terça-feira, 26 de outubro de 2010

A questão humana



A editoria Estação Liberdade lançou um livrinho interessante do escritor belga François Emmanuel, A questão humana (2010, 84 páginas). Neste livro, Simon narra a experiência de ter se metido em intriga psicológica envolvendo dois diretores de uma empresa alemã, na filial francesa, onde ele fora contratado para fazer a seleção de pessoal e planejamento de seminários.

Como psicólogo, Simon tinha a missão de “despertar nos participantes a agressividade natural”. Mas certo dia, é solicitado por um dos diretores, Karl Rose, para uma missão diferente e paralela, a de investigar o estado de saúde mental de Mathias Jüst, outro executivo, sob a alegação de que o homem poderia estar doente e, neste caso, comprometeria o andamento da empresa.

Para manter o suspense do real motivo daquela missão, o autor se utiliza de uma série de técnicas tradicionais da literatura, misturando elementos narrativos como cartas, telefonemas, recados e visitas pessoais que sugerem novas pistas que vão revelando, aos poucos, uma rememoração do passado, da Segunda Guerra Mundial, dos absurdos nazistas, de sua burocracia precisa e macabra.

Serviço

Título: A questão humana
Autor: François Emmanuel
Editora: Estação Liberdade, 2010, 84 páginas
Gênero: Romance
Preço: R$ 29,80

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Sob o céu de agosto - romance de Gustavo Machado



“Um cinza azulado com umas manchas brancas que fatiavam em camadas espessas os muitos blocos de nuvens que se acavalavam como um caleidoscópio.” A esta cor o pintor Otto deu o nome de Céu de Agosto, e a perseguiu, tentou pintá-la de várias formas, em várias técnicas, mas fracassava sempre.

É com esta cor na alma que Otto repassa uma experiência terrível, de violência e assassinato, ao delegado Sampaio, depois de ser apanhado no cenário de um duplo assassinato. Enquanto responde o interrogatório, vai construindo a trama do romance.

O romance é o primeiro do escritor e jornalista gaúcho Gustavo Machado, intitulado Sob o céu de agosto (Dublinense, 2010, 168 páginas). Otto é um artista fracassado de 35 anos, órfão de pai e mãe, sem familiares e tem apenas um amigo, Téo, que lhe arranja emprego na prefeitura.

Ele mora sozinho num apartamento no centro de Porto Alegre, mas tem a companhia de uma garota de 15 anos chamada Albertina (Berta), que mora apenas com a mãe no apartamento de cima. Segundo ele, esta menina atiradinha o assedia o tempo inteiro, e ele foge da tentação.

No outro vértice do triângulo está Sophia, uma moça de 24 anos, casada com um barão da construção civil, de 61. Otto a conheceu nas aulas de pintura que ele ministrava na secretaria municipal de cultura.

Depois desse encontro é que a vida do pintor começa a se complicar em deliciosas e doloridas aventuras amorosas até culminar no acontecimento do crime que o leva à delegacia.

Arte e vida

Tendo como ponto de fundo a linguagem do romance policial, Sob o céu de agosto discute a relação entre arte e política e a dificuldade da arte autêntica sobreviver nos dias de hoje, vivendo sob o jugo do poder, da política, quase sem respirar de fato, sendo sufocada pela necessidade da sobrevivência diária.

Já falei em outra ocasião (na Tribuna do Planalto) sobre o que interessa neste romance. É o personagem de Otto. Bem construído, traz uma ambiguidade sutil em meio à verbosidade politicamente incorreta e à carga de humor chauvinista e de extrema ironia.

Otto se diz um sujeito ignorante, que só leu dois ou três livros na vida. Segundo ele, tudo que sabe sobre música, cinema e literatura aprendeu com Berta, a garota prodígio. Neste sentido, o romance também discute o fascínio dos quarentões (idade da qual Otto está próximo) pelas raparigas em flor.

Sob o céu de agosto é um romance que deve ser lido por quem gosta de acompanhar a literatura da nova geração, tanto pelo prazer de ler quanto pela curiosidade de se saber o que se está abordando, de que ponto de vista, que linguagem está sendo explorada. O cinema noir, por exemplo, está presente nessa narrativa. A música é muito forte também, como o jazz.

Círculo

No âmbito da discussão política, o autor explora os rumos do poder, para o bem e para o mal, como a ascensão de uma nova elite política, seu discurso, suas práticas, cujo jogo de interesses cria situações reais absurdas e uma sensação kafkiana do absurdo também.

O personagem tem um palíndromo no nome, o que o ajuda a enxergar sua circularidade, seu gosto pela repetição, e ajuda também a confundir o leitor, porque, sendo esférico, as duas pontas – a do sujeito que sabe o que está dizendo e a do que não sabe – estão ligadas.

Neste sentido, a própria fala do Otto pode servir de escudo para o autor, que utiliza seu personagem para pedir desculpas ao leitor pelas eventuais falhas de sua caracterização. Por exemplo, Otto, o tempo todo, se refere a certas cenas que ele mesmo descreve como chavões, clichês, mas não as evita, porque não pode.

“Muito clichê, já que não há romance sem clichê”, diz Otto, ironicamente, ao se lembrar de um momento entre ele e Berta. Irônico, mas também revelador de sua pedofilia (ou talvez seria melhor dizer hebofilia?).

“Levei nós dós para dentro, fechei a porta com um chute. Tudo muito cinematográfico”, recorda com ironia (mas também se desculpando), dessa vez de uma cena com Sophia.

Trechos

Além de frases isoladas, como “Chovia muito. O vento vindo do rio rugia como um animal machucado procurando a toca”, ou “um sorriso canastrão me deformou o rosto”, seguem dois trechos cujo conteúdo revela o caráter kafkiano e chauvinista, que deve ser atribuído à narrativa, à escolha estética, à maneira de ver o mundo do próprio narrador, não do autor. A este, deve-se apenas a técnica, imagino.

Estão dizendo, não interessa quem, estão dizendo que você confessou sob tortura. Acusam minha delegacia de abuso, maus-tratos, tentativa de extorsão, coisas assim. O próprio inquérito não chega a existir, foi desconsiderado pelas autoridades superiores. Este país está se perdendo por causa da sua gente. Até chegarem ao poder, eram fanáticos. Agora, pioraram muito. Seu caso, na verdade, é pura ficção. Coisa estranha, não acha?

“Era estranho mesmo. Tudo estava bem esquisito, mas não quis comentar. Uma pequena barata passou correndo, contornou o pé direito do delegado numa manobra apressada e se esgueirou pela rachadura horizontal que separava chão e parede.”

(...)

“Sophia guiou meu corpo meu rosto num passeio, despejou um pouco de vinho sobre o próprio colo, começou a percorrer todo meu corpo não muito musculoso com uma língua surpreendentemente ágil. Jogou-me de lado como se tivesse enjoado do brinquedo e, então, deitou-se no tapete, afastou as coxas com as mãos, acariciando-se bem de leve. Borboleta tatuada na virilha e pouquíssimo pelo escuro cobrindo uma boceta fantástica, de lábios rosados e delicados.

E daí?

Daí me desculpe, delegado, mas não é da sua conta.

Já conheço até a boceta da moça, mas o resto não é da minha conta. Muito pudico. Aconteceu alguma coisa estranha naquela noite?

Sim. Uma coisa que nenhuma mulher tinha feito comigo.

Sophia enfiou o dedo no seu rabo.


Serviço

Título: Sob o Céu de agosto
Autor: Gustavo Machado
Editora: Dublinense, 2010, 168 páginas
Gênero: Romance
Preço: R$ 35,00

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Vem aí novo livro de Gabriel García Márquez




O jornal Folha de S. Paulo desta quinta-feira anuncia:

García Márquez lança livro no fim do mês

“O colombiano publica em 29 de outubro na América Latina e na Espanha seu novo livro, "Yo No Vengo a Decir un Discurso", seu mais recente título desde "Memórias de Minhas Putas Tristes" (2004). Trata-se de uma compilação de 22 discursos escritos por ele, para serem lidos em público.

Duas notinhas interessantes. A notícia chega justamente no dia em que seu desafeto, ex-amigo do peito, Llosa, ganha o Nobel. Outra coisa. Quem escreveu a nota e quem a revisou, inclusive o editor do caderno, enfim, não leram o livro de Márquez, ou leram mal, tão mal que nem mesmo o título se prendeu às cabeças interessantíssimas dos jornalistas da Folha.

É Memória de minhas putas tristes, o título, o que sugere outra ideia do que se passa no processo de reminiscências do narrador. É uma só lembrança entrecortada, um só feixe de luz, uma só memória, lançada sobre todas as putas tristes, todas elas seriam uma só? Acho que sim.

É claro que tudo isso é bronha literária, é bate-papo de botequim, mas o leitor pode, como sugestão, ler Viver para contar, autobiografia do velho Gabo, parte 1 (oxalá venha a dois). É uma grande aula e uma dica de como puxar o fio dessa memória.

O leitor verá que a mesma puta triste do último livro de Márquez, até agora, é também aquela presente em Cem anos de solidão, em Cândida Erendira (a própria), em Dozes contos peregrinos (o conto Maria dos Prazeres) e em O amor nos tempos do cólera, uma menina de seus 14 anos. Não as outras, que certamente também são tristes, pássaras da noite.

Finalmente, o sol: Vargas Llosa ganha o Nobel de Literatura


Ele até pode desdenhar a importância do Prêmio Nobel de Literatura, principalmente nos dias de hoje, em que a acusação de ser político demais, ofuscando o lugar da arte, tem sido a tônica dominante, mas Mario Vargas Llosa no fundo da alma deve estar feliz. Ele acaba de ser laureado. O que dirá no discurso?

Eu, de minha parte, como leitor, estou feliz à beça, mesmo desconfiando dele como pessoa, imaginando que talvez ele, como pessoa, seja arrogante ao transbordamento. Mas, como não vou conhecê-lo, a não ser por meio da literatura, assim como perdoo Borges pelo racismo, fico feliz.

Parabéns Llosa! É um baita prêmio. Não me venha fazer como Sartre. Você não é Sartre e sempre chorou as pitangas por Márquez ter chegado na sua frente. Vá lá, receber a grana e fazer um discurso à altura de suas letras.