sábado, 31 de maio de 2008

OS INSULTOS DE MENCKEN

“À postura aristocrática e direitista não corresponde necessariamente uma inteligência curta das coisas.” Darcy Ribeiro


Você já foi insultado por alguém desconhecido, por alguém fora de seu círculo de amizade? Ou já foi insultado por um amigo, parente, cunhado, vizinho? Insultado com palavras pífias ou num tom intelectual, por alguém de fina ironia e de erudição plena?

Muitos intelectuais, escritores provocadores, deixaram seus rastros na história justamente por essa veia iconoclasta, como Nietzsche, Luciano de Samos e H. L. Mencken. Este último escreveu um livro divertidíssimo, traduzido para o português como O livro dos insultos, por Ruy Castro. Nele, o autor destrata tudo e todos.

É o tipo de livro que só pode ser levado a sério com muito conhecimento, quase que com a mesma erudição de Mencken, para saber separar as gracinhas das coisas sérias (se é que elas existem). Como não tenho tal profundidade, só rio.

Veja algumas do velho Mencken (188-1956), não sem antes lembrar que ele foi um grande jornalista americano, polêmico e muito influenciado pela filosofia nietzschiana.

“Talvez o homem seja uma doença localizada no cosmos – uma espécie de eczema ou uretrite pestífera. Existem, é claro, diferentes graus de eczemas, assim como há diferentes graus de homens. Sem dúvida, um cosmos afligido por uma infecção de Beethovens jamais precisaria de um médico. Mas um cosmos infestado por socialistas, escoceses ou corretores da Bolsa deve sofrer como o diabo”.

“Se a verdade é sempre mal recebida, o erro é recebido de braços abertos. Qualquer homem que invente uma nova imbecilidade recebe salvas de palmas e torna-se o dono da verdade”.

“Não há registro na história humana de um filósofo feliz: só existem nos contos da carochinha. Na vida real, muitos cometeram suicídio; outros mandaram seus filhos porta afora e surraram suas mulheres”.

“Um relincho vale por 10 mil silogismos”.

“Acima de todos os quadrúpedes, o homem é o mais frívolo e idiota”.

“... o escritor, como qualquer outro suposto artista, é alguém em quem a vaidade normal dos outros homens é tão vastamente exagerada que ele não consegue retraí-la”.

Em O livro dos insultos, Mencken manda bala para todos os lados, e fala também sobre mulheres, religião, pintura, música. É divertido. Mas, claro, é preciso ter certo senso de humor.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

RAIMUNDO CARRERO: Sinfonia na lama

O escritor pernambucano Raimundo Carrero possui uma obra bastante considerável, entre romances, contos e crônicas e até um livro sobre a arte de escrever ficção (Os segredos da ficção). Sua oficina literária faz muito sucesso lá no Recife.

Seus títulos são ótimos, seu estilo, peculiar, mesmo porque, para ele, o estilo não está nunca no próprio autor, mas nos personagens, que estão sempre à beira da crise existencial e moral.

Soam intrigantemente singular seus títulos. Cito três: O delicado abismo da loucura, As sombrias ruínas da alma e Sombra severa. Mas quando se trata de singularidade na proposta estética, o romance Somos pedras que se consomem fica entre os melhores.

Trata-se de uma trama que se assemelha a uma sinfonia. E por tratar de assuntos tão terrenos, terrenos demais no campo da moral (toda ela), mais parece uma sinfonia na lama.

Com domínio absoluto da arte de narrar, Carrero faz o que quer com a história, levando-a para lá e para cá, aos quatro cantos da linguagem, dos experimentos narrativos, com a musicalidade de uma orquestra inteira.

A trama de Somos pedras que se consomem se faz no mundo aberto de três jovens loucos, formando um triângulo amoroso na capital pernambucana. O que vemos é um Recife carregado de promiscuidade e safadeza, fora do esquema burguês.

Dois rapazes e uma moça: Leonardo tinha um caso amoroso com a própria irmã, Ísis, que passou a se relacionar com o amigo do irmão, Siegfried, um sujeito que se dizia alemão.

História entrecortada por citações de todos os gêneros e graus: Sylvia Plath, John Updike, Norman Mailer, and so on. História marcada pelo abuso da morte, de ruminações políticas, injustiça social, sexo, sacanagem e poesia.

Somos pedras que se consomem mostra o mar de lama da vida, que é sempre bela como literatura. Desde que a literatura seja boa. E esta é, sim, o é, ah, se é.

O QUE NOS UNE É A LÍNGUA – E O MAR: Uma conversa entre Alberto da Costa e Silva e Manuel Alegre

Para quem gosta de literatura e aprecia a conversa dos grandes mestres vivos não pode deixar de ver este bate-papo entre Alberto da Costa e Silva, poeta, historiador e diplomata brasileiro, e Manuel Alegre, poeta português, intermediado por Ediney Silvestre.


Neste encontro, há uma incursão pela história da literatura em língua portuguesa, em que se fala das influências de ambos os lados, como o de Aquilino Ribeiro em Guimarães Rosa e Antônio Nobre e Antero de Quental em Manuel Bandeira. Uma delícia de bate-papo, realizado no Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, em 26 de dezembro de 2007.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

O CRISTO DE BRONZE: uma leitura do soneto de Cruz e Sousa

O grito pode ser de desespero, dor ou contentamento, mas há nele sempre algo de protesto ou de aviso, uma necessidade de comunicação urgente. Um grito poético tem como possibilidades todos esses ingredientes, apresentando, contudo, o diferencial do valor estético.

O grito poético é, portanto, aquele que se faz no espaço da poesia. E foi nesse espaço que Cruz e Sousa soube criar com maestria o efeito sonoro do pesar e do horror, mesclado com doses de riso e ironia.

É claro que sua poesia não é só isso. Com domínio da proposta simbolista, o poeta atingiu patamares altíssimos, jamais alcançados por seus pares. Mas, dado o ambiente e a época em que viveu, é de fundamental importância a abordagem dessa estética do grito em Cruz e Sousa. Como objeto de leitura que demonstra esse grito poético, vejamos o soneto O Cristo de bronze, publicado em Broquéis (1893).

Ó Cristos de ouro, de marfim, de prata,
Cristos ideais, serenos, luminosos,
Ensangüentados Cristos dolorosos
Cuja cabeça a Dor e a Luz retrata.

Ó Cristos de altivez intemerata,
Ó Cristos de metais estrepitosos
Que gritam como os tigres venenosos
Do desejo carnal que enerva e mata.

Cristos de pedra, de madeira e barro ...
Ó Cristo humano, estético, bizarro,
Amortalhado nas fatais injúrias ...

Na rija cruz aspérrima pregado
Canta o Cristo de bronze do Pecado,
Ri o Cristo de bronze das luxúrias! ...

O soneto expressa a dor velada pelo sarcasmo. Trata-se de uma voz de pesar e revolta, que no torvelinho do grito vai-se ouvindo mais alto o som da gargalhada. Conforme a disposição dos versos, o arranjo das rimas e a cadência das palavras, vê-se que o grito começa no alto, como um clamor, e vem descendo até chegar ao chão como uma risada. É um grito dolorido, marcado pela tensão do riso nervoso.

As duas primeiras estrofes têm na repetição da palavra “Cristos”, da interjeição “Ó” e das rimas em ‘ás’ e ‘ós’ a sugestão do grito que ecoa no corpo do poema, idéia reforçada pelas sílabas duras em ‘R’, que começam em “Cristos” e terminam em “enerva”.

Essa musicalidade acompanha a evocação de uma imagem matizada em amarelo, branco, prata e vermelho, que a luz arrebata e dá a conotação dramática, como a de um corpo ensangüentado, lembrando a figura de Jesus Cristo crucificado, mas que não o é. É mais que isso.

A palavra “Cristo” no plural, o adjetivo “ideais” e a própria palavra “cabeça”, que retrata “a Dor e a Luz”, remetem aos valores cristãos como doutrina. Trata-se de um clamor que evoca o ideal do Cristianismo, cuja altivez não tem máculas, segundo o poema. Mas essa evocação não serve para atender aos desejos do sujeito poético, e sim para que seja composto um quadro com duas imagens que se confrontam.

Sabemos disso à medida que os ideais cristãos são enfraquecidos no sétimo verso para dar cor a uma outra figura, cuja feição aparece a partir do “desejo carnal que enerva e mata”. Mas, mata o quê? Mata os ideais de santidade nas pessoas, macula a imagem de Cristo, que se torna comum. Os Cristos que eram “de ouro, de marfim, de prata”, agora são “de pedra, de madeira e barro.” O poeta vai além. Eis que num salto, do plural, Cristo vai para o singular, passa a ser um só, e humano. Enquanto isso, o atrito continua nas sílabas em ‘R’ até o último verso.

Mais do que humanizar Cristo, o poeta individualiza a divindade. Mais ainda, transforma Deus num esteta, num poeta, portanto. Ou seja, faz de si mesmo um deus. Logo, a sugestão não é de um deus poeta, mas de um poeta deus. E aqui está a ferocidade do grito, a mão fechada batendo no peito.

O poeta agora é deus. Um deus estranho, bizarro, porque não tem forças para se ver livre de uma condenação. É um pobre deus, “amortalhado nas fatais injúrias”, condenado a ser pregado na cruz. Mas, ainda assim um deus.

A cruz não aparece na imagem dos “Cristos”. E é exatamente no primeiro verso da última estrofe que confirmamos a sugestão de que o poeta havia se transformado em um deus, um Cristo desgraçado, pela fusão do nome do objeto de tortura no nome do próprio poeta: É ele, o poeta, que está na cruz.

Embora condenado, pregado na cruz, ele não se entrega. Ele canta, em vez de se calar; ele ri, em vez de chorar e clamar “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mateus, 27, 46), tal como fez Jesus.

Se voltarmos à primeira estrofe, veremos que dentro do clamor, da evocação, já havia o riso, o riso que está inoculado na palavra que mais se repete no poema – Cristo – e nos vários vocábulos ao longo dos versos, no verbo “gritar”, nos substantivos “injúrias”, “luxúrias”, no adjetivo “rija” e no superlativo “aspérrimo”. E é esse riso que une as duas imagens, é ele que sela o contraste do poema.

Contexto histórico

Esse riso é nervoso. É o riso entrecortado pelo grito de um deus cantante que protesta. É um deus negro do entusiasmo, um Dionísio de bronze, que rejeita a rendição. Se levarmos em conta o contexto histórico da situação do negro, podemos tirar algumas lições do que o poeta pode ter sugerido na construção do poema.

A escravidão fora abolida pouco tempo antes da produção de Broquéis. O país ainda vivia sob os estertores do uso da mão-de-obra escrava. Na escravidão, o tratamento do negro era regado a crueldades e descaso. Isso numa nação cujos senhores escravocratas se diziam seguidores dos ensinamentos de Cristo, que prega o amor e a bondade em palavras que dizem “assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros” (João, 13, 34).

Os ideais de Cristo, no entanto, não eram compatíveis com os testemunhos da dor do negro, tratado a chibatadas, submetidos a vários tipos de tortura. Os ideais cristãos eram pulverizados diante da perversidade de todos os tipos, inclusive a sexual, existente na relação entre brancos e negros. “A perversidade pura e simples foi um componente constante nessa relação”, comenta Eduardo Bueno, em seu livro Brasil: uma história – a incrível saga de um país.

“O que mais poderia explicar, por exemplo, o fato de ter surgido no Brasil a crença de que ‘para o sifilítico não há melhor depurativo do que uma negrinha virgem’, defendida, ainda em 1869, por um certo Dr. João de Azevedo Macedo Jr.? Ou a confissão que um ‘sacerdote de missa’ fez ao visitador inquisitorial, na Bahia, em 1591, revelando que, certa noite, levara para sua casa ‘uma negra, que seria de idade de seis ou sete anos’, e ‘a penetrou pelo traseiro’?”

Entre os castigos dos escravos, há o chicote – de oito tiras de couro espessas e retorcidas – que produz forte efeito quando seco, mas que, quando amolecido pelo sangue, “precisa o carrasco trocá-lo, mantendo para isso cinco ou seis ao seu lado”. Mas há também outras punições, como a castração, a quebra dos dentes a martelada, a amputação dos seios e o vazamento dos olhos.

Cruz e Sousa tinha conhecimento desse tipo de histórias. Era filho de escravos. Conhecia a dor do negro como ninguém. Via a contradição entre os ideais cristãos e a vida que levavam os donos do poder.

Formado dentro dos princípios do Cristianismo, experimentava o paradoxo de um ideal que valia como adorno nas igrejas, na escritura sagrada, que dava ao branco o status do homem correto, bondoso, mas que, ao mesmo tempo, permitia a tortura contra os negros, os maus tratos, a desvalorização do negro como ser humano, como homem dotado de espírito e de inteligência à altura dos dotes intelectuais do branco.

Via a si mesmo nessa contradição, um negro entregue à religião do branco opressor, e certamente via a mulher branca como aquela que o tratara com todo o carinho quando criança e lhe dera educação.

sábado, 24 de maio de 2008

A OUTRA VOZ: o rastro da modernidade na leitura de Octavio Paz

“Meu medo é que minhas razões não convençam muita gente.” Octavio Paz

Em A outra voz, publicado originalmente em 1990, o poeta e ensaísta mexicano Octavio Paz revela sua preocupação com os rumos que a poesia vinha tomando. Para ele, a poesia contemporânea do final do século XX vivia uma crise sem precedentes.

Na concepção do poeta, o nobre gênero se via sujeito aos ditames do mercado, e isso era o pior dos males. É verdade que as outras artes, como a música e a pintura, também se encontravam na mesma situação, o que apenas reforçava o temor do velho bardo, falecido há dez anos.

Segundo Paz, ao longo da história da literatura, os poetas se apoiaram em duas vertentes basais, a verve mítica/religiosa, como em Homero, Dante Alighieri, William Blake e John Milton, e o fervor revolucionário, como em Friedrich Hölderlin e William Wordsworth.

Mas a partir do século XIX, a Modernidade trouxe à sociedade ocidental uma outra leitura da realidade, em que as artes deixaram de seguir somente as lições do passado e começaram a ser criadas também em novos parâmetros, totalmente contrários aos que já existiam.

A poesia adotou o princípio da negação da tradição e passou a viver o breve, o efêmero, como sendo a essência do novo, numa época em que “mil coisas solicitam ao mesmo tempo nossa atenção e nenhuma delas consegue nos segurar.”

Essa nova concepção de mundo não estava só nas artes, mas também no mercado, e provavelmente foi o que fez a arte envolver-se com a lógica de produção tão comprometedoramente, no ponto de vista do poeta mexicano.

Foi essa mesma visão que levara Karl Marx, ainda no século XIX, a comentar em seu Manifesto Comunista que “a subversão contínua da produção, o constante abalo de todo o sistema social, a permanente agitação e insegurança distinguem a época burguesa de todas as precedentes. (...) Todas as relações tornam-se superadas antes mesmo de se estabelecerem. O que parecia sólido, desaparece.”

Essa reflexão de Marx desencadeou uma série de considerações críticas que mais tarde dariam à luz ao conceito de pós-modernismo. Foi com base na reflexão marxista, por exemplo, que o crítico Marshal Berman escreveu o livro intitulado Tudo que é sólido desmancha no ar.

Afirmação e negação

O ápice dessa característica marcante da Modernidade ocorreu nas primeiras décadas do século XX, com a arte se opondo à própria modernidade, marcando justamente o que seria a Pós-modernidade, conceito tão controverso quanto à produção artística do século passado.

Tanto é assim que Paz se recusa a rotular o século XX de pós-moderno. Ele argumenta que, no caso da poesia, para atermos apenas ao nosso objeto de reflexão, os sintomas vividos nessa época já estavam em Baudelaire, Rimbaud, Walt Whitman e em muitos outros poetas do século XIX.

Para Paz, entre a religião e a revolução, está a verdadeira voz da poesia, aquela que persiste no íntimo do poeta, que é puxada pelos fios do mais profundo ser, os fios da memória, vinda da tenra infância, carregada de tudo que se aprendeu até o momento da criação poética.

Segundo ele, a afirmação e a negação da modernidade são dois princípios inerentes à poesia moderna, e não há nada mais moderno do que isso. O problema, diz o poeta, é que a poesia estava se rendendo ao mercado.

“Hoje as artes e a literatura estão expostas a um perigo distinto: não se vêem ameaçadas por uma doutrina ou um partido político onisciente, mas sim por um processo econômico sem rosto, sem alma e sem rumo.”

Com base nesse pano de fundo histórico e no cenário da poesia contemporânea, Paz lança seu grito de misericórdia, por acreditar que tudo se encontrava à deriva, e que por isso era preciso refletir sobre a poesia. “O urgente, hoje, é saber como vamos assegurar a sobrevivência da espécie humana. Diante dessa realidade, qual pode ser a função da poesia? Que pode dizer a outra voz?”

À sua pergunta, ele mesmo arrisca uma resposta: “Já disse que se nascesse um novo pensamento político, a influência da poesia seria indireta: lembrar certas realidades enterradas, ressuscitá-las e apresentá-las. Diante da questão da sobrevivência da espécie humana em uma terra devastada e desolada, a resposta não pode ser diferente. Sua influência [a da poesia] seria direta: sugerir, inspirar e insinuar.”

terça-feira, 20 de maio de 2008

BELEZA DOADA


“A beleza de uma mulher não é só dela. É parte do dote que ela traz ao mundo. Ela tem o dever de repartir com os outros.”

A frase, retirada do livro de J. M. Coetzee (Desonra), parece machista, mas revela um traço singular da alma humana. Todo ser sensível já se deparou um dia com algo tão belo, tão encantador que sentiu vontade de levar consigo.

Uma mulher não é um simples objeto. Ela pensa e sente, ela tem o privilégio do usufruto da razão. A frase faz da razão uma arma para reivindicar, exigir, assaltar a beleza feminina.

A frase quer convencer a mulher bonita de que ela, por ser mulher e ser pensante, e bela, tem o dever de compartilhar essa beleza, porque ela mesma sabe o quão irresistível é o belo.

Por ser elemento da Natureza, por ser objeto estético e de reflexão social, a beleza de uma mulher é fonte necessária da vitalidade do olhar, do toque, do acolhimento de todos nós.

A frase sugere uma ampliação do conceito de doação. Todas as mulheres devem ser belas. Todos os homens devem usufruir dessa beleza. É como passar num jardim e se sentir no direito de levar uma flor, porque todo jardim deve ser repartido. O Paraíso democratizado. Canalhice ou verdade?

segunda-feira, 19 de maio de 2008

LOU SALOMÉ: luz de primeira grandeza

Foto de Lou Andreas-Salomé (1861-1937) tirada em 1900


Todos os homens se curvavam diante dela. Todos morriam de amores, e alguns, literalmente, buscaram a morte ou se refugiaram na loucura por causa dela. Até Freud, o gênio conhecedor da alma humana, dobrou a sua e disse: “você tem um olhar como se fosse natal”.

Rainer Maria Rilke, o poeta alemão, manifestava seu amor a Lou assim: “És meu dia de festa. Quando te encontro em sonho, sempre tenho flores nos cabelos”. O amor nesta mulher era mesmo sempre primavera, e fecundava a alma de qualquer homem.

Lou Andreas-Salomé (1861-1937), intelectual e beldade russa que fez meio mundo cair aos seus pés, entre eles, Nietzsche, Paul Rée, além de Rilke, de quem foi amante, e Freud, que se não derreou de desejos, pelo menos de profunda admiração por ela.

Filha de Gustav von Salomé (general russo, oficial do Czar) e de Louise von Salomé, Lou nasceu na cosmopolita São Petersburgo do século XIX, mas dilacerou corações por toda a Europa. Sua história é contada por muita gente, inclusive por ela mesma, numa autobiografia cujo título leva seu nome.

Entre seus biógrafos, está a brasileira Luzilá Gonçalves Ferreira, que após pesquisar sua vida para uma conferência, que acabou fazendo parte do livro Os sentidos da paixão, se apaixonou pela singular história de vida de Lou Salomé, e escreveu Humana, demasiado humana, que narra o caminho trilhado por esse ponto de luz mais cintilante que os outros.

O livro de Luzilá é interessante, mas Lou é mais ainda. Ela sobressai, salta das páginas e ganha vida, com seu sorriso largo, suas convicções firmes sobre o mundo que a cerca.

Os que não eram homem o suficiente para amá-la se juntavam às mulheres e a maldiziam, chamando-a de Don Juan de saias, devoradora de homens, e outros epítetos pouco galanteadores. Mas seus amigos, lhe compensavam: “Uma mulher generosa, humana, riso contagiante, inteligência rápida, espontânea, curiosa”.

Os amigos não foram poucos. Conheceu e conviveu com gente de alto quilate. Além dos já citados, seu círculo de amizade contava com Wagner, Tolstoi, Hofmannsthal, Strindberg, Hauptman e Buber. De Freud foi amiga e aluna. O pai da psicanálise tinha tanta confiança em sua discípula inteligentíssima que passou a ela a tarefa de analisar a filha dele.

É na obra de Luzilá que o presente texto finca os pés para falar dessa mulher apaixonante. Numa das passagens do livro, a autora diz que a relação de Lou com o pai era de amor intenso e de profunda admiração. E acrescenta que isso certamente contribuiu para que Lou, em suas relações amorosas, tivesse traçado uma eterna busca pelo amor do próprio pai.

Talvez por isso tenha se casado com um professor chamado Carl Andreas, 15 anos mais velho que ela. Foram marido e mulher durante mais de quatro décadas, até a morte dele.

Rilke, Nietzsche e Rée

Nesse ínterim, “era vista com outros homens por toda a Europa”. Mas seus laços amorosos mudaram de foco à medida que ela mesma envelhecia. Um sujeito chamado [barão von] Gebsattel, 20 anos mais jovem, foi um dos que se engraçaram com seu charme. O outro, 19 anos mais moço, era Rilke.

Quando Rilke conheceu Lou, em 1897, sua vida mudou. Ela, além de seu coração, deu ao poeta um novo nome, pelo qual se eternizou. Antes, ele se chamava René-Marie Rilke. Foi ela, o amor de sua vida, quem o batizou de Rainer Maria Rilke, em 1910, depois que o affair entre eles já havia acabado, mas não a amizade. “A vasta correspondência que se inicia entre os dois só terminará com a morte de Rilke, e é um dos mais belos e pungentes documentos humanos em forma de cartas”, diz Luzilá.

Sucesso de uns, malogro de outros. Em 1882, portanto, antes de Rilke, um sujeito bigodudo, profundamente erudito, quis conhecer Lou. Era Nietzsche (15 anos mais velho que ela). Primeiro ela conhece Paul Rée, e é por intermédio deste que se apresenta ao filósofo de Zaratustra, que aliás ainda nem havia escrito tal obra.

Rée escreve a Nietzsche e conta-lhe os planos de os três morarem juntos na Itália ou na França. E ele responde: “‘Saúdem esta jovem russa por mim, se julgam oportuno: estou faminto por este tipo de espírito. Logo vou começar a caçar – em vista do que tenho intenção de fazer nos próximos dez anos, preciso dela’”. Não se deu muito bem com a autoconfiança. Nem ele, nem Rée, nem muitos outros que tinham tal imagem de Lou: mulher leviana com certa presença de espírito.

Nietzsche chegou a pedir a Lou em casamento duas vezes, e duas vezes ouviu um educado “não” (mesmo porque ela já era casada, não nos esqueçamos). Ele, que já não era muito aberto com as mulheres, se trancou em sua filosofia, vasto mundo, e passou a nutrir um certo ressentimento pelo gênero feminino.

Alguns anos depois, escreveu em seu Zaratustra a célebre frase, de citação obrigatória a quem não tem o que fazer e quer tachar o dionisíaco pensador de misógino: “Vais ter com mulheres? Não esqueças o chicote!”.

Diretamente ou indiretamente a ver com essa paixão despertada, muitos fins trágicos desse pessoal interessado no amor de Lou se consumaram. Nietzsche enlouqueceu, e morreu completamente abilolado, em 1900, sem reconhecer ninguém. Paul Rée se suicidou. E ainda há outro, chamado Tausk, que também se apaixonou e de igual modo deu cabo da própria vida, ao ser rejeitado por Lou.

Até Rilke chegou a pensar em suicídio, depois que ele e ela finalizaram o romance. Mas não levou adiante a idéia. Era religioso o bastante para pensar duas vezes nos mistérios da vida e da morte, e optou pelas cartas trocadas com seu amor platônico a partir de então.

Após irradiar luz para o mundo intelectual machista do fim do século XIX e do começo do XX, Lou Salomé envelhece, e parece ainda mais bonita, ainda mais irradiante. Mas é assim que acontece com todas as estrelas. No fim de sua combustão, seu clarão aumenta e ilumina mais do que de costume. Até o sol se apagará um dia. E a luz de Lou se apagou, aos 76 anos de idade, em 1937, na cidade de Gottingen, Alemanha, onde morava.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

BLUES

Como negar a tristeza, se ela me abraça, me caça, me embala no abalo do blues, no ritmo désolé da arma cravada na alma!

É de imaginar a intensidade da dor doida que saía das cordas dos negros tristes a cantar. As vozes na noite. As lágrimas tácitas, o sorriso em riste, a cara posta a tapas na canção e a dor doída do blues.

Notas de choro, dor de abandono, assomo de tristeza e beleza na canção jogada ao vento até se encontrar nas paradas de rádio e televisão, até se encontrar nos lábios, na voz, na mente, de cor, no coração de todos, brancos e negros, o blues.

Até se transmutar para o interesse classudo da elite pensante. Até se esquecer dos açoites, dos murros e dentes quebrados, das lembranças transoceânicas, dos uivos acoitados na escuridão da existência, permeada pelo feixe de luz que saía do sorriso do negro longe de casa.

O que é belo vem de dentro. Blues do azul do céu sem fronteiras. Blues da tristeza em mim.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

O EXERCÍCIO DA TRADUÇÃO

Veja três casos de tradução de um mesmo fragmento poético de Safo e escolha a versão mais bela.

“Uns, renque de cavalos, outros, de soldados,
outros, de naus, dizem ser sobre a terra negra
a coisa mais bela, mas eu (digo): o que quer
que se ame”

(Tradução de Giuliana Ragusa)


“É um batalhão de infantes – ou de cavaleiros
– dizem outros que é uma frota de negras naus
A mais linda coisa sobre a terra – para mim,
É quem tu amas.”

(Tradução de Joaquim Brasil Fontes)


“Alguns dizem que o que há de mais belo na Terra é um esquadrão de cavalaria;
Outros, um exército de guerreiros apeados;
Outros ainda, uma esquadra de navios;
Mas o mais belo é ser amado por quem o coração suspira.”

(Tradução de Artur M. Parreira [retirado de Paidéia, de Werner Jaeger], provavelmente do alemão, tal como o livro de Jaeger.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

OPERAÇÃO SHYLOCK: a campanha anti-sionista de um falso Philip Roth

Philip Roth (1933 - )


Para quem Philip Roth escreveu Operação Shylock, publicado no Brasil em 1994? Para todos? Para ninguém? De toda a obra polêmica, provocativa e deliciosa do escritor americano esta é sem dúvida a mais alfinetadora da condição judaica.

Depois dele, Roth escreveu vários outros, entre os quais, O teatro de Sabbath, Pastoral Americana, um de seus melhores romances, e recentemente, Complô contra a América e A marca humana. Operação se diferencia dos demais pela contundência com que o autor ataca seus irmãos.

Roth foi o enfant terrible dos judeus do pós-guerra nos Estados Unidos. Filho de família judia, nasceu em 1933, na pequena Newark, New Jersey. Aos 26 anos publicou seu primeiro livro, Goodbye, Columbus, em que usa o humor e a ironia para espinafrar seus pares.

Em 1969 lançou um dos livros mais comentados na década seguinte nos Estados Unidos: Complexo de Portnoy; um hino ao sexo e à porralouquice, irreverente, calcado na teoria psicanalítica, em que Alexandre Portnoy é um sujeito viciado em masturbação, e que não consegue esquecer a mãe por nenhum segundo, em tudo que faz.

Foram tantos romances maravilhosos e cheios de artimanhas de linguagem até Operação Shylock que um jornalista americano, ao resenhar o livro, chegou a perguntar: “o que falta aparecer nas obras de Roth?”, e responde: “o próprio Roth em dose dupla”.

Não mais. Em Operação Shylock, o autor mistura ficção e realidade e aparece ele mesmo como o escritor famoso Philip Roth e um sósia que se faz passar por ele, em Israel, articulando uma campanha estranha, a fim de arrecadar dinheiro para levar os judeus de volta à Europa.

E aí começa toda a confusão. As alfinetadas apontam para o dorso fino daqueles judeus que pregam sua eterna condição de vítima. Quem toca nesse assunto sempre corre o risco de uma acusação de anti-semitismo. Mas é Roth quem fala, um igual, e aqui segue apenas o que se passa em seu polêmico romance.

Em certa passagem, por exemplo, um árabe chamado Ziad que mora em Jerusalém e é amigo do Roth escritor, lhe diz: “Adorei o Complexo de Portnoy, Philip. É sensacional! Passo-o para meus alunos na universidade. ‘Aqui está um judeu’, eu digo a eles, ‘que nunca teve medo de dizer o que pensa sobre os judeus. Um judeu independente, e tem sofrido por isso, também.’ Tento convencê-los de que existem judeus no mundo que não são absolutamente como os que temos aqui. Mas pra eles o judeu israelense é tão mau que acham difícil acreditar. Olham em volta e pensam: que foi que eles fizeram? Cite uma única coisa que a sociedade israelense tenha feito! E, Philip, meus alunos estão certos – quem são eles? Que fizeram? As pessoas são rudes, barulhentas e empurram a gente nas ruas. Eu morei em Chicago, em Nova York, em Boston, morei em Paris, em Londres, e em lugar nenhum vi gente assim na rua. Que arrogância! O que criaram eles como vocês judeus lá fora no mundo? Absolutamente nada. Nada além de um Estado fundado na força e na vontade de dominar.”

O esquema da obra se estrutura como histórias extraídas de um diário de Philip Roth. O que é uma farsa. Não é de fato o Roth tal como se conhece, embora pretenda sê-lo. Pretende ser o homem e não a ficção do homem, mas não o é.

Para começar, Roth aborda o caso real de John Ivan Demjanjuk, que em 1988 foi acusado de executar judeus no campo de concentração de Treblinka, como operador da câmara de gás, na Segunda Guerra Mundial. Demjanjuk fora encontrado em Cleveland, nos EUA, como operário da indústria automobilística e levado a Israel para julgamento.

Mas a história é só um pretexto para Roth fazer sua ficção. No ano do julgamento de Demjanjuk, Philip Roth descobre que o tal sósia está em Jerusalém, agindo em seu nome por uma causa pouco convencional, o diasporismo. E resolve viajar para lá, sob o pretexto de entrevistar um escritor, seu amigo, como de fato o faz, mas no fundo o que quer mesmo é saber mais sobre o usurpador.

O falso Roth – que a certa altura da história passou a ser chamado de Moíshe Pipik, por Roth – havia publicado um artigo dizendo que os judeus deveriam voltar para a Europa, que lá era mais a sua casa do que o próprio Estado de Israel, e que, ao voltarem, eles estariam impetrando uma vitória a Hitler e ao nazismo.

O sionismo deve acabar, dizia ele. Hitler foi um problema menor do que é o conflito com os palestinos, dizia ele. A idéia de um extermínio dos judeus em Israel com uma bomba atômica é menos absurda hoje (década de 80) do que era a do Holocausto naquela época. Era a tese do falso Roth.

E nesse esqueminha montado pelo autor, a trama se desenvolve com uma liberdade incrível para falar do que ele quiser sobre os judeus, a favor e contra, porque no fim das contas o responsável pela história toda é o falso Roth, o Moíshe Pipik, que em iídiche quer dizer Moisés Umbigo, significando um sujeito, pejorativamente, pregador de peças.

Quem não se lembra do E.T. de Spielberg, quando o garotinho descobre a criatura na dispensa da casa e diz que há alguém lá, e ninguém acredita, e sua mãe o chama de Pipik? Pois é. Eis aqui o Pipik de Roth, ou seu próprio lado pícaro, risonho e travesso, cujo propósito é dar algumas cutucadas na história de seu povo.

Trechos:

“Os judeus têm fama de serem inteligentes, e são inteligentes. O único lugar em que estive onde todos os judeus são burros é Israel.” (Ziad, p. 112)

“Sabem o que é um judeu? Um judeu é um árabe que nasceu na Polônia.” (numa fita gravada pelo falso Roth, uma fita inteira de ofensa aos judeus, logo ele, que se dizia defensor da causa judaica, né!; p. 229)

“‘O Mossad vai mandar me matar, como fez o aiatolá com Rushdie?”’ (Philip Roth narrador, p. 342)

O falso Roth havia fundado uma associação, a A-SA: Anti-Semitas Anônimos; um grupo de recuperação de pessoas que odeiam os judeus (puro sarcasmo de Roth), que tem até uma lista com dez princípios anti-semitas. Eis alguns desses princípios:

“1) Admitimos que somos pessoas de ódio, inclinadas ao preconceito e impotentes para controlar nosso ódio.

“4) Nossos problemas de dinheiro não são criação dos judeus, mas nossa.

“5) Nossos problemas de emprego não são criação dos judeus, mas nossa (e também nossos problemas sexuais, conjugais, comunitários).

“6) O anti-semitismo é uma forma de fuga da realidade, uma recusa a pensar honestamente em nós mesmos e em nossa sociedade”. (p. 91).

terça-feira, 13 de maio de 2008

POESIA E RITMO: um pequeno estudo sobre a função poética

“Monta, amigo, e vai guiando, que eu te sigo na andadura que te parecer”. Dom Quixote de la Mancha, a seu fiel escudeiro, Sancho Pança


Tudo tem seu ritmo. Tudo, portanto, pode virar poesia. Tornaram-se poemas os sapos de Manoel Bandeira, a cidadezinha de Drummond e o barco bêbado de Rimbaud.

Do mesmo modo, a depender do talento e do trabalho do poeta, podem se tornar poemas a construção de um edifício em São Paulo, Nova York ou Shangai, a armação de uma choupana, às margens do Rio Negro, o carrinho de picolé sendo empurrado por um garoto nas ruas de uma cidade pequena e o rumor do deserto, com fios de sons cortando o silêncio.

Qualquer ação no espaço pode virar ritmo na palavra. Qualquer movimento intercalando o tempo pode se tornar poesia.

Primeiro capta-se o ritmo, depois encontram-se as palavras e o sentido. É o que nos ensinam os formalistas russos sobre a criação poética. Segundo Osip Brik, ritmo é toda alternância regular, e ritmo poético “é a alternância das sílabas no tempo.”

Mas a poesia não depende apenas do ritmo para existir. Sua matéria-prima é a palavra, e por isso, após encontrar o ritmo de seu objeto poético, o poeta ainda precisa achar as palavras que possibilitem a cadência interior dele mesmo, encaixando as duas alternâncias rítmicas de modo a produzir um sentido, e assim o poema ressoará a outra voz (na concepção de Octavio Paz).

Assim como todas as coisas, todo mundo tem um ritmo interior, poeta ou não. E é aí que talvez esteja a resposta para qual seja a função da poesia. Se tal função existe, ela é estética, sem dúvida. E a estética contida na poesia toca o sentimento estético contido no leitor.

É possível que esse contágio se dê pelo ritmo que há no leitor, cujo procedimento estético apresenta certas linhas rítmicas semelhantes ao do poema lido. Talvez, por esta mesma razão, alguns poemas sejam reconhecidos como profundos e geniais, mas que ainda assim, não conseguem tocar a sensibilidade profunda de determinados leitores, enquanto outros poemas o fazem facilmente.

Ao se tornar universo e fazer de sua polissemia um banquete explosivo de prazer estético, o poema demonstra sua função. Esta seria a de retirar o leitor da monotonia da vida, do ritmo único, automático a que foi submetido pela invariabilidade cotidiana.

De acordo com Viktor Chklovski (outro formalista russo), a arte é um conjunto de procedimentos cujo objetivo é assegurar a percepção estética de seu objeto, seja ele uma escultura, um quadro ou um poema.

Essa percepção é capaz de modificar a vida do apreciador do objeto artístico, é capaz de alterar seu ritmo interno, de modo que perceba certos aspectos da vida que ele antes não notava. Em outras palavras, oferece-lhe um novo olhar, como bem explica o crítico russo:

“Se examinarmos as leis gerais da percepção, vemos que uma vez tornadas habituais, as ações tornam-se também automáticas. Assim, todos os nossos hábitos fogem para um meio inconsciente e automático. (...) Eis que para devolver a sensação de vida, para sentir os objetos, para provar que pedra é pedra, existe o que se chama arte.”

A literatura é “arte carregada de significado”, diz Ezra Pound. E a poesia é sua expressão máxima, por concentrar no menor número de palavras o mais elevado grau de significado. Essa carga de significado que, segundo Pound, é feita de três tipos de condensação, a saber, fanopéia (imagem do objeto), melopéia (correlações emocionais pelo som) e logopéia (associação intelectual pelas palavras empregadas), é a responsável pelo sentido poético percebido pelo leitor.

E essa condensação é o corpo da poesia, cujos procedimentos são construídos de acordo com o efeito que quer o poeta, exigindo muito de uns procedimentos e pouco de outros; entre eles estão o ritmo, as figuras de linguagem (metáfora, comparação, aliteração etc.), o paralelismo, a rima e a repetição. A poesia passeia pelo espírito como quem cavalga, sempre na andadura que nos parece melhor.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

ÉS VERDAD

O trecho abaixo é do historiador uruguaio Eduardo Tomas, explicando quem eram os inimigos dos jesuítas em texto didático (extraído de Baú de ossos, de Pedro Nava).

“... en primer logar los mamelucos de San Pablo (Brasil), por lo que se llamaban también paulistas. Éran estos uma raza de bandidos, mezcla de índios con presidiarios y gente de mal vivir deportados de Portugal. Vivian del robo y del asesinato. Invadían a sangre y fuegos las comarcas vecinas, llevándose a los naturales para venderlos como esclavos.” P. 169

É verdade. Mas, fico aqui pensando: quem seriam os colonizadores da América Espanhola? Quem seriam os fundadores do Uruguai? Lordes de fino trato com os nativos?

domingo, 11 de maio de 2008

A RETINA EM MOVIMENTO: o cinema dos olhos de Vinicius de Moraes



O cinema de meus olhos é a reunião de textos sobre cinema de Vinicius de Moraes (1913-1980), publicada postumamente sob organização de Carlos Augusto Calil, em 1991. É uma obra peculiar dentro da crítica cinematográfica, o que já se evidencia pelo próprio título.

Na verdade, é muito mais um livro de crônicas do que de crítica propriamente, num sentido tradicional. A maioria dos textos não vai além do convite a sentirmos a verve de Vinicius, o que não é pouco, mas muitas vezes nem isso, em função até do tempo transcorrido desde então, em que muitos interesses mudaram de foco.

Há, no entanto, bons momentos de leitura, como os primeiros textos sobre Orson Welles, de quem Vinicius era amigo, um outro sobre a primeira vez que o poeta viu pessoalmente a atriz Marlene Dietrich, e ainda um texto sobre Grande Otelo, avaliação muito positiva sobre o jovem Otelo, em 1943.

Ele escreveu sobre seus filmes e astros prediletos e acerca de alguns de sua predileta antipatia durante 20 anos, da década de 40 à de 50 do século passado. Parte desse período, ele viveu nos Estados Unidos, onde representou o Brasil como vice-consul. Era um apaixonado pelo mundo da sétima arte.

A relação de Vinicius com o cinema também chama a atenção pelo fato de ele ter sido censor de filmes no Governo Getúlio Vargas. Claro que no fim das contas, não censurava nada, ou muito pouco, e de quebra se esbaldava diante da possibilidade de ver tantas produções.

O Cinema de meus olhos é fruto desse amor, mas não da contradição. Também não é uma obra de cabeceira para quem quer ser crítico sério de cinema. Mas sua leitura vale a pena, principalmente para os que se divertem com análises despretensiosas e para aqueles que querem aprender a escrever despretensiosamente sobre cinema.

Trecho:

Uma mulher, outrora amada (1951)

“(...) Vou te contar, leitor, como foi que eu vi pela primeira vez uma mulher por quem tive uma incrível paixão cinematográfica na juventude. Quando eu andava aí pelos meus dezessete, era para o retrato dessa mulher, preso à parede do meu quarto, que eu olhava todas as noites antes de dormir. Tinha por ela um amor cego, irreprimível, absoluto. Via-lhe os filmes oito, dez vezes.

Ela era grande, loura, branca, e tinha um olhar recuado que nunca chegava totalmente, como um misterioso convite a ir ver de perto, bem de perto. Sua fala era grave e doce, e ela cantava umas canções com uma falta de voz que era a voz mais linda do mundo. (...)

Essa mulher, essa das pernas longilíneas e luminosas, chama-se, ou melhor, chamava-se Marlene Dietrich, e eu a vi há exatamente cinco anos, pela primeira vez. Depois deveria vê-la muitas outras vezes, mas nada como essa vez primeira.

Marlene Dietrich (1901 - 1992) inalcançável estrela de olhar distante

Era noite, e eu estava sozinho e triste e resolvi ir ao Ciros’s, um famoso night-club de estrelas e astros que existe em Sunset Boulevard, no coração de Hollywood. Nele tocava uma orquestra de um pianista pífio chamado Carmen Cavallaro, que eu nunca tinha ouvido pessoalmente.

Como estivesse desacompanhado, fiquei sentado ao bar, num dos banquinhos altos, a traçar o meu uísque e a ver dançar à meia luz tantas caras conhecidas da tela.

Foi quando ela entrou. De início, não a reconheci. Vinha em companhia de um velho, e passou longe de mim, diretamente para uma mesa reservada. Mas ouvi o comentário de um sujeito ao lado – Marlene ... – e juro que meu coração bateu.

Marlene ... Levantei-me e fui espiá-la de perto. Era ela mesmo, leitor ... Parecia haver absorvido toda a luz do mundo em sua face branca e em seus cabelos louros. Fiquei a olhá-la um sem-tempo, até que ela se virou e, dando comigo basbaque, teve uma sombra de sorriso.

Fui reto ao maître. Passei-lhe uma gaita gorda e ele me providenciou uma mesinha reservada bem perto dela, onde me sentei e fiquei o resto da noite, a olhá-la com ar de quem não quer. De quem não quer ... Quem não queria nada era ela, leitor.

Não me olhou mais uma vez só. Não me deu a menor bola. Conversou muito lá com o velhinho dela e no máximo me oferecia o perfil, de onde nascia um halo, e a sombra misteriosa dos olhos de imensas pestanas. Nem me ligou. (...).”

sexta-feira, 9 de maio de 2008

HAVANA PARA UM INFANTE DEFUNTO

Guillermo Cabrera Infante (1929 - 2005)

Olhando para a fotografia de Guillermo Cabrera Infante, colada na orelha de seu livro Havana para um infante defunto, vê-se um homem de olhar tímido, semblante de garoto introvertido que joga todas as cartas para si mesmo, como quem esconde o jogo da malícia de escritor.

Cabrera Infante escolheu bem seu pseudônimo. Seu nome de registro é Martinico Euleutério. À primeira vista, ele é o que parece ser, um menino desgarrado da mãe, chorão, pedindo colo. É assim seu semblante na fotografia, com um olhar mirando o chão. Na obra em questão, ele escreve: “É verdade que eu sempre parecia jovem demais para minha idade, quase menino”.

Havana para um infante defunto é um livro de memórias, mais precisamente uma obra confessional, autobiografia da iniciação sexual em que o autor retrata suas primeiras investidas no mundo do sexo. Vai da infância, quando a priminha fazia-lhe strip-tease, até a casa dos 30 anos, quando sua sexualidade se aflora e ele amadurece com três importantes mulheres em sua vida: Julieta, Dulce e Margarida.

À medida que ele vai narrando suas aventuras até chegar a essas tutoras, qualquer jovem leitor também pode aprender sobre literatura e sexo, dois fatores importantes numa consciência que se prepara para a vida.

Trata-se de um exercício iniciático fundamental. É sem dúvida uma dica para os que gostam de boa literatura, devendo apenas serem advertidos da paixão de Cabrera pelos trocadilhos, às vezes engraçados, às vezes tolos, e sempre carregados de citação erudita.

Na malha do texto bem costurado há uma paisagem composta pelo universo de pobreza do infante Cabrera na ilha caribenha, universo cheio de peripécias interiores, malabarismos infanto-juvenis realizados dentro da alma ao se mudar do interior, onde nascera em 1929, para Havana.

Cabrera escreveu essas memórias entre 1975 e 1978, quase chegando aos seus 50 anos. Era ainda um jovem senhor. Há uma razão forte para ele ter descrito esse rito de iniciação. Ao fazê-lo, já morava em Londres, exilado de sua terra natal após desentendimentos com Fidel Castro.

Para Cabrera, esse período retratado é um divisor de águas, ainda que não o diga explicitamente. Ele morreu em fevereiro de 2005, aos 74 anos de idade, em Londres, cidade que o acolheu e deu-lhe o direito de remoer seu passado e escrever sua obra-prima Três tristes tigres.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

AFRODITE: Fragmentos de uma deusa


O livro Fragmentos de uma Deusa: a Representação de Afrodite na Lírica de Safo, da professora da USP Giuliana Ragusa, é um dos mais interessantes publicados em língua portuguesa sobre a poeta de Lesbos e sua obra, quando se trata de documento de pesquisa apurada.

O único problema é seu estilo enfadonho. É difícil de ler. Há muita citação. Muito cuidado com provas arqueológicas do saber, muitos dedos, que não fazem bem ao usufruto da leitura comum. Mesmo assim, o leitor paciente consegue tirar proveito do livro.

Trata-se de um intrincado estudo sobre a poesia de Safo, que veio até nós apenas em fragmentos. Ao iluminar a presença de Afrodite nesses pedaços poéticos, a autora demonstra a importância de Safo para a história do gênero lírico.

Giuliana foi às fontes diretas, ou seja, aos papiros em que havia os registros poéticos da própria Safo, além de traçar as relações históricas e geográficas entre a Grécia Antiga e o Oriente, localizando a poeta e a deusa.

“É grande e riquíssima a carga significativa que Safo imprime à sua Afrodite ao associá-la a Chipre. Quando a poeta chama Afrodite de Kūpris ou Kuprogēnēa, independentemente do contexto dos fragmentos, ela se insere e também a sua personagem divina no diálogo com uma tradição cara à poesia lésbio-eólica (dialeto de Safo)”, diz a pesquisadora.

Giuliana quer provar que Safo não foi apenas uma sentimentalista que tratava de assuntos homossexuais. Esta imagem sempre esteve ligada a ela, daí ‘lesbianismo’ e ‘safismo’ serem sinônimos de homossexualismo feminino.

A representação de Afrodite na poesia de Safo, segundo Giuliana, significa uma profunda identidade com o ambiente e o contexto da cultura grega bem como com a complexidade da imagem da deusa do amor, cujo mito oriental fora adotado pelos gregos.

São várias as maneiras como Afrodite é representada na poesia de Safo. Os diversos epítetos comprovam a riqueza de imagens da deusa nos fragmentos poéticos estudados.

Além de nomes e epítetos, como filha de Zeus, tecelã de ardis, deusa “de flóreo manto furta-cor”, imortal, venturosa, multifortunada e veneranda, Ragusa explora outros aspectos da representação de Afrodite.

Entre esses aspectos estão a geografia mítico-religiosa e poética, os cenários em que a deusa se insere, a voz das canções, como em Hino à Afrodite – o único poema que permaneceu quase intacto –, e também o apelo à deusa, que aparece em alguns fragmentos.

A autora conclui o livro com um apelo interessante. Segundo ela, em seu trabalho foram apresentados apenas fragmentos porque não havia mais do que isso, cujo resultado parece pouco e frágil.

Porém: “nada mais enganoso: a força da lírica da poeta e de sua personagem-divina está viva nos fragmentos; quem deles se aproximar não o fará em vão.”

Leia também:

terça-feira, 6 de maio de 2008

AFRODITE: a leitura de uma deusa impossível

Afrodite é a imagem recorrente no imaginário dos homens, na idéia infantil de amor de todos nós, porque ela é bela, porque ela é sedutora, a que beija os lábios do filho com os lábios entreabertos, e que deixa, portanto, o fio tênue do amor escorrer pela maciez do carinho de mãe.

Mas não só por isso. Afrodite é mulher. Mais. É Deusa – mais – do amor. Muito mais. É a figura máxima do prazer, do belo incrustado no desejo, do amor de carne e alma. Afrodite é como o canto da Sereia. O irresistível.

Foi mulher de Efesto, o deus genial. Mas manco. Genial, mas feio. Gênio e corno. O deus das forjas, das correntes. Deus do fogo. Em latim, Vulcão. O deus que se acasala com Afrodite. Em latim, Vênus. Afrodite e Efesto: a primeira versão de a Bela e a Fera.

Ela teve vários amantes. Os mais célebres foram Ares e Hermes. Do primeiro, deixou como herança simbólica a relação entre as armas de Eros e a guerra, imagem mitológica do pequeno deus do amor, a travessura em forma divina.

Eros carregava uma aljava de flechas certeiras que faziam cair apaixonadamente os mortais alvejados. Até que um dia se feriu a ele mesmo e se partiu de amor por Psiquê.

Ainda com Ares, Afrodite deixou três filhos: Medo (Fobos), Terror (Deimos) e Harmonia.

Da relação com Hermes, ficou uma bela história de androginia. Da união dos dois nasceu um rapaz cuja beleza era superior à de Narciso, ou quase, chamado de Hermafrodito, que arrebatou o coração da ninfa Sálmacis.

Ao banhar-se na fonte onde habitava a ninfa, esta enlaçou o jovem tão tenazmente e pediu aos deuses que lhes concedessem união eterna tão fervorosamente que foi atendida. Da junção dos corpos surgiu um novo ser, de natureza dupla, a raison d'etre dos andróginos.

Leia também:

segunda-feira, 5 de maio de 2008

TINHORÃO JÁ CHAMOU OS BAIANOS DE ANALFABETOS: mas não fez sucesso

Quem faz afirmações que não traduzem o íntimo de si mesmo pode não ser do mal, sem dúvida. Mas traduz certa capciosidade ou burrice. Eis aí uma ambigüidade perigosa.

O coordenador da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Antonio Natalino Manta Dantas, renunciou ao cargo nesta semana, após ter declarado que os baianos têm "déficit de inteligência" (declaração idiota e inconseqüente), por terem deixado a faculdade cair no conceito do MEC.

O curioso é que, em agosto de 2004, o crítico e historiador da música José Ramos Tinhorão também teve seu dia de Manta Dantas (ou teria sido o contrário?). Numa entrevista ao Caderno Mais!, da Folha de São Paulo, passa-se o seguinte:

Folha de S. Paulo: Sobre Gilberto Gil?

José Ramos Tinhorão: Os baianos são impressionantes, são semi-analfabetos inteligentíssimos. Apanham as coisas no ar com uma grande facilidade, captam e conseguem coisas impressionantes.

Já viu Gilberto Gil falando? Esses discursadores do povo, como têm pouca cultura, são pernósticos. Você ouve, aquilo é bonito. Mas, se pára para pensar depois, você diz: "Mas o que ele falou?". Não falou nada de importante.

Mas de repente o cara produz um treco que é uma das coisas mais originais de toda a música popular brasileira, que é "Domingo no Parque" (67). Na parte da melodia, a novidade é que parte do ritmo monocórdio de um berimbau de capoeira.

O cara parte de algo tão rudimentar quanto um ritmo de uma corda só e constrói uma história fantástica, conta uma história resultando num todo de letra e música completamente fora de padrão.

Aquilo não é samba, não é canção propriamente dita, não é uma canção sentimental. É uma história contada-cantada, mas admirável pela originalidade. E, ao mesmo tempo em que faz isso, é compositor jamaicano, essas baboseiras.

FSP: Não é exagero seu tratar Gil e Caetano, que são homens cultos, como "semi-analfabetos"?

JRT: Não. É cultura de almanaque. Acho que nenhum deles leu nenhum livro do princípio ao fim. Leram gibi. Pela obra de Caetano dá impressão que o cara leu muito, mas não acredito. Não, é divinatório mesmo.

(In: Era uma vez uma canção. Mais!, FSP, 29 de agosto de 2004)

Não me lembro de ter lido qualquer protesto sobre esta entrevista. Tinhorão não obteve a repercussão que queria, enquanto Dantas teve a que não desejava.

sábado, 3 de maio de 2008

O TEMPO E A NÉVOA

A memória é um sulco no chão da vida, estrada no meio do pântano. É ela que nos faz viver melhor, cheios de planos e organizados, sem dúvida. Mas ela mesma é apenas reflexo do que um dia existiu e se transfigurou.

A memória é um continente, em que contêm imagens pouco reversíveis, que não se podem realizar, nem se erigir para o céu do contentamento real, imagens que não podem surgir do tempo e abrir os braços para um possível afago.

Não é possível, não seria, não será, nem nunca haverá possibilidade de se fazerem renascer do baú de ossos os fatos em carne, os fatos em sua real dimensão.

Memória é o que vivi ou tangenciei, é o que se apega a mim e permanece como alimento da linguagem, rodeado de palavras, na bruma dos sentimentos, das sensações, envolto à sinestesia e à consciência.

Apesar de ser vão, ou talvez por isso mesmo – curso do rio –, a memória é o suporte mais poderoso no processo da linguagem. É o que possibilita o confronto entre o passado e o futuro, o que nos permite avaliar o tempo das coisas, sentir o belo. O que é belo está inserido na passagem do tempo.

Rio não corre em terra plana.

Memória: o labirinto dentro de nós; o que nos permite apenas sentir, e nunca tocar – ainda que fosse apenas uma vez mais –, a delícia do impossível.

Eu lembro, logo posso redirecionar a minha vida.

Em meio a fantasmas e demônios, anjos e espectros, permaneço pela memória, até o fim.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

ANTÓNIO LOBO ANTUNES: frases sopradas na alma

Não consigo ler Lobo Antunes sem chorar. Mas é um choro de desprendimento da vida, como se o narrador fosse meu amigo e estivesse abrindo seu coração, me contando as mais terríveis, as mais doces, as mais desiludidas confissões.

De uma entrevista concedida a Edney Silvestre, da Globo News, pesquei algumas frases deliciosas do escritor português, que é um dos mais conhecidos no Brasil pela nova geração de leitores.

“Apostar no futuro é para quem já se resignou a perder o presente.”

“Se quer escrever prosa, leia poesia. Os poetas nos dão o valor da palavra. Na poesia dos grandes poetas, cada palavra tem uma cintilação, brilha como um diamante. Tenho uma imensa inveja dos poetas.”

“A morte está sempre à porta, como a vida.”

“A gente tem de chorar pra dentro como as grutas.”

“Não há um sentimento sem o seu contrário.”

A primeira mulher de Lobo Antunes morreu aos 47 anos, de câncer. Ele conta essa história. Na ocasião, já estavam separados, mas ele esteve com ela até o fim. Antunes narra suas últimas palavras.

“Ela me perguntou: ‘Que horas são?’. E eu disse ‘dez para as seis’. E a resposta dela foi a coisa mais extraordinária que ouvi até hoje: ‘Que hora tão improvável’. E morreu.”

Leia também: