sexta-feira, 24 de julho de 2009

“Sem truque, é difícil, quase impossível aguentar a barra da vida”

Cony: "Com meu truque, não só aguentarei a barra da vida – pesadíssima -
como a barra da própria morte - com seu diáfano peso de nada."

Em entrevista ao jornalista da Globo News, Ediney Silvestre, Cony disse que decidiu, ainda garoto, ir para o seminário para subornar o amor e o respeito da família, que imaginava não ter. “Levei a sério a vida monástica até o início dos estudos superiores, quando comecei a estudar filosofia, e aí então perdi a fé. Pensei em continuar, porque gostava muito do seminário, mas não deu”, diz ele.

Segundo ele, às vezes se arrepende de ter ido para o seminário. Diz que só não teria sido mais feliz porque não está em seus projetos ser feliz, mas seria mais tranquilo, teria menos pesadelos.

A entrevista completa nos mostra um Cony culto, cético e um pouco amargo, mas sempre irônico. Um Cony humano, cheio de histórias para contar, que conta, em seus textos na Folha de S. Paulo, como o que segue abaixo, na íntegra, publicado hoje na Folha (24/07).

Sei que não é de bom tom copiar um texto total de um meio para o outro, mas é de Cony, e a Folha há de me perdoar.

Esse poderia ser uma espécie de testamento intelectual de Cony, a la Machado. Um Cony cuja inteligência ainda admiro. Ainda é delicioso ler seus textos no jornal. Mas a tristeza impressa neles, ou será em mim?, corta cada vez mais fundo.


Da necessidade dos truques

De uns tempos para cá, tornou-se comum o camarada morrer e não saber. Evidente, os outros ‘sabem’, menos o próprio, que em tese e na prática devia ser o principal interessado no assunto. Vai daí, de repente descobri que um dos meus truques é fazer justamente ao contrário do que ficou estabelecido pelos atos, posturas, leis, decretos e regulamentos em vigor.

Por isso, decidi que morri no dia 1º de dezembro de 1981. Pode ser que muita gente acredite que morri antes desta feliz data para a humanidade, mas, para efeito pessoal, eu mesmo me decretei morto a partir daquele radioso dia de final de ano, lembro que fazia um sol que o Nelson Rodrigues classificaria como digno de rachar catedrais.

Em linhas gerais, e para fins particulares, estou morto e alguns ainda não sabem: amigos, parentes, credores e candidatos à Academia Brasileira de Letras, que são muitos e têm faro especial para essas coisas.

Pode parecer truque macabro, de péssimo gosto, mas tem lá suas vantagens. Não recebi qualquer tipo de homenagem, dessas que comumente se prestam aos defuntos. Não provoquei nenhuma lágrima pela minha ausência, nenhuma prece pela minha alma (e de nada adiantarão as rezas pela minha salvação), não mereci a módica linha impressa no obituário das folhas.

Aparentemente, tudo continuou como antes, mas eu sei que estou morto. Não tenho mais nada a ver com o que aí está, a vida, o mundo, as mulheres, o inverno, onde enterraram Michael Jackson, a crise no Senado, a faina humana e inglória. Bem verdade que os estabelecimentos bancários não aceitam essa morte de moto próprio, embora aceitem a hipótese de eu me espatifar por aí dirigindo minha própria moto. Moto que por sinal não tenho, justamente para não morrer de moto próprio.

Qual a vantagem de ter um truque? ‘Quid prodest?’ -perguntariam os latinos. Respondo: é uma sensação tranquila essa da gente se saber morto, clandestino morto, insuspeitado morto na tripulação do mundo. Não me sinto mais comprometido com nada - mas continuo como testemunha do espetáculo, não mais cúmplice nem vítima.

Enquanto vivi, evidente que vi eventos extraordinários que se transformaram em ordinários. Um deles foi me tornar cronista de jornal sendo obrigado a dizer coisas quase todos os dias e sem ter nada a dizer em meu interesse ou no interesse dos outros. Isso sem falar no remoto ano em que levei originais mal datilografados a um editor e ele me disse: ‘Eu topo!’.

Bem verdade que então era ainda vivo mas suspeitava que a minha vida entrava na fase vegetativa.

Lembro um episódio da vida de Napoleão. Quando foi coroado na Notre Dame, tendo obrigado o papa a se deslocar para Paris a fim de presidir a solenidade, sua mãe Letícia ocupava um camarote ao lado do altar-mor.

Ela viu aquela pompa toda, aquele absurdo, seu obscuro rebento nascido na distante Ajácio sendo sagrado imperador do mundo.Virou-se para sua filha Paulina e comentou: ‘Se o pai de vocês visse isso!’

Carlo Buonaparte já havia morrido de fato, não teve vida bastante para assistir às estripulias do filho. Mas se visse?

Taí a chave do truque. Ao contrário do pai de Napoleão, continuo pagando imposto de renda e demais posturas federais, estaduais e municipais, vendo muita coisa interessante sem a obrigação de tomar partido, de gostar ou de desgostar, de sofrer ou de encontrar prazer com a desdita ou a glória dos outros.

Dessa forma, me aproximarei, concretamente, daquele personagem de Gorki que muito gosto de citar. Era um bêbado que falava demais ou ficava calado demais. Um dia explicou: ‘Eu me aborreço em voz alta e me distraio em silêncio’.

Aliás, essa necessidade de ter um truque vem também de Gorki: um personagem que, ao se suicidar, deixou um bilhete para o colega de quarto, um vagabundo tão miserável quanto ele, explicando por que se matava: ‘Faltou-me um truque’.

Sem truque, é difícil, quase impossível aguentar a barra da vida. Com meu truque, não só aguentarei a barra da vida – pesadíssima - como a barra da própria morte - com seu diáfano peso de nada.

terça-feira, 21 de julho de 2009

MITOLOGIA GREGA I: do Caos a Zeus


O mito escrito está para o mito em função assim como a fotografia está para a pessoa real. É assim que Junito de Souza Brandão explica a relação entre o que foi a mitologia para os gregos antigos e o que ela se tornou após alguns filósofos pré-socráticos desacreditarem-na.

Os mitos perderam a dinâmica da transformação no acompanhamento da sociedade, mas em compensação não morreram, como queriam alguns paladinos da razão desde os gregos, como Xenófanes e Zenão, até Kant e Descartes.

O mito grego agora serve como força simbólica de interpretação das ações humanas, dos sentimentos mais corriqueiros à manifestação máxima da cultura. Por isso ainda se mantém vivo. Por isso ainda encanta muita gente.

Talvez seja esta a razão para a trilogia Mitologia Grega (Editora Vozes, três volumes), de Junito de Souza Brandão, chegar às livrarias em mais uma edição, com novas ilustrações de capas, adaptada ao novo acordo ortográfico e fascinante como sempre. O primeiro volume, por exemplo, chega à sua 21ª edição.

Volume I

Depois de uma detalhada explanação sobre o significado de mito, rito, religião e de contextualizar a Grécia antiga, Brandão começa a guiar o leitor pelo mais completo mapeamento sobre a mitologia grega.

Neste primeiro volume, após o surgimento do universo a partir do Caos, o destaque fica para a formação das gerações de deuses, em que se veem Úrano (Céu) dominar o universo na primeira geração, Crono, na segunda, e Zeus, na terceira e última troca de poder no Olimpo.

Zeus se tornou o mais poderoso entre os deuses após vencer seu pai, Crono (Tempo), que por sua vez havia vencido o próprio pai, Úrano, num jogo de interesse político, cada um a seu modo, procurando se sustentar no topo das decisões.

Lição de política

Na primeira geração, entre as proles da união de Urano com Geia, estão Os Titãs (Oceano, Ceos, Crio, Hiperíon, Jápeto e o caçula Crono), as Titânidas (Teia, Reia, Mnemósina, Febe e Tétis), além dos Ciclopes e os Hecatonquiros (“monstros de cem braços e de cinquenta cabeças”).

Não suportando a maneira nada gentil do marido de conduzir as coisas do universo, Geia pediu que seu caçula derrotasse o velho pai. Não foi difícil para Crono castrar Urano e tomar o poder. Mas, titã que era, violento e possessivo, Crono também se tornou tirano.

Casado com a irmã Reia, com a qual foi pai de Héstia, Hera, Deméter, Hades, Posídon e o caçula Zeus, Crono tinha medo de que se cumprisse a profecia segundo a qual seria derrotado por um dos filhos. Para não correr o risco, engolia a todos.

Reia, no entanto, cansada de ver seus pequenos serem devorados pelo marido, escondeu Zeus na terra e, em seu lugar, deu uma pedra para Crono engolir. De novo, um deus dança no Olimpo, perdendo lugar para o filho caçula.

Mas dessa vez, na terceira geração de deuses, as coisas mudam, porque, Zeus agiu diferente. Nunca na história do Olimpo, um deus havia feito alianças para conquistar, manter e expandir o poder sobre o universo. E foi o que fez aquele que se tornaria o deus dos deuses.

Zeus venceu o próprio tempo e se eternizou no Olimpo. Depois de soltar os ciclopes e os hecatonquiros – que haviam sido lançados no Tártaro por Crono –, fazer alianças com eles, soltar os próprios irmãos da barriga do pai e lutar durante dez anos para tomar o poder, tramou uma das mais interessantes ideias da história da política real e imaginada.

Casou-se com a irmã Hera, dividiu o poder com os outros dois irmãos mais fortes, ficando ele com o domínio do Céu, Posídon, com o mar, e Hades, com o mundo subterrâneo. Mas Zeus ficou também com a supremacia do universo. Afinal, ele lutara praticamente só contra os titãs e Tifão, monstro criado por Geia e Tártaro, enquanto os irmãos se escondiam disfarçados de animais na terra.

Depois disso, Zeus continuou sua ideia de supremacia. Chegara à conclusão de que se manteria no poder se povoasse o universo com seu próprio sangue. Uniu-se a Hera, sua esposa, mas também a outras deusas para procriar vários Deuses, e a mortais, criando heróis como Héracles (Hércules).

Foi pai de deuses como Dioniso, Apolo, Ártemis, Atená, Horas, Moiras, Afrodite, Ares, Hebe, Hefesto, Hermes, Perséfone, entre outros, e de heróis, como Héracles, Perseu, Argos, Tântalo, entre tantos outros. Só por isso, o livro de Brandão já valeria a investida. Mas ainda há o alcance dos estudos em que, entre um e outro mito principal, ficam estampados os fios de erudição do autor.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

O MELHOR VENDEDOR DE LIVROS DO MUNDO

A partir da esq. Obama (acima), O'Neill, Clinton e Mosley

Caso curioso. A opinião de um presidente popular conta muito. Nos Estados Unidos, na década de 90, Bill Clinton influenciou milhares de leitores ao dizer que um dos seus autores favoritos era Walter Mosley, autor de O diabo vestia azul, que virou filme com Denzel Washington.

Após a declaração, Mosley se viu numa interminável solicitação para entrevistas, enquanto seus livros pipocavam na lista dos mais vendidos.

Agora é a vez de Barack Obama dizer que seu livro predileto é o romance Netherland, do irlandês de 45 anos, Joseph O'Neill, inédito no Brasil, e que também está se tornando best-seller.

O fato curioso é que Mosley, um escritor negro, foi indicado por Clinton, enquanto O'Neill, branco, o fora pelo presidente negro, Obama. E viva a liberdade de escolha e de pensamento! Viva a arte!

quinta-feira, 16 de julho de 2009

A diferença entre um poeta europeu e um brasileiro

Manuel Bandeira está à altura de W. B. Yeats. Mas este escreveu em inglês, ganhou o Nobel de Literatura em 1923 e morreu aos 74 anos, em 1939. O nosso poeta escreveu em português, ganhou uma tuberculose ainda jovem, que o levou a pensar que morreria cedo e escreveu:

Criou-me, desde eu menino
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde...
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!

Nós o perdoamos e o elegemos um dos maiores de nossa língua, e ele morreu aos 82 anos, em 1968. Acho que a doença também lhe concedeu o prêmio máximo da vida.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

YEATS E BANDEIRA: dois poetas formidáveis

Bandeira (à esq.) e Yeats

É curioso como The lake isle of Innisfree, de William B. Yeats (1865-1939), se assemelha a Vou-me embora pra Pasárgada, de Manuel Bandeira (1886-1968). Mas não tenho elementos para dizer quem influenciou quem, mesmo porque, em Itinerário de Pasárgada, Bandeira nem cita o nome de Yeats em relação ao processo criativo de seu poema mais famoso. Tampouco olhei data. Na verdade, pouco importa.

Os dois poemas são belíssimos, os dois poetas são formidáveis. O que os une é essa sofreguidão pelo distante, e ao mesmo tempo perto demais, na alma, como se quisessem jogar todo o cotidiano da vida para uma ilha, como se procurassem o autoexílio, flertando com o íntimo de si mesmo, explorando o alumbramento, o transe, no caso de Bandeira, evocando a natureza, pelo lado de Yeats.


The lake isle of Innisfree

I will arise and go now, and go to Innisfree,
And a small cabin build there, of clay and
Wattles made;
Nine bean rows will I have there, a hive for the
Honey bee,
And live alone in the bee-loud glade.

And I shall have some peace there, for peace
Comes dropping slow,
Dropping from the veils of the morning to
Where the cricket sings;
There midnight’s all a glimmer, and noon a
Purple glow,
And evening full of the linnet’s wings.

I will arise and go now, for always night and
Day
I hear lake water lapping with low sounds by
The shore;
While I stand on the roadway, or the pave-m
ents gray
I hear it in the deep heart’s core.



Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
-- Lá sou amigo do rei --
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

segunda-feira, 13 de julho de 2009

O PAPEL DOS CANALHAS: como García Márquez se tornou escritor

Contar histórias é um dom, não exatamente um dom de escritor. Mas às vezes – raras – encontramos alguém com as duas verves, o talento para contar histórias e a capacidade de narrá-las em palavra escrita, na arte do romance ou do conto.

É assim García Márquez. E veja como começou, segundo ele, que mentia um pouco, afinal, era um ótimo contador de histórias, a tal ponto que deu a seu primeiro volume autobiográfico o título Viver para contar, justamente onde se encontra o trecho abaixo.

Não consigo imaginar um meio familiar mais propício para a minha vocação que aquela casa lunática, em especial pelo caráter das numerosas mulheres que me criaram. Os únicos homens eram o avô e eu, e ele me iniciou na triste realidade dos adultos com relatos de batalhas sangrentas e explicações escolares para o voo dos pássaros e os trovões do entardecer, e estimulou minha afeição pelo desenho. No começo eu desenhava nas paredes, até que as mulheres de casa puseram a boca no mundo: a parede e os muros são o papel dos canalhas. Meu avô se enfureceu, e mandou pintar de branco uma parede de sua oficina de ourives, e me comprou lápis de cor, e mais tarde um estojo de aquarelas, para que eu pintasse à vontade enquanto ele fabricava seus célebres peixinhos de ouro. De vez em quando ouvia ele dizer que o neto ia ser pintor, o que não me chamou a atenção porque eu achava que pintores só pintavam portas. Gabriel García Márquez (Viver para contar, p. 82)

sexta-feira, 10 de julho de 2009

PARA QUEM QUER ENTENDER O IRÃ: seis livros essenciais


Agora em julho saiu na revista norte-americana The New Yorker uma nota sobre os seis livros essenciais para se entender o Irã. Quem dá as dicas é a jornalista Laura Secor, que está escrevendo um livro sobre o país. Leia-se nas entrelinhas, Laura está contribuindo para que sua pátria entenda melhor os costumes, as articulações políticas e as relações culturais iranianos.

Dos seis livros citados no texto, todos podem ser encontrados no Brasil, mas em inglês, no site da Livraria Cultura. Apenas um tem tradução para o português, o romance de Dalia Sofer, Setembros de Shiraz, publicado pela Editora Rocco. Para quem se interessar, segue a lista com o comentário da jornalista.

The Mantle of the Prophet: Religion and Politics in Iran, de Roy Mottahedeh (Livraria Cultura, R$ 74,65)

“Publicado originalmente em 1985 por Roy Mottahedeh, professor da Universidade de Havard, o livro é uma história intelectual, tão instigante e gracioso quanto um bom romance. O autor fala de um jovem clérigo que lutou contra o vasto e épico pensamento iraniano (persa), de Zoroastro a Avicena, de Kasravi a Khomeini. The Mantle of the Prophet é poético, didático e profundamente sensível. O estilo de Mottahedeh é esplêndido e seu conteúdo é um ensinamento aos leitores ocidentais que não fazem ideia da influência poderosa dos Shiitas e do pensamento persa ao longo dos séculos.”

An Islamic Utopian: A Political Biography Of Ali Shari'ati, de Ali Rahnema (Livraria Cultura, 418 páginas, R$ 110,66)

“Shari’ati foi o intelectual basal cuja mistura engenhosa de shiitismo com marxismo foi o combustível para a revolução de 1979. A biografia escrita por Rahnema conta a história de Shari’ati, mas, ao mesmo tempo, traça um importante perfil do Irã ao longo do período crucial da vida de Shari’ati, de 1933 a 1977. A década seguinte – os anos de chumbo da revolução, batalha pelo poder, execuções em massa, guerra civil, depressão econômica e a guerra contra o Iraque – aparece notavelmente como pano de fundo.”

Tortured Confessions: Prisons And Public Recantations In Modern Iran, de Ervand Abrahamian (Livraria Cultura, R$ 152,35)

“De forma corajosa e detalhada, este livro dá conta da ascensão do sistema prisional da República Islâmica, do abuso de poder e da matança dos dissidentes políticos no confinamento dessas prisões nos anos de 1980. As histórias desse tempo reverberam sombriamente até os dias de hoje.”

The Soul Of Iran: A Nations Journey To Freedom, de Afshin Molavi (Livraria Cultura, 355 páginas, R$ 44,18)

“Meu livro de relato jornalístico favorito é este, The Soul of Iran: A Nation’s Journey to Freedom, de Afshin Molavi, que tem uma visão íntima e cheia de nuanças do Irã. Seu livro introduz o leitor comum não apenas à história contemporânea do Irã e à luta de seu povo, mas também à tessitura cultural, à literatura e até mesmo à paisagem do país.”

Iran Awakening: A Memoir Of Revolution And Hope, de Shirin Ebadi (Livraria Cultura, R$ 69,11)

“Escrito em parceria com Azadeh Moaveni, tem a seu favor uma poderosa história pessoal que mapeia o arco da revolução iraniana e desce à funda violência e ao movimento pró-reforma.”

Setembros de Shiraz, de Dalia Sofer (Editora Rocco) (Livraria Cultura, 288 páginas, R$ 39,00)

“Também li recentemente, e amei, o incandescente Setembros de Shiraz, primeiro romance de Dalia Sofer, que conta a história de uma família judia que fora dispersa pela revolução – com partes indo para a prisão, Brooklyn e o cada vez mais esfacelado lar da família em Teerã.”

quarta-feira, 8 de julho de 2009

O PROBLEMA FILOSÓFICO PÓS-CAMUS

Camus: autor de O primeiro homem, romance autobiográfico inacabado

No livro inacabado e autobiográfico O primeiro homem, o narrador de Albert Camus se vê diante de um problema filosófico intrigante. O personagem nascido em 1913, não conhece o pai, porque este morrera em 1914, aos 30 anos de idade, recém-chegado ao fronte da recém-começada Primeira Guerra Mundial.

Quando Jacques Cormery, aos 40 anos, vai visitar a mãe, decide fazer uma visita também ao pai morto, sepultado num túmulo não muito longe da casa materna. Nosso personagem então começa a imaginar o absurdo da cena, ele ali, olhando para um pai que nunca conhecera, um pai que, a rigor, era mais jovem do que ele, pois havia vivido apenas 30 anos.

Agora, essa possibilidade da literatura filosófica camusiana, cujo esforço para imaginar o absurdo da cena era apenas intelectual, pode se tornar real, pelo viés surreal da ciência. É que os cientistas acabaram de conseguir criar um espermatozóide a partir de células-tronco.

A notícia está no site Globo.com, segundo o qual, pesquisadores da Universidade de Newcastle e do Instituto de Células-Tronco do Nordeste da Inglaterra são os autores da façanha. O texto é de Reinaldo José Lopes, que faz a seguinte constatação: “Não fosse pelas barreiras éticas e tecnológicas que ainda existem, a equipe de pesquisadores poderia ter criado um embrião que nem chegou a nascer e mesmo assim foi pai.”

A cena de Camus ficaria para trás em matéria de reflexão. Haveria um filho de 40 anos, abismado, olhando para um pai que não chegou a nascer, para um monte de células num laboratório. Nem Huxley, com Admirável Mundo Novo, nem Bradbury seriam mais eficazes. A vida é um cisco na poeira cósmica, dizem, e o resto é literatura. Não seria o contrário?

terça-feira, 7 de julho de 2009

LITERATURA E SUICÍDIO: viés da transgressão

Sócrates, obrigado a se matar, prestes a tomar a cicuta e discutindo
a imortalidade da alma em quadro de Jacques-Luis David (1787)

O suicídio é um tema antigo da literatura. Para quem encara a Bíblia como texto literário, já pode retirar daí um exemplo clássico, por assim dizer. Saul, o primeiro rei de Israel, se suicidou. O jovem Werther, personagem criado por Goethe no romance O sofrimento do jovem Werther, também se matou, por amor, ou por falta de um feedback amoroso.

Em O resto é silêncio, Erico Veríssimo trata da morte misteriosa de uma moça que cai do alto de um prédio, cujos indícios dão a entender que foi suicídio. O romance de Kenzaburo Oe, O grito silencioso, também trata do suicídio. O narrador encontra seu amigo dependurado numa corda, mortinho, nu e com um pepino introduzido no ânus, e aí começa o calvário da escrita.

Argemiro de Sant’Amour, personagem de O amor nos tempos do cólera, de García Márquez, se mata quando fica velho, por se sentir imprestável. Suicida-se junto com o cachorro, quer dizer, mata o cão, que não tinha nada a ver com a crise do seu senhor, ao inalar gás até a morte. Essa Terra, de Antônio Torres, conta a história de um rapaz que sai da terra natal, no interior da Bahia, para ganhar São Paulo, mas fracassa, e, ao voltar, não suporta o desconforto da vida e se enforca.

Em Romeu e Julieta há suicídio. Em O clube dos suicidas, de Robert L. Stevenson, o título já se encarrega do tema, que é recorrente na literatura adulta. Mas nos romances juvenis, será que há? Nos Estados Unidos, o escritor Jay Asher virou best-seller com Thirteen reasons why (Treze razões, em tradução literal), livro que aborda esse assunto espinhoso, para os adultos, talvez, porque para os jovens, nem tanto.

Antes ele do que eu

Segundo Josalyn Moran, vice-presidente da área de livros infanto-juvenis da Barnes & Noble, famosa rede de livrarias norte-americana, a morte sempre foi um tema popular entre a garotada.

Para Moran, em entrevista ao Sunday Book Review, caderno literário de The New York Times (9/03/2009), os adolescentes gostam de ler sobre situações que parecem piores do que aquelas em que eles se encontram. “Fazem isso para concluírem ‘Ok, minha vida não é tão ruim assim’.”, explica.

Eu particularmente não consigo me lembrar de nenhum livro tendo o suicídio como tema que tenha sido febre de jovens leitores brasileiros, e por isso me inclino a concluir que há algo de errado na alma da juventude norte-americana. Talvez eu esteja equivocado e o próximo passo do best-seller seja chegar ao Brasil e arrasar quarteirões.

Não li o livro. Mas também não estou escrevendo exatamente sobre ele, apenas sobre literatura e suicídio, e, de quebra, o que a mídia anda publicando a respeito desse romance de Asher.

Segundo matéria do El País (10/03/2009), por ocasião de seu lançamento em espanhol, a trama de Thirteen reasons gira em torno das gravações que Hannah Baker, menina de 16 anos, fez antes de cometer suicídio e da reação de seus colegas após ouvir o que estava gravado. Cada fita revela um episódio sobre um colega de classe que Hannah culpa por sua morte.

“As fitas são enviadas ao colega Clay Jensen, numa caixa de sapatos. Clay fica sabendo que são 13 as razões pelas quais Hannah se suicidou, ou seja, as 13 fitas cassettes se referem às 13 pessoas que devem escutá-las. E ele é uma delas. ‘É um jogo muito simples: primeiro as escuta, depois passa adiante’, diz Hannah na primeira fita descoberta.”

Treva

Desde que esse livro foi publicado nos Estados Unidos, em 2007, até março de 2009, ocasião das reportagens em The New York Times e no El País, haviam sido vendidos 158 mil exemplares no mercado norte-americano. É algo semelhante ao que aconteceu com Crepúsculo, de Stephenie Meyer, que também é a ‘treva’, para usar uma expressão em voga bem adolescente. O livro de Meyer fala de vampiros (morte em vida) e é um fenômeno, inclusive no Brasil.

É bem verdade que de todos os livros sobre suicídio citados neste post, Thirteen reasons why é o único voltado para o público jovem desde sua concepção. Mas O sofrimento do jovem Werther também atingiu esse público em toda a Europa do final do século XVIII, sempre propenso ao fatalismo, à morte, à visão mórbida do mundo, um tipo de espírito que predominou na estética por muito tempo, sob a batuta dos românticos ao largo da terra.

O suicídio é um tema recorrente na literatura. É uma espécie de veia psíquica da arte, o afluente principal da transgressão. Com exceção do sexo, não conheço nada mais transgressor do que a morte, e quando ela é trabalhada na concepção do suicídio, se for bem manejado, aí não há víscera que fique de fora. Até os vasos sanguíneos da ereção entram na jogada.

domingo, 5 de julho de 2009

STRANGE FRUIT EM VERSÃO BRASILEIRA COM SEU JORGE

Foto: Bettmann/Corbis/ Divulgação (9/08/1930)



“Eis uma fruta
Pra que o vento sugue
Pra que um corvo puxe
Pra que a chuva enrugue
Pra que o sol resseque
Pra que o chão degluta
Eis uma estranha
E amarga fruta.”

Trecho da letra de Strange Fruit, em versão novinha em folha de Carlos Rennó.
Foi a coluna da Monica Bergamo da Folha de S. Paulo deste domingo (05/07/09) que trouxe a bela matéria, cujo trecho segue abaixo:

Na década de 30, Abel Meeropol, um professor judeu do ensino médio do Bronx, em NY, colocou os olhos em uma das mais dantescas imagens do século 20: uma foto em que dois negros americanos pendem de uma árvore, depois de linchados por uma multidão em Indiana, no sul dos EUA. Sob o pseudônimo de Lewis Allan, ele escreveu ‘Strange Fruit’, que expressa o seu horror. Foi sua primeira, e única, canção gravada.

Ao descobrir e emprestar sua voz para ‘Strange Fruit’, Billie Holiday [veja abaixo vídeo no Youtube] a transformou num hino contra o racismo e numa das mais populares canções americanas. Não foi fácil: temendo represálias no sul, a Columbia, por onde ela lançava discos, não quis gravar a música; Billie recorreu à Commodore, selo alternativo de jazz. Era sempre a última música de seus shows. Ela exigia que os garçons parassem de servir e que as luzes se apagassem. Um foco de luz iluminava seu rosto e Billie entoava os versos da canção.





Eu não sabia dessa história”. A frase replicou o que eu dizia comigo mesmo ao ler o texto, por razões gerais. Mas quem disse mesmo foi o jornalista, letrista e produtor Carlos Rennó, por razões particulares (apenas sobre o episódio de Holiday, imagino). Rennó vai produzir “um disco de versões de músicas negras americanas, como Strange Fruit, compostas por judeus”, junto com o músico Jaques Morelenbaum.

Segundo a matéria, “No cardápio, clássicos como ‘My Romance’ com Gal e Carlinhos Brown, ‘Over The Rainbow’ com Zélia Duncan, ‘Bewitched’ por Maria Rita e ‘Strange Fruit’ por Seu Jorge.

Antes de cantar, Seu Jorge disse: ‘Preciso representar isso aqui. O que eu devo encarnar? Um amigo dos dois negros pendurados naquela árvore? Ou os amigos que perdi no Brasil?’. Os amigos. Ao final, todos choraram. ‘A versão desta canção tem relação profunda com as duas maiores escravocracias do mundo, a americana e a brasileira.’ A capa de ‘Nego’ é azul, vermelha, verde e amarela.

Para quem é assinante da Folha e não se deu conta dessa beleza de matéria e gosta de música, corra aqui.

Letra de Strange Fruit

Southern trees bear strange fruit,
Blood on the leaves and blood at the root,
Black bodies swinging in the southern breeze,
Strange fruit hanging from the poplar trees.

Pastoral scene of the gallant south,
The bulging eyes and the twisted mouth,
Scent of magnolias, sweet and fresh,
Then the sudden smell of burning flesh.

Here is fruit for the crows to pluck,
For the rain to gather, for the wind to suck,
For the sun to rot, for the trees to drop,
Here is a strange and bitter crop.

sábado, 4 de julho de 2009

O AMOR DE RIOBALDO - trecho de Grande Sertão: Veredas

Sério, quieto, feito ele mesmo, só igual a ele mesmo nesta vida. Tinha notado minha ideia de fugir, tinha me rastreado, me encontrado. Não sorriu, não falou nada. Eu também não falei. O calor do dia abrandava. Naqueles olhos e tanto de Diadorim, o verde mudava sempre, como a água de todos os rios em seus lugares ensombrados. Aquele verde, arenoso, mas tão moço, tinha uma velhice, muita velhice, querendo me contar coisas que a ideia da gente não dá para se entender – e acho que é por isso que a gente morre. De Diadorim ter vindo, e ficar esbarrado ali, esperando meu acordar e me vendo meu dormir, era engraçado, era para se dar feliz risada. Não dei. Nem pude nem quis. Apanhei foi o silêncio dum sentimento, feito um decreto: – Que você em sua vida toda por diante, tem de ficar para mim, Riobaldo, pegado em mim, sempre!... – que era como se Diadorim estivesse dizendo. Montamos, viemos voltando. E, digo ao senhor como foi que eu gostava de Diadorim: que foi que, em hora nenhuma, vez nenhuma, eu nunca tive vontade de rir dele. (Grande Sertão: Veredas, p. 252)

Esse trecho de Grande sertão: veredas, um pseudo segredo de brokeback mountain, fala tanto do amor de Riobaldo por Diadorim. Fala assazmente muito do medo de Riobaldo e do que se passa na alma de Diadorim. Tanto sobre o sertão e a metáfora dos olhos verdes, o céu e o inferno de Riobaldo. Tanto de um sentimento rastreado apenas pelo cinzel de Heidegger, pelo agir da linguagem, pela essência dela, desdobrada em sua magnitude de arte, ali, Riobaldo pensador, filósofo do sertão no porvir do sentimento amoroso. Filosofia e amor são duas coisas que procuram cavar a verdade do ser no ser, através do tempo. “Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.”

sexta-feira, 3 de julho de 2009

LEITURA E ARTE LITERÁRIA II: Bloom, Manguel e Proust

O crítico Harold Bloom lê em aula conferência

Harold Bloom, em Como e porque ler, nos diz que lemos para descobrir cérebros mais geniais do que o nosso, mas que a literatura não modifica nossa maneira de ser. Contrapondo a esta declaração, em No bosque do espelho, o escritor argentino Alberto Manguel diz: “Acredito que, às vezes, além das intenções do autor e das esperanças do leitor, um livro pode nos tornar melhores e mais sábios.”

Talvez Bloom tenha razão, no sentido de que toda consciência é crítica. Se existe uma consciência, existe a capacidade de contestar, muitas vezes adormecida, é verdade. De modo que a leitura não nos dá outra consciência, só desperta aquilo que já existe em nós.

Por outro lado, Manguel também tem razão, porque, se dormíamos e a leitura nos despertou, se continuaríamos a dormir sem o sussurro poético da palavra, modificamos, sim, e neste caso, podemos nos tornar melhores, mesmo havendo a possibilidade contrária.

Outra coisa que não podemos nos esquecer é de que todo grande autor é também um leitor atento. Por isso, o que eles dizem fora de sua literatura também deve nos interessar.

É nesse sentido que, além de Em busca do tempo perdido e outros livros, Proust nos deixou um pequeno legado em tradução para o português, Sobre a leitura (Editora Pontes, 64 páginas), em que ele lembra uma coisa interessante: “Nossa sabedoria começa onde a do autor termina, e gostaríamos que ele nos desse respostas, quando tudo que ele pode fazer é dar-nos desejos.”

Proust, reverberado por Bloom, já tinha ido além ao afirmar: “O poder de nossa sensibilidade e de nossa inteligência, não podemos desenvolvê-lo senão em nós mesmos, nas profundezas de nossa vida espiritual.”

Ou seja, ler o outro é importante, não porque aprendemos com ele o caminho da verdade e da vida. Pode até ser. Mas ler o outro significa, principalmente, a descoberta de algo novo em nós mesmos, alguma coisa da qual muitas vezes estávamos perto demais para descobri-la.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

LEITURA E ARTE LITERÁRIA I

“Lemos para nos encontrar, de um modo mais intenso e crítico do que poderíamos fazê-lo não fosse a leitura. (...) Exorto o leitor a procurar algo que lhe diga respeito e que possa servir de base à avaliação, à reflexão. Leia plenamente, não para acreditar, nem para concordar, tampouco para refutar, mas para buscar empatia com a natureza que escreve e lê.” (Harold Bloom).

Foto: Jesús Ciscar


A palavra como arte é subversiva, e é por isso que ela nos tira do curso monótono da vida. É preciso ter cuidado, porque ela pode nos guiar para mares inavegáveis. Esse desvio de rota é visto em personagens como Dom Quixote, Policarpo Quaresma, Emma Bovary e até o real Domenico Scandella, do livro de Carlo Guinzburg, O queijo e os vermes, que sofreram a influência da leitura.

Mas é aí que está a delícia da arte literária. A aventura dentro da qual o leitor se encontra compartilha elementos de quem escreve e de quem lê. A leitura literária é uma espécie de espelho que nos revela os caminhos mais secretos de nossa própria alma. Ler um bom livro equivale a explorar nossos sentimentos. Porque somos todos humanos.

Quem escreve pode ter uma visão mais larga, mais ampla daquilo que sentimos e vemos, daquilo sobre o qual também pensamos, e pode nos mostrar uma maneira mais plena de olhar o mundo.

Quem escreve pode inclusive nos dar a oportunidade de conhecer algo novo ou sobre nova perspectiva. Mas isso não significa que esse algo novo esteja fora de nossa própria existência. Na verdade isso pouco importa.

O importante é saber que a leitura da arte literária vai além da articulação da informação. Tem como fator principal a formação estética e o prazer. Com ela, aprendemos a olhar as coisas de modo diverso sem perder o princípio do prazer. E por isso mesmo, a leitura nos dá a capacidade de olhar para dentro de nós mesmos por intermédio da palavra do outro.

A literatura como arte lida com emoções, forja um conhecimento sensível que tem na emoção sua mola propulsora, por meio da qual se alcança o estético. Daí a palavra ‘estético’ vir de ‘estesia’, ou seja, sensibilidade. Outras palavras também têm sua raiz no vocábulo ‘estesia’, como anestesia e sinestesia, respectivamente, ‘sem os sentidos’ e ‘mistura das sensações’.

Desse modo, a literatura é sensual. E quanto mais concentrada em significado, quanto mais suas palavras forem polissêmicas, mais ela corresponde ao valor literário.

Ler é colher as palavras, abrir brechas na espessura misteriosa do texto e da vida. Conhecimento também é texto (tecido). Literatura também é conhecimento. Mas é um tipo de conhecimento, um tipo de saber que não se faz pela objetividade do mundo, de fora para dentro, mas pela articulação subjetiva das verdades.

Um exemplo desse conhecimento interior e do conflito que vem dele é o poema de Ferreira Gullar, Traduzir-se:

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
_ que é uma questão
de vida ou morte _
será arte?


A leitura do texto literário pode ser feita de várias maneiras. E não é porque queremos, é porque a própria literatura possibilita diversos modos de ver aquilo que está sendo dito. Citei a poesia, mas a prosa também se enquadra no elemento do espanto, do estranhamento.