sábado, 29 de março de 2008

BAÚ DE OSSOS: A MEMÓRIA EMPEDERNIDA


O médico mineiro Pedro Nava, amigo do alto escalão da inteligentsia brasileira, ele mesmo renomado internacionalmente na área médica, nasceu em Juiz de Fora, em 1903, e morreu em 1984, no Rio de Janeiro. Sua contribuição ao tesouro nacional das letras foi urdida no gênero memorialístico, escrevendo dois catataus de memória: Baú de ossos e Balão cativo.

Ler Baú de ossos é entrar num mausoléu de fatos (sem trocadilho) que pouco interessa ao leitor comum, e da vida de Nava não tem quase nada. Além do vigor da pena, a grande marca do autor nesse campo é o registro impressionante de nomes e situações sócio-políticas da região das Minas Gerais, principalmente, embora abarque também a história do país todo em muitos momentos.

O livro foi publicado em 1972, com segunda edição já em 73. Isso significa que foi bastante procurado em sua época e que os leitores de hoje já o conhecem bem. Compartilho aqui, apenas a título de lembrança, uma passagem deliciosa.

Trata-se de um trecho elucidativo sobre Minas Gerais e suas entranhas genealógicas, o ninho do saber histórico e do rastreamento do poder. Quando Afonso Pena, o presidente da República, morreu em 1909, o rumo do domínio político em Minas Gerais mudou completamente, passando de um clã relativamente pequeno para outro maior e mais organizado, se seguirmos a ótica de Nava.

Essa mudança de ventos coloca um homem chamado Antônio Carlos Ribeiro de Andrada no poder de Juiz de Fora. E Nava aproveita o mote para traçar um perfil genealógico do poder e fazer uma leitura cujo modelo serve para qualquer parte do país, demonstrando como se movimentava a estrutura político-social da região Sudeste, a parte do país que mais mandou em toda a nação desde o século XVIII, e que no nascimento da República ficou mais bem desenhada, com seus clãs e os mil satélites girando ao redor.

Trecho no formato original:

“Ninguém pode compreender nada na história social e política de Minas, se não entender um pouco de genealogia para estudar os troncos e os colaterais, por exemplo, dos descendentes de D. Joaquina do Pompeu – esses Pinto da Fonseca, Melo Franco, Gastão da Cunha, Laras, Álvares da Silva, Capanemas, Silva Campos, Melo Campos, Valadares, Guimarães, Abreus, Vasconcelos, Cordeiros e Cançados – dominadores, proprietários, mandões, sobas, políticos, diplomatas e estadistas do Oeste. Como por exemplo, ainda, esses Felício dos Santos, Camargos, Pires, Rabelos, Lessas, Machados, Pimentas, Prates, Sás do Brejo e Sás da Diamantina, outros dominadores, caciques, coronelões, espadachins, poetas, políticos, embaixadores e estadistas do Norte. O grupo familiar dos Andradas de Minas não ficava nada a dever a esses outros dois clãs que tomamos como exemplo e teve, na Mata, significado idêntico. O Dr. Antônio Carlos Ribeiro de Andrada era filho de pai homônimo e de Dona Adelaide Lima Duarte, descendente de Aires Gomes. Não tinha nada dos rompantes paulistas dos Andradas, mas era cheio de ronha mineira dos Lima Duarte. Tinha dos primeiros, o físico e o nome, dos segundos, a astúcia e aquilo que Mário de Andrade chamava o ‘cauteloso pouco a pouco’. E mais a simpatia e aquele encantamento que ele dividia com outros Lima Duarte – os seus primos Penido. Por estes ele se ligava aos Burniers, Monteiros, Teixeira Leites, Assis, Álvares da Silva (primeira ponte para o Oeste e para a gente do Pompéu), Ribeiros, Ribeiros de Oliveira, Batistas de Oliveira, Nunes Lima, Badarós, Mascarenhas, Vidais Barbosa Lage e Valadares (segunda ponte para o Oeste e para a gente do Pompeu). Pelo mano José Bonifácio, aos Lafaietes e aos Stoklers. Pela esposa, aos Olindas, Araújo Limas, Gimarães, Azevedos, Moreiras e Régis de Oliveira. Tudo isto representava uma família extremamente solidária e estendendo-se, em distância, da Borda do Campo a Petrópolis ao Rio, passando por Juiz de Fora e zona mesopotâmica de Minas. Acresce que além de solidária, essa gente era a possuidora. Das fazendas, das companhias, das empresas, das indústrias, das fábricas, do prestígio nas profissões liberais, das santas-casas, das confrarias, das obras pias, das gotas-de-leite, das sopas-dos-pobres, das irmandades e dos apostolados. Uma piedade exemplar fazia chover sobre todas as bênçãos da igreja e os juros das apólices. Deste modo, tocar num só era logo pôr en branle e favor, o executivo, o legislativo, o judiciário, os correligionários, os compadres, os afilhados, os primos de primos dos primos, os contraparentes, Guy de Fongaland, santa Teresinha do Menino Jesus, o próprio Menino Jesus, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, a dos Navegantes, a dos Aflitos, a de Lurdes, o Padre, o Filho e o Espírito Santo.”

Genealogia e memória

Na segunda metade de século XX, essa árvore descrita por Nava ou enfraqueceu um pouco ou acrescentaram-se a ela nomes como Neves (de Tancredo), Azeredo (de Eduardo), Kubitschek (de Juscelino) e assim por diante. E o principal responsável por essa mudança foi Getúlio Vargas, sem dúvida.

Genealogia tem tudo a ver com memória, que por sua vez, se liga à tradição, sedimentação e conquista de espaços, de poder, de corpos social e cultural. Nava sabia das coisas, seguindo uma lição nietzschiana ensinada em Genealogia da moral, que Michel Foucault também seguiu. Em Baú de ossos, Nava nos ensina que nenhuma memória se apaga. Ao contrário, se fossiliza, vira pedra, que pode ser explorada a picaretas, ou seja, revolvida por meio de afiados instrumentos da linguagem e da inteligência.

sexta-feira, 28 de março de 2008

EXEGESE

“Quando te aproximares de alguma cidade para pelejar contra ela, oferecer-lhe-ás a paz. Se sua resposta é de paz, e te abrir as portas, todo o povo que nela se achar será sujeito a trabalhos forçados e te servirá. Porém, se ela não fizer paz contigo, mas te fizer guerra, então, a sitiarás. E o senhor, teu Deus, a dará na tua mão; e todos os do sexo masculino que houver nela passarás a fio de espada; mas as mulheres, e as crianças, e os animais, e tudo o que houver na cidade, todo o seu despojo, tomarás para ti; e desfrutarás o despojo dos inimigos que o Senhor, teu Deus, te deu. Assim farás a todas as cidades que estiverem mui longe de ti, que não forem das cidades destes povos. Porém, das cidades destas nações que o Senhor, teu Deus, te dará em herança, não deixarás com vida tudo o que tem fôlego. Antes, como te ordenou o Senhor, teu Deus, destruí-las-ás totalmente: os heteus, os amorreus, os cananeus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus.”

Bíblia Sagrada, Deuteronômio, 20, versículos 10-17

terça-feira, 25 de março de 2008

ERA ZARATUSTRA UM TAGARELA?

Acho estranho o título Assim falava Zaratustra para o mais famoso livro de Nietzsche. Mesmo que seja a melhor tradução para Also Sprach Zarathustra, em alemão. O que me vem à mente é a imagem de um profundo pensador sendo transformado em tagarela, que em seu tempo falava sem parar. Criticava, berrava, sussurrava, falava, falava, sem gaguejar, ao contrário de Moisés, que era gago, “pesado de língua”.

Moisés emprestou traços de sua imagem para formar a de Zaratustra, assim como certas linhas do estilo de Homero também foram usadas. Zaratustra é um épico do espírito. No caso da Bíblia, tagarela no Antigo Testamento era Arão, irmão de Moisés. Enfim.

Claro que essa impressão da tagarelice de Zaratustra me vem do verbo ‘falar’ no pretérito imperfeito em português. Por isso, prefiro Assim Falou Zaratustra, com a tradução de Mário da Silva. Zaratustra falou. Deu seu recado. Passou apenas uma vez, mas ficou registrado e nós é que estamos girando em sua órbita para ler e interpretar suas lições de abismo. O que vale nesse olhar abissal, no entanto, é não cair na lábia do poeta-pensador seu criador, Nietzsche, a saber, que influenciou profundamente Heidegger. O que vale é ouvi-lo, sim, e aprender a ler o mundo com mais argúcia.

domingo, 23 de março de 2008

VINICIUS DE MORAES EM PLENA VOZ


Ele não foi apenas o poeta, também cantou e encantou, conquistou homens e mulheres – dentro de finalidades ímpares – e deixou como legado uma poesia ainda grávida de novidades, inexplorada, e um repertório menos rico em letras de música, nem por isso menos importante. A poesia de Vinicius de Moraes é sem dúvida melhor do que seus versos feitos para as canções que embalaram amores pelo mundo, como Garota de Ipanema.

Vinicius de Moraes foi aos poucos deixando o fazer poético que beirava o castelo de Axel, a torre de marfim, para criar uma poesia mais terrena e depois encarnar a figura popular que se tornou como compositor. Essa mudança trouxe descontentamento para alguns de seus amigos mais próximos como Sérgio Buarque de Holanda. Mas o autor das Cinco elegias gostava mesmo era de ser simples e por isso quis mudar.

O que mais encanta nele é esse mar de amenidades trazido ao público em entrevistas que agora podem ser lidas no livro Encontros – Vinicius de Moraes, organizado pelos escritores Sergiol Kohn e Simone Campos e publicado no ano passado. Muitas das informações e conceitos-chave da vida de Vinicius já tinham sido postas magistralmente na biografia O poeta da paixão, escrita por José Castelo, mas a série de entrevistas dadas pelo poeta entre 1967 e 1979 revela nas palavras do próprio como ele pensava e via o mundo em que surgiu como celebridade.

Sobre sua poesia, ele tenta explicar a possível razão de a acharem produto do romantismo tardio e sem valor para as novas gerações. “O que eu acho que faz com que as pessoas me considerem um poeta romântico é que a música para mim também é muito importante no verso. Talvez minha poesia cante mais que a do João (Cabral de Melo Neto), que a de (Carlos) Drummond. Não tem a aspereza da poesia do João, nem as nuanças psicológicas da poesia do Carlos. Para mim, o ritmo é muito importante e talvez por isso os poetas concretistas me acusem de superado.”

Galanteios e senso de humor

Vinicius dizia que era “um homem triste com uma grande vocação para a alegria”, que só sabia criar na tristeza e que a morte era sua grande musa. Controverso ser que cantava a alegria melhor do que ninguém, embora achasse que a alegria não era uma atmosfera de vida criadora.

Numa das entrevistas mais famosas de Vinicius, dada à escritora Clarice Lispector para a extinta revista Manchete, em 1967, ele demonstra seu potencial de galanteio ao dizer para a entrevistadora, num momento de silêncio e provavelmente com olhar e gesto corporal sedutores: “Tenho tanta ternura pela sua mão queimada.” O comentário de Lispector, publicado na revista foi: “Emocionei-me e entendi que este homem envolve uma mulher de carinho.”

Foi nessa entrevista também que ficou famosa sua frase “detesto tudo que oprime o homem, inclusive a gravata”. Expressão semelhante ele já havia usado para ironizar uma possível candidatura sua à Academia Brasileira de Letras. “Detesto tudo que me aperta, que me tolhe os movimentos. Deus me livre de ficar embalsamado dentro daquele fardão da Academia.”

Vinicius fã de Pixinguinha

Ao longo de todas as entrevistas, duas coisas chamam a atenção: sua eterna admiração por Pixinguinha, declaração feita em várias oportunidades e a maneira como é dada a transição de sua convicção de poeta para a de músico, já no final da vida.

Dizia que se houvesse um criador da Bossa Nova, esse seria Tom Jobim, mas “se não houvesse Pixinguinha, não haveria Tom.” Se pudesse, Vinicius canonizaria Pixinguinha, isso dito com suas próprias palavras. Essa admiração pelo compositor negro carioca não se restringia ao campo musical, alcançava a esfera daquilo que ele entendia como os melhores caracteres do humano encontrados num homem, de generosidade, genialidade e integridade. “Eu me considero um ser tão imperfeito. Quando me comparo assim a uma pessoa como Pixinguinha, como Menininha de Gantois”, dizia.

Do poeta ao músico, duas declarações mostram como Vinicius se via até a década de 60 e como se pintava no final da vida. Em entrevista de 1965, quando já não escrevia poesia com a intensidade de antes, dizia: “não sou especificamente músico, sou poeta. A música em mim é uma decorrência.” Mas, em 1979, diz: “Eu sempre fui músico, mas me achava fundamentalmente um poeta.” Ou seja, sua vida de poeta ficara para trás mesmo, mas isso não significa que visse sua própria obra poética como ultrapassada.

Profecias e influências do poeta

Vinicius gostava muito do Rio de Janeiro, chegando a escrever o Roteiro lírico sentimental da cidade do Rio de Janeiro. Isso não impedia de olhar criticamente para a sua terra natal. Em entrevista de 1973, depois de responder quais eram as piores cidades para se morar – São Paulo, Chicago e Milão –, ele disse: “O Rio está ficando realmente desagradável para viver, não é mais aquele Rio que conheci menino, rapaz. Hoje é uma cidade hostil. Ainda não chega a ser desumana, mas está perto disso.” Profecia que infelizmente se confirma nos dias de hoje.

Em outra entrevista, ele enumera suas principais influências:

“Na poesia foram meu finado pai (Clodoaldo Pereira da Silva Moraes), Guilherme de Almeida, Menotti del Picchia, Júlio Dantas, Guerra Junqueiro, Castro Alves, na fase adolescente. Depois Manuel Bandeira, Jayme Ovalle, o Camões lírico, o romanceiro português, um pouco de Rilke, um pouco de Lorca, um pouco de Eliot, um pouco de Blake, um pouco de Whitman. E muito de Shakespeare e Rimbaud.”

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sexta-feira, 21 de março de 2008

A PEDRA DADA POR ZEUS

Marisacat

Para você que se sente só, bastardo desamparado, para você que é clandestino dentro de si mesmo, você que pisou o solo errado, que se entregou ao mundo e desaguou em mares distantes. Você que chora, ao rir da própria dor para disfarçar a solidão, você que é cúmplice do ermo, da saudade, do amor faltante, do discurso errante, você que é tantos e nenhum, solitário e invisível, multidão e ninguém. A você, Sísifo revoltado, ofereço meu conselho: deixa a vida rolar como se fosse a pedra dada por Zeus.

quarta-feira, 19 de março de 2008

BIBLIOTECA PÚBLICA MÁRIO DE ANDRADE SÓ REABRE EM 2009

Prédio da Biblioteca Mário de Andrade em reforma

Os freqüentadores da Biblioteca Municipal Mário de Andrade (BMA), localizada no centro de São Paulo, terão de esperar pelo menos mais nove meses para ter acesso novamente aos livros e demais serviços da instituição. A informação não é oficial, mas foi dada por uma atendente da Mário de Andrade Circulante, que fica em outro endereço da Avenida Consolação.

Pesquisadores de várias partes do Brasil costumam freqüentar a biblioteca, que já está fechada para reforma desde 2007. A BMA tem um dos maiores acervos do país, com 3,2 milhões de itens, entre os quais estão 200 mil livros, mas não empresta as obras. Os empréstimos ficam a cargo de unidades circulantes espalhadas pelas regiões da cidade com seus acervos próprios.

Biblioteca Mário de Andrade em reforma

Quem mora na região central e freqüenta a seção Circulante da Avenida Consolação, no entanto, terá boas novas. É que esta vai se mudar para o prédio da BMA (Rua da Consolação, 94), provavelmente em setembro deste ano, e aos 30 mil volumes para empréstimo se juntarão outros 30 mil, provenientes do acervo principal da BMA. Quem gosta de livros terá dobrada sua opção de leituras.

Serviço:

Biblioteca Mário de Andrade (BMA). Rua da Consolação, 94 - Região da Consolação. Tel. 3256-5270.

Biblioteca Mário de Andrade - Seção Circulante. Por enquanto está situada na Rua da Consolação, 1024. Tel. 3257-8787.

Todo o acervo do complexo de bibliotecas da Prefeitura de São Paulo está disponível online para consulta de catálogo. Clique aqui para acessá-lo.

domingo, 9 de março de 2008

HARAQUIRI: a morte como metáfora


É curiosa a valorização do suicídio pelos japoneses, principalmente nos tempos belicosos do espírito samurai ou dos kamikaze. Hoje, nem tanto. É curioso porque se trata de um povo que fica na região considerada o lugar onde o sol nasce primeiro. A terra do sol nascente, o cálido berço do ser, o Oriente, que em latim quer dizer ‘fonte’, ‘origem’, do verbo ‘orĭor’, ‘levantar-se’, ‘elevar-se’.

O fascínio dos japoneses pela morte - que vem da ancestralidade nipônica e está na raiz de sua ascensão cultural - risca a esfera do poético. Tanto é que o termo ‘shi’ denomina várias palavras, escritas com kanjis diferentes, entre as quais estão ‘morte’ e ‘poesia’.

Mas vejamos o contrapé da curiosidade, apenas para quem lê com olhos poéticos, é claro. A palavra ‘suicídio’ vem do latim ‘sui’, que quer dizer ‘de si mesmo’, e ‘caedō’ ou ‘cídio’, o mesmo que ‘abater’, ‘cortar’, raiz também do verbo ‘cair’, que compõe de igual modo a palavra ‘ocidente’, de ‘occĭdō’, ‘cair por terra’, que em outra flexão significa ‘assassinar’, ‘aniquilar’, o que sugere uma imagem contrária à do Oriente.

A chave dessa interpretação são os verbos ‘cair’ e ‘cortar’. Logo, Ocidente é a região onde o sol cai, se põe, morre. Nesta parte do planeta há invariáveis modelos de morte pelas próprias mãos, como o caso narrado por Al Alvarez, em O deus selvagem (livro que poderei vir a resenhar um dia, quem sabe), segundo o qual, certa moça polonesa “sentia uma paixão não correspondida e, num intervalo de cinco meses, engoliu quatro colheres, três facas, dezenove moedas, vinte pregos, sete ferrolhos de janela, uma cruz de bronze, 101 alfinetes, uma pedra, três pedaços de vidro e duas contas de rosário.”

Neste caso, a maneira que a moça encontrou de se matar revela mais um ato de desespero, de pedido de socorro, do que propriamente um ritual suicida. E não é literário. Não traz nenhum recurso metafórico. Mas no Japão, a terra do sol nascente, cultivou-se uma forma original e singular de se cometer autoquíria: o haraquiri, que os japoneses também chamam de seppuku.

No Japão, quase sempre que acontece algo de terrível na vida do indivíduo, que o coloca em situação vexatória diante da sociedade ou de sua família, de seus colegas, de seu chefe, ele cogita a possibilidade da própria morte. Até aí é sociologia e história (leia, por exemplo, O Crisântemo e a espada, de Ruth Benedict, ou Japanese patterns of behavior, de Takie Sugiyama Lebra).

Houve um tempo em que, nas mesmas circunstâncias, contudo, alguns executavam o haraquiri (‘hara = estômago, intestino – e ‘kiru’ = cortar), um ato de suicídio que penetra fundamente o reino da literatura. Não se tratava de cidadãos comuns, certamente, e hoje em dia, essa prática é condenada mais do que o próprio suicídio, que é tabu, como em qualquer cultura.

O haraquiri é uma arte sinistra, de princípios que remontam ao hagakure, código de honra dos samurais, antigos guerreiros japoneses que serviam aos xoguns, que eram como senhores feudais do Japão, cujo poder predominou até o século XIX.

Sem querer entrar no mérito do caso Yukio Mishima, porque dá outro texto, uma vez que o escritor japonês – profundo conhecedor de sua própria cultura – cometeu haraquiri em 1970, sigo aqui sua explicação para o termo: Mishima dizia que os samurais valorizavam o seppuku como a força máxima da expressão do ser, da sinceridade de suas palavras. Sua técnica consiste num profundo corte cruzado sobre o estômago, cuja conseqüência é o sangramento até a morte.

Quando um samurai cometia alguma falha perante o xogum, se sentia mal e pedia mil perdões ao seu senhor, como forma de demonstrar o arrependimento sincero. Mas quando a falha era muito grande, os samurais não encontravam outro modo de se desculpar senão se matando. Eles cometiam o haraquiri porque acreditavam que a sinceridade estava nas vísceras, e, nos casos extremos da dor do arrependimento, era preciso abri-las para demonstrar ao xogum sua lealdade e sua sinceridade.

Com essa explicação, vê-se que a idéia não era morrer, embora soubessem que morreriam ao realizar tal ato. Neste caso, a morte não é o objetivo, é uma metáfora levada às últimas conseqüências. Partir o ventre, portanto, é abrir a janela da alma em seu grau máximo para deixar passar o íntimo da sinceridade. É o sol da explicação cortando o ocidente e chegando ao oriente da vida pelo avesso, para exprimir a sinceridade absoluta. Com tal gesto, os samurais queriam dizer que é nas entranhas que esgota e encerra a última verdade do ser.

domingo, 2 de março de 2008

KENZABURO OE: Entrevistado pela Paris Review

Oe (esq.) e seu filho, Hikari
Kenzaburo Oe é o tipo de prosista que nos pega pelos olhos e nos faz correr por cada frase sua. Nascido em 1935, no Japão, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1994, ele tem uma vasta publicação no original, mas poucas traduções. Pai de três filhos, Hikari (que tem problemas mentais), O-chan e Natsumiko, ele aparenta ser um senhor simpático, educado, que aprecia o bom tom da civilidade.

Até onde sei, Oe tem apenas três livros publicados no Brasil: O grito silencioso, que narra o conflito existencial de um homem que encontrou o corpo de seu amigo suicida em situação humilhante, nu no banheiro, dependurado por uma corda e com um pepino no ânus; Uma questão pessoal, em que fala da relação do pai com o filho deficiente mental, cuja história é baseada na própria experiência de Oe (bem antes de Cristóvão Tezza escrever seu Filho eterno); e Jovens de um novo tempo, despertai!, livro de contos que trata da mesma temática da obra anterior. Oe é admirável pelo estilo delicioso e a fluência com que junta uma idéia com outra.

No final do ano passado, Oe concedeu uma entrevista à Paris Review, na seção The Art of Fiction, em que fala da relação de sua obra com o leitor e com o mundo ocidental, dizendo que gostaria de ser mais traduzido para línguas como inglês, francês e alemão. “Não tento escrever para um público de massa, mas gostaria, sim, de alcançar as pessoas. Gostaria de dizer a elas sobre a literatura e o tipo de pensamento que me influenciaram profundamente.”

Segundo Oe, no rito de criação, o ambiente natural de sua casa é essencial. Ao contrário de outros escritores, não gosta da solidão, prefere o barulho do lar. “Não preciso da solidão para trabalhar. Quando estou escrevendo romances e lendo, não preciso me separar da minha família ou ficar longe dela. Geralmente trabalho numa sala de estar, enquanto Hikari ouve música.”

Além da arte da ficção e de seu modo de trabalhar a literatura, Oe também fala de como repercutiu em sua casa a notícia de que tinha ganhado o Prêmio Nobel. “Venci, disse eu. E minha mulher replicou: ‘É mesmo?’. Meus filhos não disseram nada. Apenas foram para o quarto silenciosamente.”

Oe foi o segundo escritor japonês a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. O primeiro, em 1968, foi Yasunari Kawabata (que se suicidou em 1972, aos 73 anos), autor de Kyoto, Beleza e tristeza e A casa das belas adormecidas. Yukio Mishima, o polêmico e genial escritor nipônico que se suicidou aos 45 anos cometendo harakiri em 1970, foi sondado para o Nobel duas vezes, mas não chegou a ganhar. Isso, no entanto, só demonstra a força da literatura do Japão, que ainda oferece autores do nível de Junichiro Tanizaki (1886-1965).

O site da Paris Review (http://www.theparisreview.org/viewmedia.php/prmMID/5816) oferece um trecho gratuito da entrevista de Kenzaburo Oe, o que atiça a vontade de acessar o resto do texto. Mas aí é preciso pagar. Como retribuição ao gesto generoso da revista, traduzi o trecho oferecido, que segue abaixo.

Entrevistador:

O senhor se sente competitivo com escritores como Haruki Murakami e Banana Yoshimoto?

Oe:

Murakami escreve num estilo límpido, simples. É traduzido para as línguas estrangeiras e amplamente lido, principalmente nos Estados Unidos, Inglaterra e China. Ele conquistou um espaço no cenário da literatura internacional de um modo que nem Yukio Mishima ou eu mesmo conseguimos. É a primeira vez que isso acontece com a literatura japonesa. Agora, minha obra vem sendo lida, mas, olhando para trás, não tenho certeza se consegui conquistar um grupo firme de leitores, mesmo no Japão.

Não se trata de competição, mas eu realmente gostaria que minha obra fosse mais traduzida para o inglês, francês e alemão, para conquistar um grupo maior de leitores nos países dessas línguas. Não tento escrever para um público de massa, mas gostaria, sim, de alcançar as pessoas. Gostaria de dizer a elas sobre a literatura e o tipo de pensamento que me influenciaram profundamente.

Como alguém que leu literatura a vida toda, espero comunicar os escritores que considero importantes. Minha primeira escolha seria Edward Said, especialmente seus últimos livros. Suas idéias são parte importante de meu trabalho. Elas me ajudaram a criar novas expressões na língua japonesa, novas formas de pensar em japonês. E pessoalmente também gostava dele.

Entrevistador:

Muitos escritores são obsessivos em trabalhar na solidão, mas os narradores de seus livros – que são escritores – escrevem e lêem deitados no sofá numa sala de estar. O senhor trabalha junto da família?

Oe:

Não preciso da solidão para trabalhar. Quando estou escrevendo romances e lendo, não preciso me separar da minha família ou ficar longe dela. Geralmente trabalho numa sala de estar, enquanto Hikari (meu filho) ouve música. Posso trabalhar na presença de Hikari e de minha mulher porque reviso muitas vezes. O romance está sempre incompleto, e sei que vou revisá-lo completamente.

Quando estou escrevendo a primeira versão não tenho de escrevê-la sozinho. E quando estou revisando, já tenho uma boa relação com o texto, de modo que não preciso estar só. Tenho um estúdio no segundo piso, mas é raro trabalhar lá. O único momento em que vou para lá é quando estou finalizando o romance e preciso me concentrar – o que é uma chateação para os outros.

Entrevistador:

Todos os seus romances refletem sua experiência pessoal?

Oe:

Não começo a escrever um romance com a idéia predeterminada de para onde vou levar ou como vou criar um personagem. Para mim, o que importa é o ato da elaboração. Por meio do processo de revisão e elaboração é que surgem novos personagens e situações. É uma plano bem diferente da vida real. Nesse plano, os personagens se desenvolvem e a história flui sozinha. Embora todas as minhas novelas sejam de alguma forma sobre mim mesmo, sobre o que estou pensando como um jovem, como homem de meia idade com uma criança deficiente, como um velho.

Cultivei o estilo em primeira pessoa em detrimento da terceira. Foi um erro. Um bom romancista sabe escrever com habilidade em terceira pessoa, mas nunca consegui escrever bem nesse foco narrativo. Por esse prisma, não passo de um romancista amador. Embora eu já tenha escrito na terceira pessoa, o personagem de alguma forma sempre se parece comigo. O fato é que apenas pela primeira pessoa eu consigo determinar com precisão minha realidade interior.

Em Aghwee the Sky Monster (Aghwee, o monstro do céu, em tradução livre – inédito no Brasil), por exemplo, escrevi sobre alguém numa situação igual a que eu passava quando Hikari nascera, mas alguém que toma uma decisão diferente da que tomei. O pai de Aghwee escolhe não ajudar a criança deficiente a viver. Em Uma questão pessoal, escrevi sobre outro protagonista – Bird – que escolhe viver com a criança.

Esses dois livros foram escritos ao mesmo tempo. Mas no segundo caso, é de fato mais autobiográfico. Tendo escrito sobre as ações de Bird e do pai de Aghwee, emprestei minha experiência de vida para criar a vida de Bird. Não pretendia fazer isso, mas depois percebi que era o que havia feito.

Entrevistador:

Hikari geralmente aparece como personagem em seus romances.

Oe:

Convivo com ele há 44 anos. Escrever sobre ele é um dos pilares de minha expressão literária. Escrevo sobre ele para mostrar como uma pessoa deficiente é capaz de se realizar e o quanto essa realização é difícil. Quando ele era muito jovem, começou a se expressar – a expressar sua humanidade – por meio da música. Até certo ponto, era capaz de expressar conceitos complexos como a tristeza por meio da música. Ele entrou num processo de auto-realização. E continuou nesse caminho.

Entrevistador:

Uma vez o senhor disse que escreve o que ele realmente diz, mas põe isso numa ordem diferente.

Oe:

Copio as palavras que Hikari diz na mesma ordem que ele as diz. O que acrescento é o contexto, a situação, e como os outros lhe respondem. Por meio desse processo, as palavras de Hikari se tornam mais compreensíveis. Mas jamais reordenaria essas palavras para fazê-las inteligíveis.

Entrevistador:

O que seus outros filhos pensam do fato de o senhor escrever tanto sobre Hikari em seus romances?

Oe:

Também já escrevi sobre meu filho O-chan e minha filha Natsumiko. Em todo caso, apenas Natsumiko gosta de ler o que escrevo sobre Hikari. De modo que sou cuidadoso, caso contrário, ela vai me dizer “Hikari não diria isso”.

Entrevistador:

Por que o senhor decidiu usar os nomes verdadeiros de seus filhos – especialmente o nome de Hikari?

Oe:

No começo não usava seu nome. Eu o chamava de Eeyore em meus romances, mas na vida real eu o chamo de Pooh.

Entrevistador:

Por quê?

Oe:

Ursinho Pooh é a razão pela qual me casei com minha mulher. No finalzinho da guerra (Segunda Guerra Mundial), foi publicada uma tradução do Ursinho Pooh feita por Iwanami Shoten, um editor intelectual da época. Mas foram apenas alguns milhares de cópias. Eu conhecia Juzo Itami, irmão de minha mulher, do colégio, e a mãe deles me pediu para encontrar uma cópia de The house at Pooh corner (A casa no cantinho do Pooh, em tradução literal). Ela tinha lido isso durante a guerra, mas havia perdido seu exemplar.

Eu era um expert em sebos na cidade de Tóquio e sabia que poderia encontrar o livro. E encontrei. Enviei a encomenda para a casa deles e foi aí que começou uma correspondência com a filha dela. Foi assim que tudo começou. Mas é bom deixar claro que não me identifico com o Ursinho Pooh como personagem. Sou mais o tipo Eeyore.

Entrevistador:

Como sua família reagiu quando o senhor ganhou o Prêmio Nobel de Literatura?

Oe:

Minha família não mudou a maneira de me ver. Eu estava sentado aqui (na sala) lendo. Hikari estava ouvindo música ali. Meu outro filho, que era estudante de Bioquímica na Universidade de Tóquio, e minha filha, que estudava na Universidade de Sofia, estavam na sala de jantar. Eles não esperavam que eu ganhasse. O telefone tocou por volta de nove da noite. Hikari foi atender – é um de seus hobbies, atender o telefone. Ele consegue dizer ‘olá, como vai!’ perfeitamente em francês, alemão, russo, chinês e coreano. Então, ele atendeu o telefone e disse em inglês, ‘No’, e mais uma vez, ‘No’. Depois me passou a ligação.

Era um membro do Comitê Nobel da Academia Sueca. Ele me perguntou “É o Kenzaburo?” E eu perguntei a ele se Hikari tinha recusado o Prêmio Nobel por mim, e então disse “me desculpe, mas aceito”. Pus o telefone no gancho, voltei para a cadeira, me sentei, e dei a notícia à minha família. “Venci”, disse eu. E minha mulher replicou: “É mesmo?”.

Entrevistador:

Foi tudo que ela disse?

Oe:

Sim. E meus filhos não disseram nada. Apenas foram para o quarto silenciosamente. Hikari continuou a ouvir música. Nunca conversei com ele sobre o Prêmio Nobel.

Entrevistador:

O senhor ficou decepcionado com a reação deles?

Oe:

Voltei a ler meu livro, mas não pude deixar de me perguntar se a maioria das famílias reage daquela maneira. Depois o telefone não parou de tocar. Durante cinco horas não parei. Pessoas que eu conhecia. Pessoas que não conhecia. Meus filhos só queriam que os repórteres fossem embora. E eu desci a cortina para nos dar um pouco de paz.

Leia outras entrevistas com Kenzaburo Oe em português: