o segundo poema e um rápido comentário sobre ele, em que o leitor pode sentir e entender como o poeta usa o ritmo e a musicalidade para fixar o significado do amor.

Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.


Musicalidade

Dedicado a Lila Boscoli, a terceira mulher e uma das paixões mais arrebatadoras do poeta, “Soneto do amor total” foi escrito em 1951, quando Vinicius, aos 38 anos, conheceu Lila, que tinha 20, e se casou com ela naquele mesmo ano.

Já na primeira estrofe, o sujeito poético, que neste caso é mesmo Vinicius, faz uma afirmação categórica. O amor que sente não tem nada de ideal, é verdadeiro e real, e é maior do que uma pessoa pode suportar. A verdade que há nesse amor está acima do humano, ultrapassa o coração humano e vai além.

Já na segunda estrofe, levanta todo o peso do amor que sente e tenta fazê-lo se tornar mais leve, colocando-o no espaço do etéreo, do sublime, mergulhando na eternidade para talvez tentar suportar essa fixação absoluta. Mas na terceira estrofe, o poeta volta à experiência carnal do amor.

Lido todo o soneto, o leitor pode ver as palavras dançando dentro da musicalidade construída. Cria-se ao longo dos versos um jogo de contradição (antíteses) e música: eternidade, instante, amigo, amante, afim, enfim (sugerindo fim e infinito), além, presente.

É um amor intenso e total. Ninguém pode amar assim. As duas pontas do poema dizem isso claramente. No entanto, ele ama. Eis o espanto.

Em função do sentimento avassalador, o poeta tenta captar a totalidade desse amor. Para tanto, armou uma estrutura circular, simples no vocabulário, mas complexo no jogo de palavras. O poema só tem seis verbos: amar, cantar, haver (locução), morrer, ser e poder. E ele os conjuga com absoluta intensidade junto a substantivos, advérbios e adjetivos, criando a melopeia dos sentidos.

Se levarmos em conta algumas escolas teóricas, como a de Ezra Pound, vemos que as palavras usadas no poema têm uma tonalidade nasal que sugere interioridade. Essa jornada interior, que vai do primeiro verso ao último, repetindo a palavra ‘amor’ em combinações de substantivo e verbo, coloca esse sentimento no cerne da existência do poema e do poeta.

O poeta ama demais, e seu amor é totalizante, a ponto de ele não saber se suporta amar assim. É uma agonia, a agonia do gozo e da morte. A última estrofe funde essas duas concepções, uma carnal demais e outra que flerta com a finitude do corpo e a elevação da alma.

“E de te amar assim, muito e amiúde”, dize o poeta, “É que um dia em teu corpo, de repente/ Hei de morrer de amar mais do que pude.” Morre, mas renasce. Ressurge na circularidade das coisas, o eterno retorno.

Filosofia poética

O poema afirma que a totalidade do amor está além do que nos é possível. Nossa capacidade de amar não suporta o amor total. Essa concepção também é existencialista e está no centro das discussões da filosofia moral do século XX. Quem não ama não vive. Mas amar demais é ir de encontro à morte.

O filósofo francês Vladimir Jankélévitch escreveu um livro inteiro para falar do paradoxo da existência e colocou o amor no cerne dessa discussão. “Para amar é preciso ser, mas para ser é preciso, antes de tudo, amar: pois quem não ama é um simples fantasma”, diz em O paradoxo da moral.

Tal como Vinicius, Jankélévitch via no amor uma condição essencial da vida, e ao mesmo tempo, transcendente a ela. “Podemos amar até morrer – é essa contradição intestina que é demente, em verdade absurda, e, em certo caso, sublime.” O amor trespassa o corpo da vida no indivíduo, que morre, e por ser mortal, não consegue sustentar ad infinito o amor.

“O amor infinito, com sua abnegação infinita”, diz Jankélévitch, “tem necessariamente como sujeito um ser finito”. Eis o mesmo drama do poeta, que sabe de tudo isso também. O filósofo francês, ligado ao pensamento clássico e a ideias contemporâneas suas como as de Henri Bergson, tacitamente se comunica com essa poesia de Vinicius.

Todas as palavras caras ao existencialismo cristão estão no “Soneto do amor total”, como verdade, realidade, liberdade, eternidade, instante, mistério e virtude. Elas se juntam ao bojo do poema e criam uma polifonia própria, a música do amor total, cujo estribilho é a frase “amo-te”, ecoando todo o poema.

Desse modo, o amor pulsa no corpo do poema, que começa com o verbo amar no presente e termina com o verbo poder no passado, mas prevendo um futuro, dentro de uma circularidade que evoca a morte, mas de forma ambígua, pois morrer no corpo da mulher amada é o orgasmo, a morte ideal, que só o amor (ou o sexo) é capaz de proporcionar.

(Gilberto G. Pereira. Publicado originalmente na Tribuna do Planalto, 27/11/2011)

domingo, 20 de novembro de 2011

sábado, 19 de novembro de 2011

Solano Trindade e a poesia negra

Foto: Revista Raiz


“Lincharam um homem/ entre os arranha-céus/ (li num jornal)/ procurei o crime do homem/ o crime não estava no homem/ estava na cor de sua epiderme...”. Este poema de Solano Trindade (1908-1974), intitulado “Civilização branca” demonstra bem que tipo de poeta ele é, um poeta negro, claro.

Sua poesia não trata de militância, trata-se, isso, sim, de uma realidade ainda hoje complicada para quem é negro no Brasil. Depois de Cruz e Sousa, passadas várias décadas de silêncio em torno da temática do negro, ele apareceu como um bálsamo.

Inteligente e conhecedor das técnicas da poética moderna, não quis se fazer passar por Mallarmé tupiniquim. Embrenhou na densa mata, olhou para os guetos, para a história e para a marginalização sistemática dos negros e focou sua poesia no próprio universo de sua consciência.

Criou uma poesia ao som dos atabaques, do aguê, e toda a musicalidade encontrada nos cerimoniais afros, o culto aos deuses, sempre falando de amor, evocando cidades, pessoas, expondo a violência contra o negro, mas também a festa desse mesmo negro.

Em um de seus livros mais significativos na questão da consciência negra, Cantares ao meu povo, de 1961, Solano Trindade escancara a força de sua poética e de sua revolta. Mas há sempre um acalanto. Seus brados trazem sempre uma carga poderosa e ao mesmo tempo suave.

Diáspora

Seus versos meio que flutuam sobre a face do país como vento, que pode ser breve e leve, e também mensageiro de tempestade e dor. No poema “Canto da América”, o poeta dá o tom de sua verve, indicando na abertura os ritmos cantados na escansão dos versos: blues, swings, sambas, frevos, macumbas, jongos.

“Ritmos de angústia e de protestos”, diz o poema, “estão ferindo os meus ouvidos !...” E em seguida desfecha a diversidade de sons pelos quais canta a América, buscando a união junto ao sentimento da diáspora:

São gemidos seculares da humanidade ferida
que se impregnaram nas emoções estéticas
da alma americana...
É a América que canta...

Esta rumba é um manifesto
contra os preconceitos raciais
Esta conga é um grito de revolta
contra as injustiças sociais
Este frevo é um exemplo de aproximação
e de igualdade...


O sentimento de diáspora está presente no coração de todo negro de consciência despertada. Está presente na literatura, na música e nas artes de modo geral, nos ensaios sociológicos escritos por negros, na dança, nos ritos e nos cultos aos deuses afros em toda a América.

Local e global

Só para fazer aqui uma comparação e mostrar tanto a riqueza dessa poesia que canta aos negros da América quanto a pujança da outra, feita por um negro que canta ao mundo todo, enquanto Solano Trindade faz versos na simpleza das formas, Cruz e Sousa sobe às alturas, mas também fala do negro, de si mesmo, cantando à alma universal.

Solano Trindade canta a seu povo em todos os cantos da América, no sentimento de diáspora, de rearranjamento no espaço e no tempo, na tentativa de entender a nova identidade, que já não é mais africana, mas sem deixar os símbolos da velha cultura para trás, uma vez que ela é seu sustentáculo, a sua arca.

Se a poesia de Cruz e Sousa nos ensina que o negro de gênio educado nos moldes da cultura ocidental, aprendendo a dominar as técnicas no veio da linguagem utilizada pelos grandes mestres dessa cultura, consegue feitos à altura de qualquer homem branco, a de Solano Trindade nos dá o presente dos ritmos simples, com os instrumentos da própria cultura negra.

Em Cantares ao meu povo, há uma infinidade de formas construídas para dar conta desse universo de afirmação, ao mesmo tempo de protesto, que revela o medo, a dor, a revolta. Tudo isso entre risos, danças, pouca mágoa, é verdade, mas no sulco da memória que não deixa esquecer a exploração no passado e as injustiças no presente.

Entre uma verdade e outra, a música e a sensualidade dos corpos. Como no poema “Macumba”, que revela o rito, mas também a riqueza de sons e de instrumentos, com os negros tocando o “aguê/ o caxixi/ o agogô/ o engona/ o gã/ o ilu/ o lê/ o ronco/ o rum/ o rumpi.”

Mas quando se trata da realidade dos negros, a festa sempre abre espaço para a sombra dos males. Entre os poemas mais conhecidos de Solano Trindade está “Tem gente com fome”, que periodicamente aparece em cartilhas e livros do ensino fundamental.

Fome e versos

Em 2008, quando se celebraram os cem anos de nascimento do poeta, a editora Nova Alexandria publicou o poema separado e rotulado como literatura infanto-juvenil, mas é muito mais que isso.

O poema recria o movimento, o som de um trem e a paisagem por onde ele passa, crivando uma espécie de geografia da fome. “Trem sujo da Leopoldina/ correndo correndo/ parece dizer/ tem gente com fome/ tem gente com fome/ tem gente com fome”, enquanto vai passando por bairros pobres do Rio de Janeiro.

E finaliza com um tom de ironia, denunciando uma situação que até hoje ainda se vê, ora por parte de governantes, ora por parte da elite econômica (que geralmente controla os rumos da política) e que não quer que se mostre a face faminta do país.

Só nas estações
quando vai parando
lentamente começa a dizer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer

Mas o freio de ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuu


(Gilberto G. Pereira. Publicado originalmente na Tribuna do Planalto, 20/11/2011)

terça-feira, 15 de novembro de 2011

A sonoridade da guerra



Os romances de guerra são inúmeros. Sobre a Segunda Guerra Mundial, então, há uma infinidade deles, de ex-soldados, de ex-prisioneiros de campo de concentração, de escritores que pesquisaram o período, de autores que criam em cima daquela atmosfera sem estudar profundamente o ambiente.

Há romances best-sellers, como O buraco da agulha, de Ken Follet, há os trágicos, como É isto um homem?, de Primo Levi, os diários, como o de Anne Frank. E há Guerra em surdina, do ucraniano Boris Schnaiderman, escrito em português, 20 anos depois de a Segunda Guerra acabar, guerra da qual ele participou junto às tropas brasileiras.

Schnaiderman, que nasceu na Ucrânia, em 1917, e veio para o Brasil aos oito anos de idade, participou da campanha da Força Expedicionária Brasileira (FEB), como sargento de artilharia, e presenciou de perto o horror da guerra. Seu romance é costurado numa mescla de focos narrativos que captam todas as vozes, cercando os fatos e o ambiente de vários ângulos possíveis.

Desse modo, ele mostra como a guerra desumaniza o homem, degrada-o, colocando a condição humana numa situação de absurdo. Aliás, o absurdo é uma presença constante nesse livro, e em diversos níveis, o que lembra um pouco os personagens de Albert Camus, como o que acontece no banheiro do navio, a caminho da guerra, em que os praças se encaram, sentados no vaso, um de frente para o outro, na hora da necessidade.

Outro exemplo camusiano se dá na repetição do ato de um segundo-sargento, responsável pela cozinha de uma unidade da FEB. Ele começa a contar uma pilha de latas de comida em conserva, mas quando está próximo dos cem, pensa na namorada. Desconcentra-se, perde a conta e tem de começar tudo de novo.

O absurdo da cena aproxima o cozinheiro ao personagem de Sísifo, o herói mitológico preferido de Camus. Sísifo driblou a morte duas vezes, e por isso fora condenado por Zeus a rolar uma pedra até o topo da montanha, mas antes de chegar, a pedra despencava de novo, e o anti-herói refazia seu trabalho, condenado a uma eterna repetição.

O que Schnaiderman deixa transparecer em seu romance é justamente esse contrassenso da guerra. Sua narrativa metralha palavras de forma precisa, concatenando um discurso límpido e fluente, cuja leitura não se deixa pela metade. O primeiro capítulo é um dos mais vertiginosos rumo à sangria do conflito, que culminou na vitória da FEB no Monte Castelo.

A meio tom

Mas o conflito maior era interior. Esta é a mensagem do autor, que demorou tanto tempo para escrever sua história porque não achava um tom adequado. Havia muitas perspectivas, muito drama dentro dele mesmo.

A palavra ‘surdina’ diz bastante de sua intenção. Significa, entre outras coisas, uma voz a meio tom, quase um sussurro, e também é o nome de um aparelho que serve para abafar a sonoridade de certos instrumentos musicais. Imagine o zunido da bala, as explosões, os gritos de dor, a revolta de não querer estar no front. Agora ponha tudo isso na alma dos indivíduos.

A força do romance de Schnaiderman está nessa capacidade de expor o drama de uma guerra pelo ponto de vista de quem mata e morre, não pelo de quem manda matar, que também está presente na trama, mas na revolta dos comandados. Uma cena no começo do livro, quando tudo vem na velocidade do tiro, mostra bem a resistência e o conflito em surdina.

Os homens foram mandados para exame de saúde. Ficaram descalços e de busto nu, andando de sala em sala da Policlínica Militar. De vez em quando, entravam numa sala, onde eram submetidos a exame sumário.


O médico militar encarregado do Exame Neuropsíquico nem erguia os olhos do papel em que vinham impressas as perguntas que devia fazer:

— Gosta da vida militar?
— Não, senhor.
— Pretende fazer carreira no Exército?
— Não, senhor.
— Houve algum louco em sua família?
— Não, senhor.
O médico rabiscava “normal” na ficha e gritava:
— O seguinte!


Imprescindível

Crítico literário, ensaísta e tradutor do russo, Boris Schnaiderman é professor aposentado pela Universidade de São Paulo (USP), e um dos fundadores do curso de estudos russos dessa instituição.

Na lista de suas traduções figuram os clássicos mais sublimes da literatura mundial, como Memórias do subsolo, Um jogador, O eterno marido, Nietotchka Niezvanova, todos de Dostoievski, além de autores como Tolstoi e Tchekhov.

Em 2010, ele lançou suas memórias, em que narra sua rica aventura de vida, contando passagens que marcaram sua infância, como quando assistiu aos bastidores da filmagem das cenas da escadaria do filme Encouraçado Pontemkin, obra prima de Sergei Eisenstein.

Este ano, ele lançou Tradução, ato desmedido, em que analisa a relação de fidelidade e liberdade de recriar na arte de traduzir. Guerra em surdina é seu único romance. Em 2004, a editora Cosac & Naify lançou a quarta edição do livro, que não é exatamente autobiográfico.


Entre dados que são de seu testemunho, o autor também cria, e o resultado é este romance imprescindível ao leitor da literatura brasileira, não só aos que gostam de narrativas de guerra, mas também aos que buscam a crítica humanista no crivo da arte.

sábado, 12 de novembro de 2011

Réplica: Mirisola responde à Folha

Na edição deste sábado da Folha de S. Paulo, o escritor Marcelo Mirisola replicou o texto de Josélia Aguiar, do sábado passado (5 de novembro), em que a jornalista e blogueira, a propósito do novo livro do escritor paulistano, Charque, fala das polêmicas e de desafetos em torno dele.

Como eu havia escrito um texto ecoando essa coisa toda, vou ecoar também a réplica. Segue abaixo.


RÉPLICA

Como se deve servir o "Charque"

MARCELO MIRISOLA
ESPECIAL PARA A FOLHA

"Fama de encrenqueiro atrapalha lançamento de livro de Mirisola."

Eis o título da matéria publicada nesta Folha na edição de sábado passado.

Um encrenqueiro de verdade, desses que frequentam manchetes sensacionalistas, teria -no mínimo- pedido indenização por danos morais. Não vou fazer isso.

De qualquer forma, quero dizer que é muito triste estar aqui exercendo o direito de resposta em vez de falar de literatura, que é o que deveria importar em um caderno de cultura.

Mas vamos lá. Logo no início da "matéria", a repórter afirma que, nos últimos dez anos, depois de eu ter publicado o "Azul do Filho Morto", apareci na web e na imprensa mais por conta de "fanfarras" e "polêmicas" do que por conta dos livros que eu deveria ter escrito.

Para ela, "Bangalô", "Joana a Contragosto", "Memórias da Sauna Finlandesa", entre outros seis títulos publicados, não passam de bizarrias, e daí depreende que o período em que fui cronista da AOL e os três anos que sou colunista do site Congresso em Foco devem significar marmelada e goiabada.

Os palhaços quem são? Decerto meus leitores e os editores que me publicaram ao longo desse tempo.

A repórter acredita que meu chibantismo afastou-me do convívio civilizado de colegas, curadores e críticos afins.

Graças a Deus!, quero distância dessa gente cultivada que promove bacanais com dinheiro de renúncia fiscal e frequenta os mesmos saraus da ilustríssima repórter.

Não sou despachante, meu lance é literatura.

Isso não quer dizer que eu seja um homem amargo e irascível, como a "matéria" quis me vender.

Ao contrário, sempre recebi de braços abertos quem me procurou para entrevistas e se, eventualmente, minhas reações parecem desproporcionais, podem apostar que não são gratuitas.

Jamais usaria "cofrinhos peludos" para ilustrar minhas ideias e/ou embalar meus ressentimentos.

Tenho educação, e ainda me sobra muito estilo e independência -essas coisas que devem contrariar o "modus faciendi" e envenenar a rotina dos tais "curadores", "críticos" e "colegas de trabalho". Lamento.

Enfim. Dizer que estou mendigando resenha só não é mais leviano e estapafúrdio do que terminar o texto dizendo que eu vou ser "retratado" num livro infantil do qual sou autor, com Furio Lonza.

A repórter não teve acesso a esse livro, portanto a informação é falsa e incita o leitor distraído a deduzir que o autor em questão é um tolo inconsequente e carente (em busca de uma resenha) que não deveria ser levado a sério.

Se tem alguma criança mostrando o "cofrinho peludo em festa de aniversário" no lugar de tratar de literatura, essa criança (ou fanfarrão) seguramente não sou eu.

Ah, e o lançamento que a Folha não cobriu foi um sucesso.

MARCELO MIRISOLA, 45, é autor de 12 livros, entre os quais "Charque" (Barcarola, 2011)".

terça-feira, 8 de novembro de 2011

A beleza diária da música

Foto: Marco Novack


É doce ouvir A Banda Mais Bonita da Cidade, que acaba de disponibilizar seu primeiro álbum na internet para quem quiser escutar (clique aqui). A voz da única mulher do grupo, Uyara, se sobressai nas canções. O texto de um release anterior de divulgação da banda diz que “a vocalista baixinha cresce quando sobe ao palco e canta de forma emocionada.”

E é verdade. Mas os outros integrantes pontuam o tecido vocal ao longo das 12 músicas, ora fazendo back vocal, ora tomando o espaço da primeira voz. Há um jogo de vozes e estilo dentro da concepção do álbum homônimo que acaba sendo a assinatura da banda.

Entre a suavidade e a força muito bem dosada por Uyara, o ouvinte se deleita com a miscelânea de sons, a babilônia de batidas e estilos, baladas, blues, soul, toques mais voltados para a MPB e rock em letras que falam do cotidiano. A maioria das canções traz palavras comuns do dia a dia, mas vestidas de grande musicalidade, que é sempre o que faz a palavra cantada se tornar bonita.

Mas não é só isso. Junte-se a ela, a plasticidade do verbo. Não são palavras a esmo, há sempre uma intenção que atravessa a rima rumo à poeticidade elaborada em cima do comum, e até do patético. É visível a presença da literatura e do cinema nas composições.

“Solitária”, por exemplo, é uma música marcada cenicamente. É quase um curta metragem. A moça escreve ao namorado para falar de sua depressão, e esbraveja, chora, se sacode toda verbalmente, sem deixar de imaginar a reação dele, na leitura da carta, impávido.

A relação não deu certo, e ela quer acabar com tudo de um modo original. Quer se matar com uma lâmina de barbear. “Quando você ler esse bilhete/ Já estarei na rodoviária/ Quem sabe até na alta estrada/ Viajei pra um cidade/ Chamada solitária”, diz a letra, para mais adiante expor as vísceras num verso: “Vou cometer haraquiri/ Mesmo sabendo que nesse momento você ri.”

Notável
Tristeza, reflexão, celeridade urbana, depressão, amor, amor, amor sempre, como fruto inevitável das relações. Dor de amor, solidão e tristeza, em meio à beleza forjada e cantada pela Banda Mais Bonita da Cidade. É um trabalho notável, sim. Um grupo de jovens artistas que veio para ficar, sem dúvida.

Em “Mercadorama”, o cotidiano de Curitiba aflora nos versos. Mercadorama é uma rede de supermercados de médio porte muito conhecida na capital paranaense, onde moram os integrantes da banda. A canção fala de uma noite atípica de um jovem casal que vive o drama de cuidar do primeiro filho.

O álbum da BMBC é uma espécie de pop rock oxigenado, mas aí já é um rótulo, coisa que a banda não curte, e com toda razão. Suas canções são camaleônicas. “Aos garotos de aluguel”, por exemplo, flerta com o brega trazendo elementos de outros estilos, como o blues.

Outra coisa interessante desses jovens artistas é a importância que dão ao trabalho com a palavra. E neste caso, o álbum é avaliado pelas assinaturas das composições. A banda é essencialmente intérprete, mas seus integrantes sabem o que querem na hora de escolher as canções.

Eles escolhem bem os compositores, muitos deles amigos do grupo de longa data. O álbum inclui a canção “A balada da bailarina torta”, o primeiro hit da banda na internet, antes do estouro surreal de “Oração”. Essas duas canções são de Leo Fressato. Mas um outro parece roubar a cena no quesito belas letras: Luis Felipe Leprevost.

Ele está presente em quase todas as composições, e geralmente as mais belas. É compositor de “Solitária” e “Se eu corro”. Em todas as canções do álbum, as letras têm o que se pode chamar de consciência literária. Não é só um casamento com a melodia. A voz da letra salta para além dos arranjos.

Em “Se eu corro”, há uma homenagem clara a Roberto Carlos. A música traz uma voz masculina junto com a de Uyara, compondo um dueto maravilhoso. “Se eu corro/ Eu corro demais só pra te ver meu bem/ É que eu quero um socorro/ Se eu corro”

BMBC tem um som intimista. Não é de grande agitação, mas também oferece aos ouvidos uma inquietação, desperta uma vontade de cantarolar, como quem quer ser filósofo para pensar (e cantar) as coisas banais do cotidiano, que, no fundo, são as questões fundamentais. “Preciso cortar os cabelos/ Comprar mais um creme amarelo/ Retomar a semiótica/ Uma dieta de atleta/ Um protótipo uma meta/Uma nova ótica”.

(Gilberto G. Pereira. Publicado originalmente na Tribuna do Planalto, 6 de outubro de 2011)

sábado, 5 de novembro de 2011

Um escritor em busca de resenha: Mirisola e as polêmicas

Foto: Substantivo Plural

Mirisola: “Não sou convidado nem para quermesse de igreja. Fico em casa, isolado, trabalhando honestamente, enquanto as raposas se refestelam no galinheiro chamado literatura brasileira” (FSP)

Não sou versado na literatura de Marcelo Mirisola (1966). A primeira vez que ouvi falar dele, eu morava em Curitiba, em 2002, e li uma entrevista sua na Gazeta do Povo, quando ele voltava de um tempo ancorado em Florianópolis (para escrever O azul do filho morto [editora 34]).

Depois acompanhei suas polêmicas pela imprensa. Uma delas foi quando alguém reuniu disposição para convidá-lo a escrever um texto sobre a Festa Literária Internacional de Paraty, em 2006.

Não deu outra. Mirisola isolou os bons fluidos e desceu a lenha em tudo, cunhando inclusive um novo termo às namoradinhas das letras, Marias Rodapé.

Como não era comigo (e quando não é com a gente, a tendência é que as coisas se tornem engraçadas, a menos que a gente seja um xiita), morria de rir com tudo isso.

Em 2007, já morando em São Paulo (voltei para Goiânia só em 2009), eu estava no Sebo do Bac, na Praça Roosevelt (nem sei se ainda está lá), perto do Satyros, procurando um livro de Georges Perec, quando olhei para a cadeira ao lado e vi Mirisola.

Puxei conversa. “Você é o Mirisola, né?”. “Sim, sou eu mesmo”. Conversou comigo como um lorde, numa educação e civilidade de qualquer homem urbano que sabe conversar. Eu disse que sempre ouvia falar dele, e estava querendo ler um livro seu. Qual ele me indicaria?

Homem do subsolo

Mirisola me indicou justamente O azul do filho morto. Mas um colega seu, que participava da conversa, bem humorado, disse que talvez eu não fosse gostar do livro. Puro preconceito (mas, num sentido bem light).

Na verdade, O azul é polêmico (Márcio Scheel, no blog Revista Cidade Sol, do Lúcio, disse que Mirisola fez um romance de deformação, em relação a esse livro, que também me fez rolar de rir) e seu personagem, Marcelo Mirisola, é um escroto de marca maior, na linhagem de Memórias do subsolo.

É um livro fantástico, arrebatado de uma poesia intensa e uma tristeza velada pelos palavrões, um drama interior suspenso pela violência verbal, pela descarga de ódio em tudo quanto é tipo e coisa, com raras concessões. “Alguma coisa, imagino, devia estar errada pro Kid Abelha (Paulinha Toller fica fora desta bandalha) se dar bem, em 1984.

Ofensas a quem?

O azul reconstrói, e de alguma forma destrói, a vida inteira das décadas de 1980 e 1990. Mas é bom que se saiba que o escritor Marcelo Mirisola definitivamente não é exatamente o personagem que aparece no livro, é um duplo (dúbio), esse troço comum da literatura contemporânea.

Entre as passagens mais raivosas, o leitor pode ler coisas do tipo:

“Uma vez enfiei o garfo no braço da faxineira. A negrinha servia pras minhas cavalgadas. Tenho fotos.”

“Adorei ver o Senna espatifado na Tamburello. Um dia vou festejar a morte do Ed Motta.”

“Para mim, os editores – com exceção do meu que está pagando uma merreca pr’eu escrever este livro – são todos uns chupadores de pica, analfabetos, cegos por opção, degenerados, mercenários e débeis mentais. Vale a mesma coisa pros jurados de concursos literários e pros poetas em geral. Odeio poetas.”

“Pior que poeta, só livro psicografado. Esse tal de Emmanuel é um espírito de porco, apenas não é mais covarde, tarado e mau caráter do que escritor de livro infantil (incluo aí os autores de autoajuda e policiais, enredo é coisa de criança). Os irmãos Gasparetto o recebem (ou gerenciam, o tal do Emmanuel) via anal – de quatro – bundinha virada pros céus. A mãe deles, dona Zíbia, é a cópia fiel da minha madrinha, vai na mesma cabeleireira. Fui batizado na Igreja do Calvário. Os exus e orixás, todavia, são mais honestos porque são deliberadamente analfabetos, não escrevem livros bem-intencionados. Sincretismo dá nisso.”

Talvez por isso, o amigo de Mirisola me achasse inadequado para a leitura, porque sou negro. Para ele, me sentiria ofendido, como se a literatura não fosse feita para transgredir. É claro que a transgressão tem algo que vai além dos insultos gratuitos.

Há ali uma concepção estética, que passa pela técnica de narrar e pela capacidade do autor de rearranjar o mundo de modo que um novo sentido apareça, uma verdade escondida pela estampa da ética, pelos lençóis estendidos no varal das convenções, que tapam os outros sóis.

Os outros

Hoje, na Folha de São Paulo (Ilustrada), saiu um apanhado sobre Mirisola, a propósito do lançamento de seu livro mais recente, Charque (Companhia das Letras), com texto assinado por Josélia Aguiar.

“Charque, novo livro de Marcelo Mirisola, é uma continuação de ‘Azul do Filho Morto’ (2002), apontado por escritores e resenhistas como a melhor entre suas 12 obras.”, diz Josélia.

E aí desfia a novela em torno do autor. “Na década que separa os dois livros, o autor apareceu mais na web e na imprensa por fanfarras e polêmicas. Tantas que afastaram colegas, curadores e críticos e o tornaram difícil de tratar até em reportagens. ‘Mirisola equivale àquele tio que adora mostrar o cofrinho peludo nas festinhas de aniversário’, define Joca Terron, o único que aceitou fazer críticas às claras.”

“‘Não li o novo livro, mas ele parece ter parado em ‘Azul’. Os mais recentes, assim como as entrevistas, por sua ingenuidade e ressentimento, me causam profunda vergonha alheia’”, continua Joca Reiners Terron, que também é escritor.

Apesar de sua saga de “escritor em busca de uma resenha”, conforme diz Josélia (que, aliás, deveria ser o título da matéria dela), há quem o elogie, segundo a própria jornalista. “Reinaldo Moraes e Marcelo Rubens Paiva elogiaram o novo livro.”

Mas é Marcelino Freire quem rouba a cena nesse quesito de elogios. Ele diz que “morre de rir com tudo isso.”

“‘Mirisola já falou mal de mim em blog, em livro, direta e indiretamente, já condenou o meu Jaburu, o meu Jabuti, já me chamou de Pavão Cabeçudo. Ele não me atinge. A sua literatura, sim, me atinge. Quero saber o que o Mirisola aprontou, como está avançando a sua literatura’”, diz Freire.

Na ocasião que encontrei Mirisola, por acaso, no Sebo do Bac, não me parecia um homem angustiado. Ele foi capaz de me incluir na sua roda de conversas sem nenhum tipo de arrogância. Acho mesmo que aquele cara que vi lá, naquele dia, é o próprio Mirisola, tranquilo, bebendo sua cerveja. O resto é literatura.

A tempo. Comprei o livro dele e pedi que assinasse. Ele escreveu um autógrafo, em letras garranchais, que até hoje na consegui ler. Na leitura de O azul do filho morto não me senti ofendido. Será que sou ofendido nesse autógrafo?