segunda-feira, 24 de novembro de 2014

A marca subjetiva do negro

Ainda estamos no mês da consciência negra. É uma agenda importante para todos (ao menos deveria ser). Para nós negros, é o tempo de refletir com mais força e clareza sobre o que pode ser essa marca subjetiva, criada para aprendermos a olhar dentro de nós mesmos e da sociedade que nos constrói como cidadãos ou nos nega essa construção.

Para utilizar um chavão filosófico, a consciência é a relação da alma consigo mesma. Mas também pode ser a relação das consciências individuais no interior da sociedade, a relação que fará a diferença no exercício da cidadania. Em todo caso, para alcançar a consciência negra, parece-me, é preciso colher um conjunto de fatores históricos, sociológicos, geográficos, jurídicos, psicológicos, afetivos, e analisá-los à luz da moral e da política.

Não há nada na condição humana do negro, no Brasil e nas terras da diáspora africana, que não passe pela questão dos valores (geralmente o status quo branco servindo de árbitro sobre o que presta ou não presta) e do poder (“quem manda sou eu, que sou branco e dono de tudo, e não aceito você”, ou “mando porque recebi o aval dos valores de quem sempre mandou”).

Consciência negra é o mergulho nessa reflexão para entender uma possível identidade, não a que exclui, mas a que quer ser incluída. É buscar a compreensão de por que estamos aqui e por que devemos continuar aqui, junto com todos os outros, brancos, indígenas e orientais. Mas sobretudo entender o fio que somos e o modo como ajudamos a construir o tecido social. E ir além. Pensar na relação entre capitalismo e racismo seria um avanço.

Consciência negra é perguntar e encontrar repostas sobre questões que nascem na África, passam pelo Atlântico em navios carregados, crescem e se multiplicam em solo brasileiro. É entender também que nem todo branco é racista, e que o negro que sofre racismo é vítima do racismo, mas isto não faz dele uma boa pessoa, embora possa fazê-lo ser mau.

É compreender o cinismo, o combustível do racismo à brasileira, usado para desconstruir – ou impedir que nasça – nossa real subjetividade e nos excluir. É entender como funciona o Estado e como estão armadas as instituições, e as pessoas dentro delas, no tratamento a nós dispensado.

Se sequestraram nossa voz, nossa capacidade analítica sobre nossa própria história, é hora de descobrirmos Cuti, Kabengele Munanga, Joel Rufino, Abdias Nascimento, Osvaldo Camargo, Carlos Moore, Neusa Santos Souza, pensadores de nossa condição que também são negros, e dialogarmos com estudiosos como Edward Telles, Gregory Rabassa, Roger Bastide, e tantos outros. Jamais achar que Shakespeare não nos interessa. A memória, as linguagens, o diálogo com quem quer dialogar, a cultura humana, as ideias includentes (na diferença), tudo interessa à consciência negra.

(Gilberto G. Pereira. Publicado originalmente em O Popular, 22/11/2014)

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