domingo, 29 de maio de 2011

A rica herança dos pampas



O gaúcho, aquele de fala tradicional, que arrasta no sotaque, segura a palavra com tanto amor que parece até querer guardá-la no cativeiro afetivo do verbo. Para ler Contos gauchescos, de João Simões Lopes Neto (1865-1916), é imprescindível não se esquecer disso. E aí, é só se entregar ao mundo mágico de entreveros e labutas dos pampas do século XIX.

A literatura brasileira tem uma larga dívida com este livrinho que encerra 18 contos, e vem pagando bem a parte que lhe cabe. Obra-prima publicada originalmente em 1912, ainda se mantém presente no prelo de grandes editoras. A Ática, por exemplo, lançou sua décima edição, em 2010 (128 páginas, R$ 21,90, com ótimo prefácio de Moacyr Scliar).

Os contos dão grande ideia de movimentação. Narrado por Blau Nunes, especialista em rastrear animais e pessoas, o livro traz a atmosfera dos pampas, não só do Rio Grande do Sul, mas da região dos gauchos (sem acento), banhada pelo rio da Prata, que pega parte do Brasil, Uruguai e Argentina, com vocabulário que também vem da língua espanhola.

Neste sentido, Contos gauchescos se integra a uma espécie de cânone da literatura fronteiriça, e acaba sendo mais que uma obra regional. Basta lembrar de Cavalos do amanhecer, de Mario Arregui, e Contos de amor, de loucura e de morte, de Horacio Quiroga, ambos autores uruguaios.

Amor e morte também são a tônica do livro de Lopes Neto. Os acontecimentos dos pampas são marcados pelos sentimentos de coragem e bravura, pela força de grandes paixões e aventuras em sangue, hombridade, nobreza e baixeza.

No conto Os cabelos da china, é possível ver essa dinâmica com bastante clareza, dialogando inclusive com os elementos de outra tradição literária, a do sertão, como em Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa. Aliás, não é por acaso que o tecido da prosa roseana é confeccionado tão próximo da fala cotidiana. Há forte influência do autor gaúcho.

Matizes

O amadurecimento da obra regionalista brasileira, até desaguar na expressão máxima de Rosa, passou pela leitura de Lopes Neto, sem dúvida. Outro escritor talentoso que tentou inscrever sua marca nessa mesma linha foi o paranaense Wilson Bueno, que morreu em 2010, mas deixou um fruto admirável desse esforço.

Pelo menos dois importantes livros de Bueno foram criados entre o sotaque gaúcho, ou sulista, e o formidável trabalho poético da linguagem em prosa: as novelas Mar Paraguayo e Meu tio Roseno, a cavalo.

No caso de Contos gauchescos, os matizes do verbo também mudam conforme o conto. Em alguns, o riso fica mais à vista. Em outros, o drama. E às vezes, a narrativa abre passagem para a tragédia rasgada, como em vários contos.

Um exemplo dessa veia aberta do trágico é No manantial, em que um rapaz se apaixona por uma bela moça, e quando ela fica noiva de outro, o primeiro não se conforma e a persegue, causando a morte de muita gente.

Os personagens de Lopes Neto são peões, tropeiros a serviço de chefes e caudilhos. O próprio narrador, Blau, já bastante velho no momento de suas narrações, foi um desses homens que lutaram em todas as guerras do século XIX, período de formação da cultura gaúcha por excelência.

Nascido no começo daquele século, Blau testemunhou a Guerra Cisplatina, em 1827, e lutou na Guerra dos Farrapos (1835-45), sob o comando do general Bento Gonçalves. Também participou da Guerra do Paraguai (1864-70), como sargento, às rédeas de Duque de Caxias.

Precursor

Blau é um personagem fictício, e sua inserção nos fatos históricos confere a ele uma credibilidade que ajuda o leitor a fincar interesse nas histórias narradas. Todas as informações sobre sua vida, entre uma conversa e outra, é ele mesmo que vai contando.

Neste sentido, o personagem de Lopes Neto é um precursor de Riobaldo, o narrador de Grande sertão: veredas. Isso porque todos os relatos de Blau são contados em rodas de conversas e mate, narrados a terceiros que o escutam com grande atenção, inclusive interrompendo-o para garimpar detalhes da história ou expressar espanto.

A linguagem às vezes soa como um monólogo teatral. O que não revela surpresa. O autor de Contos gauchesco fez mais sucesso em sua época com as peças de teatro que escrevia do que com sua prosa. No total, foram oito textos, todos de comédia.

O cômico que perpassa alguns de seus contos está mais acentuado em Chasque do imperador. Ali também pode se ver a fala cotidiana estilizada que encantou Rosa. "Sou um gaúcho mui cru", diz Blau. "Mas para cumprir ordens e dar o pelego, tão bom haverá, melhor que eu, não."

Ou, ao descrever o imperador Dom Pedro II:

Eu pensava que o imperador era um homem diferente dos outros... assim todo de ouro, todo de brilhantes, com olhos de pedras finas...

Mas, não senhor, era um homem de carne e osso, igual aos outros... mas como quera... uma cara tão séria... e um jeito ao mesmo tempo tão sereno e tão mandador, que deixava um qualquer de rédea no chão!...

O riso

Chasque do imperador seria a ilha de risos no mar de sangue de Contos gauchescos. Retrata a simplicidade de d. Pedro II, ao visitar uma cidade gaúcha, Uruguaiana, cenário da Guerra do Paraguai, quando soldados brasileiros e aliados (argentinos e uruguaios) a retomaram das forças inimigas.

Dom Pedro foi viajando em comitiva, cercado de homens de confiança, e Blau foi escolhido por Duque de Caxias para ser o ordenança do imperador. Blau já contou como a imagem de d. Pedro atrapalhava nas tarefas cotidianas para servi-lo.

Achavam, por exemplo, que o imperador, não só por ser a autoridade máxima do país, mas por representar uma classe muito superior aos súditos e ser mui fino, só se alimentava de iguarias finas e manjares, como doces. Para eles, d. Pedro era "meio maricas."

No meio do caminho rumo a Uruguaiana, tiveram de pousar em certa cidade. Foi quando se deram conta da condição de pessoa comum de sua majestade:

O imperador foi hospedado em casa dum fulano, sujeito pesado, porém mui gauchão.

Quando foi hora do almoço, na mesa só havia doces e doces... e nada mais. O imperador, por cerimônia provou alguns; a comitiva arriou aqueles cerros açucarados. Quando foi o jantar, a mesma cousa: doces e mais doces!... Para não desgostar o homem, o imperador ainda serviu-se, mas pouco; e de noite, outra vez, chá e doces!

O imperador, com toda a sua imperadorice, gurniu fome!

No outro dia, de manhã, o fulano foi saber como o hóspede havia passado a noite e ao mesmo tempo acompanhava um rica bandeja com chá e... doces...

Aí o imperador não pôde mais... estava enfarado!...

— Meu amigo, os doces são magníficos... mas eu agradecia-lhe muito se me arranjasse antes um feijãozinho... uma lasca de carne...

O homem ficou sério... e depois largou uma risada.

— Quê! Pois vossa majestade come carne?! Disseram-me que as pessoas reais só se tratavam a bicos de rouxinóis e doces e pasteizinhos!... Por que não disse antes, senhor? Com trezentos diabos!... Ora esta!... Vamos já a um churrasco... que eu, também, não aguento estas porquerias!...

Dicção

Esta história provavelmente não foi inventada por Lopes Neto, mas a maneira de contá-la é forjada num estilo literário que trouxe o autor aos dias de hoje. Em Contos gauchescos temos a oportunidade ler um país profundo.

Podemos ver hoje que os termos de um velho Rio Grande ainda cintilam no céu cada vez mais tumultuado de urbanidade. Na época da ambientação desses contos, Porto Alegre ainda era considerada uma vila, e a grande cidade era Pelotas, rica e influente, terra natal do autor.

Ao ler Contos gauchescos, o leitor não pode se esquecer do sotaque, da dicção própria do povo daquelas bandas, gaucheando sempre, alegre na hora de churrasquear, matear, sestear, que não perde a chance de pôr no substantivo um verbo mais carregado de sentido.

(Gilberto G. Pereira. Originalmente publicado na Tribuna do Planalto, 15/05/2011)

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Entre Tiririca e Beirut



A Banda Mais Bonita da Cidade, de Curitiba, em uma semana fez o que marmanjos geniais e leves não fazem em anos, conquistar a mídia. Viraram uma espécie de gripe suína da canção do Youtube. E são bons, são bons mesmos.

A música que os levou ao estrelato é uma composição simples, Oração, mas cheia de sentimento rasgado, com dois versos (quer dizer, parecem ser os únicos da canção) bonitos como o diabo. O sujeito poético da canção diz a alguém: “Coração não é tão simples quanto pensa/ Nele cabe o que não cabe na dispensa.”

O vídeo, filmado despretensiosamente, foi o palito de fósforo do sucesso. Quem verificar o clipe de Elephant Gun, de Beirut, verá várias semelhanças de enquadramento, além da semelhança do próprio som. Outra coisa que chama a atenção é a insistente repetição dos versos, como se fosse uma versão cult de Florentina de Jesus.

É lindo. Dá uma vontade danada de sair cantando pelas ruas da cidade. O problema é que, na cidade onde moro (e olha que está longe de ser São Paulo), se eu fizer isso serei atropelado. Uma pena. Vou dispensar a dança pela rua, mas não dispensarei ainda a bela canção, que já tem 3 milhões de acessos no Youtube (Veja).

Para mim, o mais legal de tudo isso é ser uma banda de Curitiba se apresentando ao mundo com uma nova proposta de vida. Ser feliz. Foi o que disse à Folha de S. Paulo um membro da banda. Muita gente critica a música e o clipe porque todos somos muito felizes, disseram.

Isso é ótimo. Gostei muito da declaração. Morei em Curitiba três anos. E o que os curitibanos não demonstram muito é a tal felicidade, a joie de vivre. A música da Banda Mais Bonita da Cidade, pelo menos esta, é incrível, num clipe simples e uma canção modesta, mas com bastante vigor e lirismo.

Sem medo de falar de amor. Outra novidade em Curitiba. Os curitibanos querem deixar o frio e a solidão, para mergulhar no sol da vida, para reivindicar o que outros, como os cariocas, têm de sobra, a felicidade, seja lá o que seja isso.

Os curitibanos, na pessoa da banda, os curitibanos, querem pôr na geladeira, por uns tempos, as presas afinadas do vampiro. Bravo!

terça-feira, 24 de maio de 2011

Morre Abdias Nascimento, líder da consciência negra brasileira

Abdias Nascimento (1914-2011)

Polêmico combatente do racismo, criador de diversos eventos e instituições que ajudaram o Brasil negro a se fortalecer contra a discriminação racial, Abdias Nascimento morreu nesta terça-feira aos 97 anos. A notícia do falecimento foi dada pela imprensa, como o Jornal Hoje, da Rede Globo, por exemplo, que dedicou dez segundos à morte do líder negro.

Nascido em 1914, numa fazenda em Franca, interior de São Paulo, Nascimento foi abrindo caminho na sutileza do racismo à brasileira. Não foi o pioneiro da luta contra a discriminação no Brasil (Luiz Gama, veio primeiro, ainda no século XIX), mas deixou sua contribuição.

Em 1944, Fundou o Teatro Experimental Negro, na tentativa de formar atores e autores afrodescendentes para, ente outras ações, atuar em peças dessas temáticas que até então eram encenadas por brancos tingidos de preto.

Nascimento foi autodidata na maioria das atuações em que se engajou, como nos estudos da cultura africana, mas se graduou em Economia e fez pós-graduação em Estudos do Mar. Viveu um tempo no exílio, quando conheceu sua mulher Elisa Larkin, e ao voltar, criou o Instituto de Pesquisa e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro), em 1981.

Fez grandes amizades com brancos e negros, mas sempre combateu a ideia de que o negro precisa da piedade branca para se autoafirmar. Nelson Rodrigues, que o considerava “o único preto autêntico do Brasil”, escreveu a peça trágica Anjo negro pensando em Nascimento como ator para interpretar o papel principal.

Foi jornalista, ator, autor, escritor, artista plástico, mas acima de tudo um mestre que delineou o cerne do enfrentamento contra o racismo no Brasil do século XX. As histórias são múltiplas. No Senado Federal, redigiu o projeto que instituiu o Prêmio Cruz e Souza, o Dia Nacional da Consciência Negra e uma série de outros projetos que ajudaram na criação da Lei de Combate ao Racismo (Lei Nº 3.926/2010).

Em 1969, o Teatro Experimental Negro promoveu o Primeiro Congresso do Negro Brasileiro, cujos textos e apresentações deram origem ao livro O negro revoltado, organizado por Nascimento. Em 1982, o livro foi ampliado e reeditado, e hoje é uma relíquia do pensamento combativo e da capacidade de organização intelectual da comunidade negra brasileira.

Segundo Joel Rufino, um jovem intelectual no final da década de 1960 – e hoje um consagrado escritor brasileiro –, Nascimento procurava convencer a consciência negra de que a contradição racial era mais importante do que a luta de classes.

Mas muitos relutavam em aceitar tal ideia. Em 1982, no relançamento de O negro revoltado (claramente baseado nas argumentações filosóficas de Albert Camus), Rufino se redime para dizer:

“De lá para cá, aprendemos bastante para ver que a luta de classes não passa de uma boa e velha lei – confortável e grosseira. Corresponde a uma verdade, sem dúvida, como a lei da gravitação universal; mas só com ela nada compreenderíamos, hoje, da sociedade brasileira, como nada compreenderíamos – por analogia – do universo, sem as formas de interação magnética e nuclear, que nossos bisavós ignoravam. Abdias tinha, vejo agora, mais razão que nós.”

Atualmente, a consciência negra brasileira avançou, se desenvolveu e está muito mais bem arranjada intelectualmente, com muito mais negros capazes de pensar nossa realidade. O que falta são espaços na mídia. Mas é outro assunto.

Em todo caso, Nascimento ainda continua tendo razão, e continuará por um bom tempo, quando fala da carência de literatura de temática negra escrita por escritores negros de peso:

“Até a década de 1970, por conta do racismo e do preconceito, este país ainda não havia produzido uma geração de escritores negros. Até então, o que tínhamos eram exceções, escritores negros isolados, solitários, perdidos num mar de branquidão, como se fossem, em cada época, mosca no leite da palavra.”

Nascimento teve boa vontade ao sugerir que daquela época para cá a seara cresceu. Pode ter crescido, mas ainda é pouco, pela representatividade social que somos. Nossa consciência, como coletividade negra capaz de se refletir na arte e nas letras ainda precisa desenvolver mais.

Este post é apenas para não deixar passar em branco a data da morte desse guerreiro, polêmico até o fim. Muitas histórias de sua vida pessoal são criticadas. Muitas delas ele esclarece em Abdias Nascimento – o griot e as muralhas, escrito a quaro mãos, junto com Éle Semog.

Outras virão à tona em biografias mais isentas, agora que ele morreu. Mas a lembrança de que foi um grande combatente em favor das causas negras permanecerá, como ainda permanece o objeto da luta, o racismo.

Alguns não veem o racismo, outros não querem ver, e tantos outros, talvez a maioria, fazem uma tremenda confusão entre racismo e preconceito que só ajuda a engrossar a névoa do cinismo no Brasil. Ao escancarar esse cinismo é que Nascimento foi muitas vezes rechaçado.

Parte da elite intelectual branca brasileira, a que acha que são os únicos capazes de falar de sociologia no Brasil, os únicos donos da verdade sobre o conflito racial brasileiro, bloqueiam o discurso de Nascimento. Mas ele continuará falando aos interessados.

Seus escritores permanecem. Estão aí. Quem se interessar pelo esclarecimento necessário, poderá ouvir a voz dele:

“Sei muito bem que meu discurso costuma ser desagradável num país que se acostumou a achar que negros bons são aqueles que conhecem o ‘seu lugar’, que é o da submissão e o da inferioridade.”

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Philip Roth vence o Man Booker International

Philip Roth (1933 - )

O vencedor do Man Booker International 2011 é o escritor norte-americano Philip Roth, autor de Complexo de Portnoy, Pastoral Americana, O teatro de Sabbath, Animal agonizante e tantos outros romances exemplares.

Num lance de humildade, Roth disse que o prêmio inglês pode servir para divulgar mais sua obra em todo o mundo. O romancista, que sempre bate na trave do Nobel de Literatura, levou para casa 68,4 mil euros (cerca de R$ 150 mil).

sábado, 14 de maio de 2011

A literatura nas frases de James Wood

James Wood (1965 - )

Gostei mesmo de Como funciona a ficção (CosacNaify, 2011, 232 páginas, tradução de Denise Bottmann), de James Wood. Achei Wood simpático, mesmo não concordando com tudo que ele diz.

Ele sabe mais do que eu, isso é verdade, mas em alguns momentos parece se deixar levar por uma grande empolgação estética na linha de romances que prefere. O que é legítimo. Mesmo assim, ou talvez por isso, gostei.

O que me fez gostar dele, e desse livro, em particular, é essa capacidade de conversar com o leitor. Como se eu pudesse dizer “pêra aí, Jim, também não exagera!”, ou, “Pô, cara, que sacada genial!”.

Nas frases abaixo, uma aula de bolso mindin’. Aqui, Wood deixa transparecer seu interesse particular pela linguagem do romance, e argumenta com bastante sustentação a importância literária deste gênero.

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“A memória seleciona, mas não do jeito que a narrativa literária seleciona. Nossas lembranças não possuem talento estético.”

“O romancista inexperiente se prende ao estático, porque é muito mais fácil de descrever do que o móvel: o difícil é tirar as pessoas desse amálgama estagnado e movimentá-las numa cena.”

“O personagem desliza por entre nossas percepções mutáveis, como um barco se movendo por entre barragens.”

“O romance é o grande virtuose da excepcionalidade: sempre se esquiva às regras que lhe são ditadas.”

“Creio que os romances tendem a falhar não quando os personagens não são vívidos ou profundos o suficiente, e sim quando o romance em questão não nos ensina como nos adaptar a suas convenções, não desperta uma fome específica por seus personagens, por seu grau de realidade.”

“No romance, podemos ver o eu melhor do que em qualquer outra forma literária.”

“O romance nos mostrou um avanço técnico assombroso na capacidade de construir um enredo e em nos permitir enxergar a motivação psicológica.”

“A novidade é o único mérito num romance, e a curiosidade o único motivo que nos leva a lê-lo.”

Diante de Saul Bellow, “um dos maiores estilistas da prosa norte-americana (...), até autores de andar ligeiro – os Updikes, os DeLillos, os Roths – parecem pernetas.”

“Toda metáfora ou símile é uma pequena explosão de ficção dentro da ficção maior do conto ou do romance.”

“Nenhum detalhe na literatura é exclusivamente visual.”

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Quero a TRIP de abril pra mim


Não leio a revista TRIP com regularidade. Não leio um monte de coisas com regularidade. Aliás, não leio porra nenhuma com regularidade. Só por isso, só agora, pude ler uma das melhores edições da TRIP, ao meu ver, por mim, porque li ali uma entrevista com o rapper Emicida.

Genial. Meu espírito tem essa mistura, a mesma dele. Também sou negro (mestiço, mulato, que seja). Também sou pobre. Só não sou tão talentoso que nem ele. Mas, caramba, sei apreciar a inteligência alheia. Gosto disso.

A revista em questão é a TRIP do mês de abril. A última edição que eu havia lido foi uma em que Lobão e Caetano Veloso travavam um debate pra lá de engraçado (encarei assim), em 2001, acho. Talvez tenha sido o único número da TRIP que li. Mas esta, quero pra mim.

A entrevista, com respostas engraçadas, brilhantes, conscientes, feita por Pedro Alexandre Sanches, é boa demais para ficar só no esquadro da revista. Mas eles é que fizeram o troço. É justo que fique lá, no site e no físico dela mesma. Reproduzo aqui só alguma parte do pingue-pongue, e deixo de lado o incrível e delicioso texto de abertura de Sanches.

Deixo como isca para quem, ainda não leu, claro, quiser procurar a fonte (clique aqui).

Você sofria bullying na infância?

Sempre. Me zoavam porque eu não tinha pai, porque eu não tinha meias, porque eu era preto. Mesmo em escola de quebrada, tive o azar de ser o único negro. Até tinha outros, mas que não se comportavam como pretos, meninas que alisavam o cabelo. Era “cabelo de bombril”, “macaco”, até a professora dava risada.

Você conta que aprendeu a fazer rap com um pastor, quando era pequeno e frequentava a igreja.

É, eu venho dessa linhagem aí. Eu achava a macumba mais divertida, ficava ligado no batuque, mas o texto dos pastores influenciou meu freestyle, esse lance de persuadir as pessoas.

Jacira [mãe do rapper]: Nós éramos integrantes da Igreja católica e do Movimento Sem-Terra. Já dormi muito em acampamento sem-terra com esses meninos. Eu era católica porque minha mãe era, toda a vida achei um saco. Um dia chutei o pau da barraca. Fazia parte do grupo Filhas de Maria, mandei todo mundo pra casa do caralho, tinha umas saias compridas, cortei e de cada saia fiz três. Aí fomos pra Universal.

Emicida: Assim que meu pai morreu a gente colava nesse bagulho, mais porque depois do culto sempre rolava um rango.

Jacira: O pai dele era disc jockey. Ele não conseguia baile pra fazer, começou a trabalhar como metalúrgico, depois a pegar ferro-velho na rua. Aí começou a beber.

Emicida: Colou nos espíritos sem luz.

Qual é a história do Seu Eduardo [padrasto do rapper] com funerária?

Ele dava flores pra minha mãe, chegava todo dia com um maço de rosas, que homem romântico. Aí descobrimos que ele trabalhava na funerária, começamos a falar que ele arrancava flor do caixão... Minha escola musical foi essa aí, minha mãe escutava essas músicas de MPB, de dor de cotovelo. E as modas de viola do seu Eduardo eram sofridas pra caralho, mas tem a maior semelhança com o rap.

Você acha? Nunca imaginei.

Porra, os caras da moda de viola gostavam de dar umas ideias firmeza: “Mundo velho não tem jeito, já não endireita mais/ os filhos de hoje em dia já não obedecem os pais/ é o começo do fim, já estou vendo sinais/ metade da mocidade estão virando marginais” [versos de “A vaca foi pro brejo”, de Tião Carreiro & Pardinho]. Era uma coisa de alertar a sociedade, o rap também tinha essa postura.

Por que você gravou uma música com o NX Zero?

Porque eu gosto de NX Zero. Podem achar que traí o rap, mas eu gosto do NX Zero, eles me convidaram, qual o problema? Gravar com eles ampliou meu público, eu quero ser conhecido. Eu penso estrategicamente, não tenho culpa se os caras do rap não fazem isso. A gente tem três músicas de periferia hoje no Brasil: o rap, o funk e o tecnobrega do Pará. Um dia vai ter que unificar tudo isso, porque é tudo a mesma coisa, música de periferia.

Você faria um rap misturado com funk?

Faria. Nem toda letra de funk presta, mas o som do funk é bom, é cheio de batida, de batuque. Eu não acho ruim pensar minha carreira estrategicamente. O rap nacional nunca teve um boom comercial porque não tem um grupo de rap que seja autêntico e ao mesmo tempo seja comercialmente viável pras gravadoras. O único cara que foi longe foi o Marcelo D2. São Paulo é a terra do rap no Brasil, mas tirando Racionais não tem um grupo de expressão monstruosa. Os rappers que têm uma disseminação maior são todos do Rio, D2, Gabriel o Pensador, MV Bill. Um amigo da minha mãe falou: “O que eu gosto do seu rap é que ele foge desses racionaisismos”. Ele fala como se fosse uma religião, o “racionaisismo”. Os Racionais têm um peso ideológico foda pra nós, é a nossa história, mas até hoje o argumento mais forte deles é que não vão na mídia. E eu, cada vez que vou, sou apedrejado, como se eu fosse o Mano Brown, como se eu tivesse dito as coisas que ele diz. Nas favelas a regra é essa, os caras me cobravam: “Mas não tem o pacto dos rappers de não ir na mídia?”. Que pacto, mano?

Você fica à vontade tocando em clubes de playboy?

Eu vejo cara na internet dizendo que eu canto pros caras que me discriminaram a vida inteira. Isso é um argumento muito vazio. Sou filho adotivo dum branco. Minha mãe trampava de empregada, eu ia com ela lá nas mansões. Eu achava do caralho. Era favelado só durante a noite, durante o dia eu morava em casa de rico [risos]. Minha mãe trampou pra patrão cuzão, mas também pra arquiteto que deixava eu ficar desenhando. Via escultura, tinha livro pra caralho, podia ficar vendo TV a cabo.

Mas como é tocar para esse público?

Tem uns momentos que entro num conflito, mas sinto que esse conflito é por causa do rap, não por eu estar num lugar estranho. Não posso escolher quem compra meus CDs e vai no meu show. Se eu for tocar no Japão o que eu vou fazer? Vou mandar importar uns pretos? (...) Na cabeça de vários caras do rap, o rap que eu faço é de boy porque é inteligente.

O rap brasileiro nasceu lutando contra o racismo, mas era também misógino, homofóbico. Emicida é rapper, logo...

... Emicida é a contramão de várias dessas coisas aí. Mas, vou te falar uma parada, o rap não nasceu combatendo o racismo. O primeiro rap era de festa: “Fiquei sabendo, tem um tal de Pepeu/ que canta rap bem melhor do que eu”. Mas aí sabe o que aconteceu? Chegou NWA, Public Enemy, o rap gringo de protesto. Levou-se pra um lado consciente e daí foi pra um lado gangsta. Em 2000 veio o boom comercial com Jay-Z, rapper milionário. A gente tá sendo tão ridículo quanto os gringos, pegando o que há de pior no rap lá de fora, a casca. Rihanna apanha do namorado, quer processar, mas ela mesma se porta como puta. Do jeito que elas admitem ser tratadas, elas tão sendo agredidas de outra forma. Você cria uma sociedade doente.

Você vai matar o rap?

O que os caras vão fazer da música deles eu não sei, mas eu vou cantar com [a sambista] Fabiana Cozza e me sinto pequeno. Não quero me sentir pequeno. Por isso falo que não sei se o que vou fazer vai ser chamado de rap ou se vai ser rap. Falam que Gabriel o Pensador não é rap. Pra mim é, e um dos mais fodas que tem. A favela adora ele, sabe por quê? Porque ele é sincero na música dele, não tá de patifaria.

Frase avulsa retirada do turbilhão

“A polícia não registra BO de racismo. Não registra porque é inafiançável, se registrar tem que prender e, se prender, tem que trabalhar.”

terça-feira, 3 de maio de 2011

A anatomia do detalhe




Se fôssemos ler todos os manuais que pretendem revelar os segredos da ficção, passaríamos a vida inteira sem mergulhar no prazer da leitura de romances, contos e novelas. Mas alguns desses livros oferecem um teor à altura das grandes prosas, porque seus autores sabem dialogar com o leitor.

Um exemplo formidável dessa fauna é Como funciona a ficção (CosacNaify, 2011, 232 páginas, R$ 49, tradução de Denise Bottmann), do crítico inglês James Wood. O autor fala da vasta gama de elementos da composição do romance, mas sua grande contribuição aqui é a desfiadura da prosa, é sua capacidade de fazer emergir o mais recôndito detalhe da massa do texto literário.

Logo no primeiro capítulo, Wood constrói seu campo de batalha, ou seu salão de festas. Ele cita uma frase do escritor alemão G. W. Sebald (1944-2001), para o qual "a literatura que não admite a incerteza do narrador é uma forma de impostura difícil de tolerar (...). É inaceitável qualquer forma de escrita em que o narrador se estabelece como operário, diretor, juiz e testamenteiro."

Wood faz a citação para contra-argumentar, para ir em defesa do discurso indireto livre, usado na literatura em terceira pessoa, combatida por Sebald. O cerne dessa crise é o grau de confiabilidade do narrador, que, narrando em terceira pessoa, pode se apresentar como onisciente, sugerindo saber até onde se posiciona a vírgula no pensamento do personagem.

A observação é pertinente, mas Wood contra-argumenta com mais perspicácia. Segundo ele, o narrador em primeira pessoa pode ser mais confiável (o que é negativo) do que o da terceira. A partir daí, o autor cita uma série de exemplos em que o discurso indireto livre se mostra mais ressonante do que qualquer outro tipo de discurso narrativo.

Num momento em que lemos uma biblioteca inteira de narrativas do 'eu', vale olhar para este pequeno tratado. Ele nos ensina que há determinados pontos de realidade que só a imaginação é capaz de alcançar.

E este alcance, muitas vezes, se faz melhor com o estilo indireto livre, aquele em que a voz do narrador, dos personagens e do autor se encontram no corpo do texto sem nenhum tipo de ressalva.

Expressividade

Wood tem uma espécie de habilidade de puxar com a pinça o detalhe mínimo, "expressivo e brilhante", que esclarece a compreensão do texto literário. Segundo ele, é no detalhe que está a expressividade da narrativa. E nos mostra isso, nos prova isso com diversos exemplos pescados nos mais brilhantes escritores.

Cita o trecho de um conto de James Joyce, "Os mortos", só para mostrar a sutileza do discurso indireto livre: "'Lily, a filha do zelador, estava literalmente com o coração na boca.' Mas ninguém fica literalmente com o coração", argumenta Wood.

Ele então acrescenta: "O que ouvimos [pela voz do narrador] é Lily dizendo a si mesma ou a algum amigo (com grande ênfase justamente na expressão mais imprópria, e com sotaque bem carregado): 'Eu 'tava lite-ra-menti co'o coração na boca'."

A apreciação do detalhe é coisa da literatura moderna. A clássica não se importava com o detalhe 'gratuito'. Quem deu ênfase a esse enfoque, quem praticamente o criou foi o francês Gustave Flaubert. É ele quem perpassa quase todo o texto de Wood, é a grande referência para todos os autores depois dele, inclusive Joyce.

"Os romancistas deveriam agradecer a Flaubert como os poetas agradecem à primavera", diz Wood, forçando a corda da ironia pelo lado dos poetas. Mas isso também faz parte do show, deste diálogo intenso e ao mesmo tempo leve, engraçado, cheio de blagues e reflexões inteligentes, que nos põe como parte da discussão.

Na comparação entre clássico e moderno, a temporalidade também é trabalhada noutro tipo de forma. Na literatura clássica, o tempo passa de maneira diferente, em tragos mais longos, talagadas que ceifam enormidades de detalhes (prisioneiros confortáveis desses intervalos supostamente ignorados).

É como se na literatura clássica se devesse olhar para cima, com binóculos ou telescópios, para ver o objeto literário. Já na moderna, o movimento é o contrário disso, devendo-se olhar para baixo, com lupa, um aparelho microscópio, ou como quem fotografa insetos com teleobjetivas. Segundo Wood, no último caso, quem nos mostrou como se faz foi Flaubert.

Engrenagem

Como funciona a ficção prima pela minuciosa análise do discurso indireto livre. A leitura do detalhe é a marca de Wood. Mas há muito mais coisas ali que ultrapassam o universo flaubertiano e discute toda a engrenagem da prosa. No capítulo "Uma breve história da consciência", nosso autor lida com peixes grandes, muitas vezes em águas profundas, citando exemplos de Dostoievski e Proust.

De vez em quando, ele também roça o dedo em detalhes de sua própria vida para ilustrar seu material de análise.

Questiona o conceito de personagens redondos e planos, de E. M. Forster, pondo no lugar os termos 'transparente' e 'opaco'. Questiona o conceito de realismo, mas não o nega enquanto linguagem. "O real está na base de minhas indagações", diz ele. O problema é que "o realismo comercial monopolizou o mercado e se tornou a marca literária mais poderosa."

Mas a rabugice de muitos críticos não procede, segundo ele. "A reclamação de que o realismo não passa de uma gramática ou de um conjunto de regras que obscurece a vida realmente se aplica melhor a [John] Le Carré ou P. D. James do que a Flaubert, George Eliot ou Isherwood."

E mais adiante arremata: "O gênero mais privilegiado em termos econômicos dentro desse 'realismo' totalmente apático é o cinema comercial, de onde a maioria das pessoas, hoje em dia, extrai a ideia do que é uma narrativa 'realista'."

Real diverso

O interessante dessa observação é que há outros tipos de realismo que parecem não interessar a Wood, mas que também estão longe de ser um um espaço "em que o maquinário da convenção está tão enferrujado que nada se move (sic)". Dois exemplos são Franz Kafka e Gabriel García Márquez.

Os dois são citados uma única e mísera vez, embora ambos também tenham grande preocupação com a realidade como fonte (como todo grande escritor). O problema é que o primeiro descamba para o absurdo das convenções, e o segundo, que chegou a dizer "não há nos meus romances uma linha que não esteja baseada na realidade", verte o real para o fantástico e a hipérbole (mas nem tanto).

Seria preciso mais que isso para esgotar a conversa com Wood. Mas dá para fechar esse diálogo com o entrelaçamento entre vida e literatura, na encruzilhada da linguagem, a fonte da percepção. Segundo o autor, "na vida e na literatura, navegamos por entre a estrela dos detalhes."

É esta sua grande sacada, porque, como ele mesmo diz, a vida nos enche de detalhes aos quais nem prestamos atenção, embora possam ser importantíssimos na execução de nossas escolhas. "A literatura nos ensina a notar melhor a vida", argumenta, porque nela lemos melhor o detalhe, aprendendo assim a ler melhor a própria vida.


(Gilberto G. Pereira. Publicado originalmente na Tribuna do Planalto)