quinta-feira, 29 de outubro de 2009

CONTRAMARGEM – II: Estudos de Literatura


A minha dupla atividade de poeta e de crítico me tem rendido, se não alguns trocados, pelo menos um e outro trocadilho, ou coisa que o valha. Se publico, por exemplo, um livro de poemas, encontro logo quem me ache mais crítico que poeta; e se no ano seguinte o livro é de crítica, a mesmíssima pessoa me telefona (ou escreve) para dizer que está agora inteiramente convencida de que sou muito mais poeta do que crítico. Mas, há, ainda, um outro tipo que não é nem terceiro excluído, nem o incluído, mas o concluído: para este, eu não sou nem uma coisa nem outra – sou etimologicamente neutro ou, então, um simples professor, quem sabe se o de filosofia de M. Jourdain?

“Eu, por mim, por dúvida das vias, vou continuando, teimoso, sem saber se sou mais ou se sou menos ou se sou apenas mais ou menos. Desconfio até que faço uma coisa pensando noutra, e vice-versa: na poesia, penso na crítica (melhor, na autocrítica); na crítica penso na poesia, assim como Drummond, na roça, pensava no elevador; e, no elevador, pensava na roça.

É com esse bem-humorado jogo de palavras que o crítico e poeta goiano Gilberto Mendonça Teles, da cidade de Bela Vista de Goiás, chama o leitor para seu Contramargem – II: Estudos de Literatura (UCG/Kelps, 2009, 532 páginas). Vale lembrar que este não é um segundo volume, é a segunda edição ampliada do primeiro Contramargem, lançado em 2003 pela editora PUC-RJ.

Dividido em quatro partes – A margem da crítica, A margem da poesia, A margem da ficção e A contramargem –, o livro é um achado de argumentação e informação literárias. Fica a dica.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A MINHA ALMA É IRMÃ DE DEUS: o jazz da dor e a evocação do Recife


Será que ao terminar de escrever A minha alma é irmã de Deus (Record, 2009) Raimundo Carrero chorou? O livro conta a história de Camila, uma mulher marcada pelo sofrimento da solidão, mesmo quando está acompanhada de Leonardo, saxofonista e pastor de uma seita chamada Os soldados da pátria por Cristo, que a adotou em seus 12 anos. Ela morava com ele, menina que virou mulher e viveu uma vida de delírio e miséria até o fim.

Primeiro Camila se prostituiu. Mesmo ao ser abandonada por Leonardo, vendeu e doou seu corpo enquanto pôde. Mas quando envelheceu demais, teve de catar papelão, puxando uma carroça, para sobreviver.

Nesse momento de velhice, ela busca os fios da memória para reconstruir uma identidade de dor, de exclusão, de uma menina que foi abusada sexualmente pelo pai, pelo irmão, violentada, explorada, que mendigou, que transou de graça com vários homens querendo ser uma espécie de Madre Teresa de Calcutá do sexo, e que criou vários personagens para aguentar a barra de ser mulher, miserável e sozinha no mundo.

A minha alma é irmã de Deus é mais um romance de Carrero que lança o leitor na tempestade de som e solidão, no improviso do jazz. “Cada emoção tem um pulso”. É a palavra de ordem desse livro, e é também o lema da literatura do escritor pernambucano, nascido em Salgueiro e morador do Recife, cidade que ele canta em todos os livros, e que, em A minha alma, faz desfilar ruas e lugares.

Para retratar a desgraça, o Recife Velho em meio à cidade moderna, uma roçando a outra. Praça da Independência, praça Chora Menino, avenida Rosa e Silva, avenida Conde da Boa Vista, rua Primeiro de Março, a calçada que margeia o Rio Capibaribe e a avenida Manuel Borba, “com todas aquelas árvores imensas, grandes árvores, e barulho de carros, ônibus, motos.”

Para desfilar a miséria, a ponte Maurício de Nassau e as ruas do bairro de São José (bairro em ruínas), o Marco Zero da cidade, a avenida Alfredo Lisboa, a Torre Malakoff e a rua Bom Jesus, “com inúmeros bares, cadeiras nas calçadas junto a muitas mesas.”

O Recife de Carrero, em A minha alma é irmã de Deus, é a “cidade de pessoas que se atropelam, não falam, bate-que-bate uma nas outras.” É a cidade com seus bares, lanchonetes, bancas de revistas e barracas de coco. É o desenho da pobreza desfilando pelos bairros do Jiriquiti e Progresso, pela avenida Martins e Barros, a rua Siqueira Campos, em frente à Secretaria de Educação, nos fundos do Banco Central, a rua do Sol e a praça da Independência, “onde prostitutas marcavam ponto.”

O leitor lê e se emociona. Será que Carrero chorou? Ruas Visconde de Goiana, José de Alencar, Barão de São Borja, Pátio de Santa Cruz. O Recife Velho, com “ruas quietas, abandonadas e solitárias, ainda com pedras no calçamento, estreitas, as ruas eram estreitas, e tão esquecidas que os cachorros do domingo nem se lembravam de passar por lá.”

A voz soa o som do ser, escondido na máscara da existência. Camila quis ser outras, foi muitas como uma multidão, mas no fim da vida diminuiu, antes de morrer. Primeiro diminuiu, tornou-se uma, apenas mais uma na multidão. Mas havia, para Camila, e ainda há para as outras mil e uma Camilas que ainda existem, a manhã do Recife, “esta manhã cheirosa, os cheiros das frutas e o cheiro das comidas nas casas.”

Quando terminou seu livro, Carrero chorou?

PRÊMIOS LITERÁRIOS DA FBN: Inscrições abertas até quarta-feira (28/10)

A nota é da Folha de São Paulo desta segunda-feira:

"Estão abertas as inscrições para os Prêmios Literários 2009, da Fundação Biblioteca Nacional. Escritores, tradutores e autores de projeto gráfico podem se inscrever até esta quarta-feira em diversas categorias. As obras devem ser inéditas, com publicação entre 1º/11 de 2008 e 31/8 de 2009. As premiações, no valor de R$12.500, serão divulgadas em dezembro. Mais informações no site http://www.bn.br/portal/."

RESPOSTA DO AUTOR DE INÉRCIA

O autor do romance Inércia, Marcos Vinícius Almeida, deu uma reposta simpática e cheia de humildade à resenha do Leituras do Giba sobre seu livro. Ele corrige o erro cometido por mim (leia), quando citei um trecho do romance, imaginando que o narrador se referia ao físico inglês Isaac Newton, quando, na verdade, a passagem se refere a Isaque, personagem bíblico. Como teve a gentileza de me enviar a observação, retribuo fazendo a tréplica em público.

Não adianta, quando a gente erra tem de assimilar o baque. Neste caso, cometi um equívoco, por absoluta falta de atenção. É claro que Juan, personagem do romance de Almeida, se refere a Isaque com a grafia anglossaxã (Isaac).

Leio a Bíblia, e sempre me deparei com o nome do filho de Abraão com a grafia 'Isaque'. Não dá para analisar isso agora, mas, o que me vem à cabeça é que ou Juan costumava ler a Bíblia em inglês ou ele, Juan, é quem quis ser anglicista, ou, em última hipótese, a tradução da Bíblia do autor traz essa grafia, e por isso ele se acostumou a escrever assim.

No fim do texto, Almeida diz: “Fora isso, é sempre bom ouvir a opinião de leitores. Recebi alguns e-mails carinhosos. Sinal que, mesmo com a inerente falta de talento e limitação vaidosa deste jovem caipira que toma o tempo de pessoas de bem, alguma coisa salva.”

O autor se refere a si mesmo como “jovem caipira” dono de uma “inerente falta de talento.” É claro que a inteligência de cada um, na perspectiva do autoexame, outorga ao sujeito a possibilidade de se achar sem determinadas qualidades. Mas neste caso, parece mais modéstia em excesso, no que diz respeito à falta de talento.

Além de ser muito jovem, com apenas 27 anos, só publicou um livro e alguns contos em coletânea. Dê ao leitor, senhor Almeida, já que é bom ouvir a opinião dele, a oportunidade de fazer juízo desse talento, escrevendo mais, apurando a técnica. Eu particularmente não tenho a habilidade para ser romancista, mas busco na leitura o entendimento da arte de escrever.

Agora, quanto a ser um jovem caipira, é uma blague interessante, mas só para contrapor à visão urbana de alguns, quando estes são pernósticos o bastante para se acharem capazes de viver sem o olhar do homem que vem do interior do país. Em todo caso, a arte é universal. E quem sabe ler melhor a cidade ou o campo é sempre o gênio, não importa se tenha nascido na grande capital ou no mais simples vilarejo.

Se por um lado, temos Machado de Assis (do Rio de Janeiro), James Joyce (Dublin) e os autores austríacos, que quase sempre são de Viena, por outro, temos Carlos Drummond de Andrade (Itabira), Guimarães Rosa (Cordisburgo) e William Shakespeare (que foi de Stratford para Londres).

Ainda em matéria de ser caipira, temos também um grande exemplo na filosofia (que, a rigor, é o campo do saber que mais exige da urbanidade e das relações amigáveis da cidade): Heidegger. Ele nasceu numa cidadezinha do interior da Alemanha (Messkirch) e conquistou o mundo com sua filosofia, deixando uma frase lapidar sobre a linguagem, que o remete à sua origem da roça, da charrua. “O pensar abre sulcos invisíveis na linguagem.” Uma frase dessa é capaz de criar uma teoria inteira.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Nem Vem que Não Tem


O jornalista Marcus Preto resenhou, no caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo desta sexta-feira, a biografia Nem Vem que Não Tem - A Vida e o Veneno de Wilson Simonal, escrita pelo também jornalista Ricardo Alexandre. Uma resenha, OK. Mas o título dela, Biografia leva leitor à inocência de Simonal, é tão tendencioso quanto a suposta parcialidade do livro.

A biografia leva o leitor a acreditar na inocência do músico. Ora, e o jornalista queria o quê, que levasse o leitor a acreditar na culpa, ou que fosse imparcial a ponto de não retratar nada, só repetir as acusações?

A resenha começa assim:

Uma Bíblia, o Código Penal e a Constituição brasileira. Naqueles últimos dias de vida, em abril de 2000, esses eram os livros que Wilson Simonal tinha à cabeceira da cama, no quarto do hospital Sírio-Libanês. Sofrendo de uma cirrose que o fez passar por inúmeras hemorragias e três comas, o cantor ainda mantinha a obsessão por provar que, ao contrário da fama, nunca fora informante da ditadura.

“Escrita pelo jornalista Ricardo Alexandre, a biografia ‘Nem Vem que Não Tem - A Vida e o Veneno de Wilson Simonal’ leva o leitor a acreditar nessa inocência alegada pelo músico.

E esta resenha leva o leitor a achar que Marcus Preto sabe de tudo, conhece a verdade sobre Simonal, e que a verdade está naquilo que ele, resenhista, sabe e não quis dizer.

Leia o livro, compre na Livraria Cultura.

Título: Nem Vem que Não Tem - A Vida e o Veneno de Wilson Simonal
Autor: Ricardo Alexandre
Editora: Globo, 2009, 392 páginas
Gênero: Biografia
Preço: R$ 39,90

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Edson Sardinha ganha o Prêmio Vladmir Herzog

Sardinha: Prêmio Vladimir Herzog 2009

O jornalista Edson Sardinha, editor do site Congresso em Foco, recebeu a menção honrosa do 31º Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, pela série de reportagens sobre o deputado Luiz Couto, do PT da Paraíba.

A série intitulada Deputado Luiz Couto, o padre censurado pela Igreja Católica mostra a luta do político para combater o crime organizado. Em 2008, a mesma premiação também foi para o Congresso em Foco, pelo trabalho realizado por Lúcio Lambranho.

O site, que faz uma ampla cobertura da política brasileira, direto do fronte, tem apenas 5 anos de existência e é um dos que mais pautam o jornalismo político do país. Tanto é que, a além da menção honrosa, o Congresso em Foco também ganhou o Prêmio Esso de melhor contribuição à imprensa.

Leia na íntegra a série de reportagens feita por Sardinha:

CORREÇÃO: a origem burguesa de Lobo Antunes

A gente tem sempre de saber a razão do que fala, a origem do pensamento que expressa. Nesse sentido, cometi um pecado, porque disse que os escritores portugueses António Lobo Antunes e José Saramago tinham origens humildes, conforme o trecho abaixo, de um texto publicado em meu blog (ANTÓNIO LOBO ANTUNES: o escritor e o infinito futuro).

Ironicamente, desafetos confessos, Lobo Antunes e Saramago vieram de famílias humildes, sem tradição nenhuma no mundo das letras. Os dois venceram pela absoluta força da inteligência, aliada ao lampejo de gênios que traziam consigo.

Mas parte dessa informação não é verdade. E faço cá a mea culpa. Já não me lembro por que razão disse que Lobo Antunes era de origem humilde. Acho que entendi mal alguma coisa que o escritor disse numa entrevista ao jornalista Edney Silvestre, no programa Espaço Aberto, da Globo News.

Em todo caso, uma leitora de Portugal, com muita boa vontade, resolveu dar fim a essa minha ignorância. É claro que não vai conseguir. Mas pelo menos corrige um erro cometido nesse humilde blog. E fico inteiramente agradecido à leitora de além-mar. Segue na íntegra o e-mail que ela me enviou:

Olá, Gilberto

Estava a dar uma ‘volta’ pelo seu blog e li uma imprecisão que deve corrigir.

António Lobo Antunes e José Saramago não são provenientes de famílias humildes.

De facto José Saramago provem sim de famílias pobres, António lobo Antunes é que não, descende da alta burguesia.

Pode ser que não veja aqui muita importância, mas se pensar que o primeiro é um autodidacta de superior inteligência, pois não teve ao dispor ferramentas, que poderiam aguçar o seu engenho, o segundo embora lhe reconheça como é óbvio o seu engenho, sempre conviveu com a alta burguesia, e á casa onde vivia (tipo palacete) sempre convergiram altas individualidades tanto políticas como intelectuais….

Fica aqui feita a correcção.

Gostei do seu blogue.

Cumprimentos

Custódia Romão

Muito obrigado, Custódia!

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A narração do fato – notas para uma teoria do acontecimento


O novo livro de Muniz Sodré, A narração do fato – notas para uma teoria do acontecimento (Vozes, 2009, 288 páginas), foi resenhado por mim no jornal Tribuna do Planalto (acesse aqui). Mas queria falar de outros pontos que não foram ressaltados lá. Um deles é o fato de ser um livro aporético, ou seja, os argumentos, prós e contras, jamais serão suficientes para se chegar a uma conclusão.

Sodré levanta a questão segundo a qual jornalismo é literatura. Ele tem razão e não tem. Eis o princípio do quiproquó. Está correto porque alguns gêneros literários têm técnicas que podem ser aplicadas à linguagem jornalística sem nenhum prejuízo a ambos. Discussão esta que tem adeptos desde o final do século XIX, como Bernard Shaw, citado por Sodré.

A prosa do romance policial e da estética do realismo objetivo, esta, em autores como Ernest Hemingway e Norman Mailer, são partes dos objetos de discussão de Sodré, porque têm a mesma estrutura de linguagem do jornalismo. Além disso, o jornalismo e esses segmentos literários usam a mesma matéria-prima, o fait-divers, que são recortes dos acontecimentos do cotidiano.

Aquilo que os norte-americanos chamam de New Journalism ou, atualmente em The New Yorker, Embedded Journalism, seria a prova cabal de que jornalismo é literatura. Mas Sodré vai adiante e diz que qualquer reportagem é invenção da realidade, reconstrução de um agrupamento de imagens daquilo que aconteceu, filtrado pelas escolhas do jornalista.

Por outro lado, é difícil imaginar que Em busca do tempo perdido tenha alguma coisa a ver com jornalismo, ou que Finnegans Wake esteja sequer próximo de uma linguagem jornalística. Grande sertão: veredas se assemelha a algum tipo relato de jornal?

É e não é

Para resolver esse problema, Sodré recorreu às teorias da narrativa e aplicou o conceito da literatura policial ao do jornalismo. Mas não pôde sair do calabouço. Há gente que, preconceituosamente, segundo o autor, nem considera o gênero policial como literatura. Mas esta discussão revela-se a melhor parte de A narração do fato.

O livro de Sodré é ótimo, mas não como comprovação teórica, que, aliás, nem era o que ele queria, já que o subtítulo diz que são apenas “notas para uma teoria do acontecimento”. Logo, A narração do fato é bom para ser lido sem o compromisso de se embarcar na veracidade da nota, e sim pelo prazer do bom papo que é Sodré.

Segundo ele o jornalismo relata um acontecimento, construído em linguagem que facilita o entendimento do leitor. Essa construção resulta numa narrativa, assim como a literatura. Lembra, inclusive, Alceu Amoroso Lima, segundo o qual o jornalismo é “prosa dos acontecimentos”, e o recentemente falecido, Antonio Olinto, que dizia que jornalismo é “literatura sobre pressão.”

Vejamos, no entanto, dois exemplos utilizados por Sodré que demonstram as escolhas para a costura de seus argumentos.

Primeiro ele cita Maurice Blanchot, que diz que “a narrativa não é o relato do acontecimento, mas o próprio acontecimento, a aproximação desse acontecimento, o lugar onde este é chamado a se produzir, acontecimento ainda por vir e por cujo poder de atração a narrativa pode esperar, também ela, realizar-se.” Com essa teoria, jornalismo e literatura são claramente linguagens opostas, porque aquele relata o acontecimento.

Ele então cita outro teórico, Gerard Genette, segundo o qual: “a narrativa é o enunciado narrativo, o discurso oral ou escrito que assume a relação do acontecimento ou de uma série de acontecimentos.” Com esta, dá para começar uma nova abordagem sobre o que é literatura e o que é jornalismo e fundir uma cosia na outra. Mas tudo não passa de escolhas.

Por fim, se jornalismo é literatura, de duas uma, ou jornalismo é arte, ou literatura não é absolutamente nada, porque não traria nem valor informativo nem teria a construção estética, dentro da qual há todo o seu sentido, coisa que não é da alçada do jornalismo, a não ser quando se trata de crônicas e do chamado jornalismo literário (mais uma aporia, outro quiproquó).

A escrita jornalística é literatura. Pois bem. O telejornalismo é o quê? Cinema? O radiojornalismo, seria o quê? Radionovela? O próprio Sodré faz um texto que dança entre a afirmação e a comparação. Se jornalismo é literatura não se pode dizer que a linguagem de um aproxima da do outro. Tem de afirmar: a linguagem de um é a linguagem do outro. Mas não é.

Gênero próximo

Volto a lembrar: o livro de Sodré é ótimo como um bom papo. Ele, por exemplo, discorre apaixonadamente sobre o valor do romance policial. Cita uma série de autores do gênero que formam o cânone ignorado pela crítica acadêmica: Elmore Leonard, Raymond Chandler, Michael Connely, Georges Simenon, Léo Malet, Dennis Lehane, George Pelecanos, James Lee Burke, James Ellroy, Andrea Camilleri, entre outros mais famosos, como Edgar Allan Poe e Conan Doyle.

Assim, lemos com atenção sua defesa:

São muitos os críticos ‘sérios’, nacionais e estrangeiros, em épocas diferentes, que se debruçaram sobre a narrativa policial, quando não para simplesmente rebaixá-la como subliteratura, ao menos para apontar-lhe os pecados para com a forma, que poderia levar o texto romanesco a ser reconhecido como literatura ‘plena’, isto é, como obra ajustada ao cânone literário. Alguns, particularmente snobs, podem mesmo aventurar-se a ofensas paradoxais, a exemplo do filósofo e cientista alemão Hermann Keyserling, notório por suas frases de efeito, para quem Georges Simenon não passaria de ‘um imbecil de gênio’. O tom dessas críticas costuma oscilar entre a pura expressão do gosto estético pessoal e a mera descrição de um repertório de histórias e autores, como se fosse este um objeto sociológico ou um fato social atravessado pela narratividade.

Mas para comprar jornalismo e literatura, fico com Cony, que, numa palestra foi lapidar:

É necessário apelar para Aristóteles: a definição se faz pelo gênero próximo e pela diferença última. Exemplo: o homem é um animal racional. O gênero próximo é o animal; a diferença última é o racional. Aplicando a mesma definição ao jornalismo e à literatura, teríamos de encontrar a diferença última entre as duas expressões da comunicação humana.

O gênero próximo é o mesmo: o universo das letras. A diferença última é o tempo. Daí que a palavra crônica é segmento comum da literatura e do jornalismo. O jornalismo condiciona o espaço da letra ao tempo do tempo. O jornalismo distingue-se da literatura por ser uma expressão datada. (Folha de S. Paulo, Ilustrada, 29 de abril de 2005)

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

INÉRCIA: um narrador que não para de falar


Minas Gerais tem solo fértil para bons autores, tradição que vem desde Tomás Antônio Gonzaga. A mais recente cria dessa fonte é Marcos Vinícius Almeida, que acaba de lançar seu primeiro romance, Inércia (Multifoco, 2009).

É verdade que há altos e baixos na prosa de Almeida. A estrutura das frases, em boa parte, é minimamente experimental, dando um ritmo alucinante, mas pouco realizador. O personagem fala demais, como se estivesse num divã e o psicanalista fosse do tipo freudiano, que não interfere no desabafo do paciente.

Procurar um analista, como fez Alexandre Portnoy, de Philip Roth, pode ser um sinal de inteligência e sensibilidade, mais do que apenas um vestígio de desequilíbrio mental. No caso do personagem de Roth, em O complexo de Portnoy, Alexandre reclama de tudo e de todos. Mas em Inércia, o personagem – que não diz estar num consultório – reclama quase sempre de si mesmo, por estar preso a um mecanismo existencial do qual não consegue sair.

É claro que Portnoy, escrito em 1967, quando Roth tinha 34 anos, abarca toda a atmosfera de seu tempo, o desencanto do american way of life, enquanto Inércia é bem mais leve e cria apenas o ambiente dos amores juvenis, mas isso já é considerável.

O que sobressai no romance de Almeida é o senso de humor. É um livro divertido, narrado em primeira pessoa por Juan, estudante de filosofia, universitário que gosta de beber, fumar e que está em meio a uma crise de consciência, e por isso conta seus sabores e dissabores amorosos. Seu dilema existencial é esse: não sabe se o que faz com as mulheres são atitudes de um canalha ou não.

A crise parece ter sido desencadeada quando Lúcia, sua ex-namorada, ressurge grávida, alguns meses depois de o relacionamento ter acabado. Ela diz que o filho é dele, e aí o rapaz mergulha num drama moral. Em função desse impasse, Juan está povoado de lembranças recentes. A memória está lotada de amigos, mulheres e livros, como se quisesse acertar contas com um passado tão curto, já que é jovem demais.

Contemporaneidade

No começo da narração, o leitor se depara com um texto ágil, retratando certo momento anterior ao drama maior.

No olhar solitário que lanço da porta do quarto. Lúcia continua dormindo. Um choro abstrato. Ando agora da cozinha para sala. Da sala para cozinha. Fumo um cigarro depois do outro. Mas nada preenche esse vazio. Lúcia dorme profundamente. Queria chorar de verdade. Mas não posso. Vou do quarto para sala. Da sala para a cozinha. De novo para o quarto. Agora estou deitado ao lado de Lúcia. Ela me abraça. Sinto o cheiro doce do seu cabelo. Olho para ela. Estou de novo na cozinha. Fumando. Pensando num monte de coisas.

Nesse trecho, o que fica sugerido é a preferência do autor – não do narrador-personagem – pela linguagem do cinema. O que há ali são montagens de frames que narram a situação vivida por Juan. Não é demérito, é contemporaneidade. Mas a narração segue nesse ritmo frenético do começo ao fim. E isso cansa um pouco a leitura.

Neste caso, Juan é um jovem tagarela. Fala muito. É renitente e força o leitor a se imaginar como o analista que, em vez da cura, quer dar um piparote no paciente. Mas, considerando o fato de ser escrito por um jovem autor, é bom reconhecer que há muitas qualidades no livro.

A maior dessas qualidades talvez seja a identificação de uma inteligência do personagem. Ou seja, o autor conseguiu atribuir essa característica à sua criação, não pelas citações (que aqui é sinal de interferência), mas pelo modo de ver o mundo.

Literatura e testosterona

Em todo caso, Inércia é um livro testosterônico juvenil. A mulher, o corpo feminino é o centro de sua gravidade. Juan mataria Isaac Newton a marteladas, se fosse a vontade de Deus, depois de Este ter colocado Tati (uma menina bonita e gostosa) em seu caminho. Eis uma bela piada, associativa, metafórica.

Outra jogada de humor: Juan decide vender três livros de seu acervo porque precisa levantar uma grana. Chegando ao sebo, fica em dúvida se a moça vai mesmo querer comprar seus livros. Se ela não quiser, ele está cansado demais para voltar com os volumes tão pesados.

A saída, imagina Juan, seria trocar por outros mais leves. “Já avistei O Processo logo ali, em uma edição capa dura. Mais a frente tem o Angústia. Se me derem esses dois está ótimo. Livros excelentes e leves de carregar.”

Ambos são livros que tratam de um impasse diante de uma condição dada, seja a existência, no caso de Graciliano Ramos, seja o sistema sócio-econômico, no caso do romance de Franz Kafka. Não são nada leves, e Juan sabe disso. O que ele quer mesmo é fazer o trocadilho, rir de sua própria situação.

Mas em certa altura, a narração de Juan cria uma espécie de humor involuntário, imagino. Ao descrever Tati:

“As mãos apoiadas no banco, o braço moreno conduzindo ao ombro roliço – que pedia uma mordida bem forte, assim como o pescoço imantado, que também me tragava, e mais embaixo, as batatas das pernas sinuosas balançando para frente e para trás de baixo do banco.” Que raios de menina batatuda é essa!

Estado do corpo

O dilema de Juan é a mesma de muitos jovens que vivem o doloroso processo de amadurecimento, tendo de deixar o desregramento para trás para poder crescer. É quando se dá conta de sua incapacidade de dizer adeus a uma mulher, de romper uma relação. Ele quer uma só, mas deseja todas elas.

“Sempre tive uma mulher dentro da cabeça. Um modelo. Um arquétipo. Um rascunho muito bem trabalhado que venho corrigindo ao longo da vida. Será que todos os homens são assim?”, pergunta Juan.

Nessa construção está o cerne do dilema, porque Juan nada contra a correnteza. As três primeiras sentenças se equivalem ao que há na cabeça da maioria dos homens. Mas ao contrário deste jovem perturbado pela inércia, o comum é todo homem ter a imagem da mulher perfeita, e com o tempo ir se ajustando à realidade, aprendendo a conviver com o ‘absurdo’ das diferenças.

A inércia referida no título do livro de Almeida é equivalente à lei de Newton, tanto é que o autor cita o físico inglês na epígrafe. Vertendo para a questão psicossociológica, é a condição da qual a pessoa não consegue sair, o estado d’alma que tende a continuar como está.

“Todo corpo permanece em seu estado de repouso ou de movimento retilíneo e uniforme, a menos que seja obrigado a mudar seu estado por forças impressas a ele.” Esta é a primeira lei de Newton, que vem como epígrafe no romance, e é também a chave para o sentido do texto de Almeida, inclusive o fato enfadonho de o narrador não parar de falar.

Inércia é, em último caso, uma angústia do cotidiano das relações. Ritmo alucinante. Construção de frases quebradas, frases que sugerem frames cinematográficos mínimos, se juntando sofregamente, aos montes, para construir um sentido.

O sentido se constrói à medida que o leitor entende que o que há é uma busca de entendimento do personagem (daí a aproximação com o divã), perdido nesse oceano da vida, inquieto diante de um mundo inteiro a percorrer. Sensação semelhante àquela que o menino sente quando se encontra só, à mercê de um problema incontornável.

Serviço:

Este livro pode ser comprado no site da Livraria Cultura.

Título: Inércia
Autor: Marcos Vinícius Almeida
Editora: Multifoco, 2009, 136 páginas
Gênero: Romance
Preço: R$ 30,00

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

ANA PAULA MAIA: a nova geração da literatura brasileira

Ana Paula: literatura policial e escrutínio da violência urbana

Nasceu em 1977, em Nova Iguaçu, Rio de Janeiro. Publicou seu primeiro romance, O habitante das falhas subterrâneas, aos 26 anos (2003) pela 7 Letras, editora que sempre deu espaço para jovens escritores. Depois investiu no universo que já domina, o da internet, e lançou Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos (aqui), em 2006, que agora em 2009 saiu impresso pela editora Record.

Com uma prosa que procura escrutinar a violência social, Ana Paula vem conquistando espaço no meio literário. Está em algumas antologias de novos talentos da ficção brasileira, entre elas 25 mulheres (Record), organizada pelo escritor Luiz Ruffato.

Bibliografia

Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos
Editora: (Record, 2009)
Gênero: Romance policial

A guerra dos bastardos
Editora: Língua Geral (2007)
Gênero: Romance policial

O habitante das falhas subterrâneas
Editora: 7 Letras (2003)
Gênero: Romance

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

HERTA MÜLLER: Nobel de Literatura 2009

Jens Meyer/AP
Herta: a mais nova laureada

A ignorância é mesmo um poço sem fundo. O Prêmio Nobel de Literatura acaba de ser anunciado, nesta quinta-feira, e foi para uma escritora romena, de origem alemã, chamada Herta Müller. Nunca tinha ouvido, nem lido, falar. Azar de quem?

terça-feira, 6 de outubro de 2009

RETRATOS E ESPELHOS - raça e etnicidade no Brasil e nos Estados Unidos


Entre os anos de 2004 e 2006, foi realizado um programa de intercâmbio entre estudantes de graduação brasileiros, das universidades de São Paulo (USP) e Federal da Bahia (UFBA), e de pós-graduação norte-americanos, das universidades de Howard (Washington) e Vanderbilt (Tennessee), para estudar as relações sociais entre brancos, negros e mestiços.

O resultado foi o livro bilíngue Retratos e espelhos: raça e etnicidade no Brasil e nos Estados Unidos (FEA/USP, 2009), editado por dois alunos do programa, o brasileiro Vinicius Rodrigues Vieira e a norte-americana Jacquelyn Johnson.

Para quem prega a impossibilidade de se compararem as práticas do racismo no Brasil e nos Estados Unidos – para quem o faz, no entanto possui espírito democrático, isto é, sabe ouvir o outro –, esta é uma boa dica de leitura.

Para quem estuda ou pretende estudar o racismo, para quem sente-se vítima do preconceito racial ou vitimiza os outros sem se considerar racista (ou até se considerando), é um bom momento de se inteirar com o assunto, porque aqui, a conversa vem numa tentativa de compreender essas duas macroculturas, cujo retrato mostra a face corrosiva do racismo, cada uma a seu modo, mas sem anátemas.

Retratos e espelhos traz 21 artigos muito bem escritos sobre questões diretamente ligadas às situações de racismo que provocam a desigualdade social. O livro parte da premissa de que é necessário sair do foco unilateral das atuais discussões sobre as políticas de ações afirmativas, como as cotas nas universidades, para a realização de um debate mais amplo.

Neste sentido, o livro alcança seu fim. Aborda questões como o negro na TV, o negro na escola, os estereótipos que sustentam o preconceito racial, a importância da imprensa negra, além de apontar possíveis formas de combater as desigualdades, combatendo, portanto, as discriminações.

Entre os caminhos apontados estão o “ensino da cultura negra como estratégia de combate ao racismo”, a participação do terceiro setor, a “necessidade de ações pós-admissão universitária” etc.

Muitos dos trabalhos têm um viés histórico, já outros são pesquisas de campo que demonstram como determinadas práticas de discriminação são perpetuadas no seio da sociedade.

As razões porque Brasil e Estados Unidos se distanciam de suas práticas de racismo já são razoavelmente demonstradas e debatidas, como o fato de lá ter havido políticas de segregação racial e aqui não. Lá ter havido a incitação do ódio aberto, e aqui o cultivo do cinismo.

No caso de Retratos e espelhos, o viés é outro. Traz exemplos de experiências aproximativas entre Brasil e Estados Unidos, com a vantagem de serem estudos recentes, com um olhar atual (sem perder o retrovisor da história) sobre o problema. Neste sentido, acende uma luz importante no debate, mostrando possíveis caminhos de como os dois países podem um olhar para o outro.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

ADRIANA LISBOA: a nova geração da literatura brasileira


Adriana: uma das mais experientes de sua geração

Embora já tenha publicado muitos livros, Adriana Lisboa ainda pode ser considera uma jovem escritora. Se não pela característica de estreante, que ela não tem mais, ao menos pela idade.

Nesse aspecto pode-se dizer que é um dos autores mais experientes da nova geração. Nasceu em 1970, no Rio de Janeiro, estudou literatura e música. Hoje tem uma carreia de escritora, tradutora e pesquisadora com reconhecimento internacional.

Dessa nova leva de escritores tem o maior número de livros publicados, romances, contos e literatura infanto-juvenil, entre eles Um beijo de colombina, Rakushisha, Os fios da memória e Língua de trapos.

Como tradutora já verteu para o português textos de Cormac McCarthy, Amy Bloom e Robert Louis Stevenson e outros. Adriana participou do projeto Amores Expressos, do produtor de cinema Rodrigo Teixeira, e ficou em Paris durante um mês para, dessa experiência, escrever uma romance com história de amor. O livro, no entanto, até agora não saiu.

Como autora, já conquistou vários prêmios, como o José Saramago, em Portugal, o Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e o Moinho Santista (atual Fundação Bunge), no Brasil.
Sites e blogs

http://www.adrianalisboa.com.br/

http://blogdaadrianalisboa.blogspot.com/


Bibliografia

Contos populares japoneses
Ilustração de Janaina Tokitaka
Editora: Rocco
Gênero: Infanto-juvenil

O coração às vezes para de bater
Editora: Publifolha (2007)
Gênero: Infanto-juvenil

Rakushisha
Editora: Rocco (2007)
Gênero: Romance

Contos de agora (audiobook – coletânea de contos de 21 escritores contemporâneos, na voz da atriz Leona Cavalli.)
Editora: Livro Falante
Gênero: Contos

Um beijo de Colombina
Editora: Rocco (2003)
Gênero: Romance

Caligrafias
Editora: Rocco (2004)
Ilustração: Gianguido Bonfanti
Gênero: Narrativas curtas

Os fios da memória
Editora: Rocco (1999)
Gênero: Romance

Língua de trapos
Editora: Rocco (2005)
Gênero: Infanto-juvenil

Sinfonia em branco
Editora: Rocco (2001)
Gênero: Romance